
A Netflix adicionou ao seu catálogo uma das produções de true crime mais sombrias e perturbadoras dos últimos tempos. O Monstro de Florença, minissérie baseada em fatos reais, revisita um dos casos criminais mais longos e controversos da Europa — e faz isso sem recorrer ao sensacionalismo fácil que costuma marcar o gênero.
Ao longo de quatro episódios, a série mergulha não apenas nos assassinatos que chocaram a Itália, mas principalmente no efeito psicológico, social e institucional deixado por décadas de investigação inconclusa. O resultado é uma obra densa, desconfortável e profundamente humana.

O Monstro de Florença é inspirada no livro de não ficção Il Mostro di Firenze e dramatiza uma sequência de assassinatos brutais cometidos contra casais em áreas rurais próximas à cidade de Florença, entre as décadas de 1960 e 1980.
Os crimes, marcados por extrema violência, permaneceram sem solução definitiva por anos, alimentando teorias, acusações equivocadas, erros judiciais e um clima permanente de paranoia. A série acompanha esse processo caótico, mostrando como a investigação se fragmenta à medida que o tempo passa — e como o medo se instala de forma duradoura na sociedade.
Diferente de muitas produções de true crime, O Monstro de Florença não se estrutura como um quebra-cabeça clássico que promete uma revelação final. Desde o início, a narrativa deixa claro que não haverá catarse, nem uma resposta simples para o horror apresentado.
A escolha por uma estrutura fragmentada, com múltiplos pontos de vista e saltos temporais, reflete o próprio fracasso da investigação real. Para o espectador, isso pode gerar frustração — mas essa frustração é parte essencial da experiência proposta pela série.
O foco não está apenas em “quem fez”, mas em como um sistema inteiro pode falhar repetidamente, alimentando suspeitas erradas, destruindo reputações e prolongando o sofrimento coletivo.
Um dos grandes acertos da série está em sua construção visual. As paisagens da Toscana, tradicionalmente associadas à tranquilidade, ao turismo e à beleza clássica, são ressignificadas como espaços de tensão silenciosa.

A fotografia aposta em tons frios, iluminação contida e enquadramentos que reforçam a sensação de isolamento. O contraste entre o cenário bucólico e a brutalidade dos crimes cria uma atmosfera constante de desconforto, fazendo com que o espectador nunca se sinta totalmente seguro — mesmo nas cenas aparentemente calmas.
As atuações contribuem decisivamente para o peso dramático da minissérie. Investigadores, jornalistas e personagens periféricos são apresentados como figuras humanas, exaustas, cheias de dúvidas e contradições, longe do arquétipo do herói infalível comum em séries policiais.
Esse retrato mais realista ajuda a série a se afastar do entretenimento puro e se aproximar de um estudo psicológico e social, no qual o crime não é apenas um evento isolado, mas um fenômeno que se espalha e contamina tudo ao redor.
É importante destacar que O Monstro de Florença não é uma série para maratonar em busca de adrenalina. O ritmo deliberadamente lento e a grande quantidade de personagens exigem atenção e paciência.
Para parte do público, essa abordagem pode soar arrastada ou confusa. Para outros, ela reforça justamente a sensação de impotência, desgaste e repetição que marcou a investigação real. A série assume o risco — e não tenta agradar a todos.
Se você procura uma série de true crime tradicional, com estrutura clara, suspense crescente e resolução final, O Monstro de Florença provavelmente não atenderá às expectativas.
Mas se o interesse está em narrativas densas, sombrias e reflexivas, que exploram o impacto emocional e social de crimes reais sem simplificações, a minissérie se destaca como uma das produções mais sérias e inquietantes da Netflix.
Ao final, o que permanece não é a solução de um mistério, mas a sensação incômoda de que algumas feridas históricas nunca se fecham completamente — e talvez não devam mesmo ser fechadas à força.
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