
Sabe aquela sensação de estar andando por um bairro onde você cresceu e, de repente, bater aquela pontada de nostalgia misturada com um frio na espinha? Você olha para a casa onde morava, para a esquina onde brincava, para o bueiro na calçada — e alguma coisa lá no fundo da sua memória tenta se mexer, mas não consegue. É como se você tivesse enterrado uma caixa ali, bem fundo, e agora não tivesse mais coragem de desenterrar.
It: A Coisa, de Stephen King, é exatamente essa caixa. E, quando você finalmente abre, descobre que o que estava dentro nunca deixou de existir. Só estava esperando você voltar.
Publicado em 1986, o livro é um dos marcos da carreira do mestre do terror — e também um dos mais ambiciosos. São mais de 1.100 páginas (na edição brasileira da Suma) que alternam entre dois tempos, duas infâncias, duas lutas contra o mesmo mal . É uma obra que funde literatura de formação com horror cósmico, amizade com abuso, memória com esquecimento. É, nas palavras de muitos críticos e fãs, o melhor livro de Stephen King .
E o centro de tudo isso é Pennywise, o Palhaço Dançarino. Mas não se engane: o verdadeiro horror de It não está no payaso. Está em Derry. Está nos adultos que não veem. Está no que acontece dentro das casas quando ninguém está olhando. Está, principalmente, em você — na criança que você foi e que talvez ainda more ali, escondida, atrás de uma porta que você jurou que ia manter fechada.
Vamos abrir essa porta?

A história começa com uma cena que já entrou para a história da literatura: um barquinho de papel navegando por uma sarjeta cheia de água de chuva, na cidadezinha de Derry, Maine . O barquinho é de Georgie Denbrough, de seis anos. Ele corre atrás dele, feliz, naquele dia chuvoso. Até que o barquinho some dentro de um bueiro. E de dentro do bueiro, alguém aparece.
Pennywise, o Palhaço Dançarino.
Ele tem um sorriso enorme, um balão vermelho na mão e uma voz amigável. Fala com Georgie, oferece o barquinho de volta. Georgie se aproxima. E, do outro lado daquela grade, o sorriso se abre mais. E mais. Até que não é mais um sorriso — é uma boca cheia de dentes afiados, um buraco de luzes mortas, um cheiro de podre. E o braço de Georgie… bem, o que sobra dele .
Georgie Denbrough morre naquela tarde. E, com sua morte, um novo ciclo de terror começa em Derry.
Bill Denbrough, o irmão mais velho de Georgie, não consegue superar. Ele carrega a culpa de ter deixado o irmão sair sozinho na chuva. Carrega a certeza de que algo errado está acontecendo — algo que os adultos insistem em ignorar. E, ao longo do verão de 1958, ele vai juntar um grupo improvável de amigos: Ben Hanscom, o garoto gordo e inteligente; Beverly Marsh, a única garota, vítima de abuso dentro de casa; Richie Tozier, o palhaço do grupo (a ironia não escapa); Eddie Kaspbrak, o hipocondríaco sufocado pela mãe; Stanley Uris, o judeu que observa o mundo com olhos de adulto; e Mike Hanlon, o único negro de Derry, que será o guardião da história .
Eles se autodenominam O Clube dos Perdedores . E vão descobrir, juntos, que Derry não é uma cidade comum. Que, desde sua fundação, ciclicamente, algo desperta a cada 27 anos para se alimentar do medo — especialmente do medo das crianças . Que esse algo pode assumir qualquer forma: um lobisomem, um monstro do pântano, um cadáver ambulante, um filme de terror que ganha vida. Mas sua forma favorita é um palhaço chamado Pennywise.
Eles enfrentam It. E, contra todas as probabilidades, vencem. Fazem um pacto: se um dia It voltar, eles também voltarão.
Passam-se 27 anos. É 1985. It está de volta. E o pacto precisa ser cumprido.
Se tem um personagem em It que quase ninguém percebe como personagem, esse personagem é Derry.
Derry é uma cidade fictícia do Maine, uma das três mais famosas criadas por Stephen King (ao lado de Castle Rock e Jerusalem’s Lot) . Ela é apresentada como uma cidade pequena, típica do interior americano, onde todo mundo se conhece, onde as crianças andam de bicicleta e os adultos cortam a grama aos sábados. Mas por baixo dessa fachada bucólica, Derry é um abatedouro.
Desde sua fundação, a cidade registra uma quantidade anormal de desaparecimentos e mortes de crianças. Casos que são engavetados, esquecidos, explicados como acidentes. Ninguém quer lembrar. Ninguém quer ver. E, o mais perturbador, é que ninguém consegue lembrar .
Um dos traços mais fascinantes — e aterrorizantes — de It é a amnésia coletiva que acomete os moradores de Derry. Sempre que It ataca, algo impede que os adultos percebam. Não é que eles não queiram ajudar. É que seus cérebros literalmente não registram o que está acontecendo. Um assassinato brutal vira um acidente de carro. Uma casa que teve as paredes pintadas de sangue vira um incêndio elétrico. A memória da cidade é uma peneira, e os buracos foram feitos propositalmente .
Como a pesquisa acadêmica da Universidade de Guadalajara apontou, os personagens principais sofrem de um quadro que se enquadra na amnésia psicogênica — a incapacidade repentina de recordar informações pessoais importantes, geralmente após um evento de estresse extremo . Eles não lembram do verão de 1958. Não lembram de It. Não lembram um do outro. É como se aquele pedaço de suas vidas tivesse sido apagado com uma borracha gigante. Até que Mike Hanlon, o único que ficou em Derry, começa a fazer as ligações:
“Você já ouviu falar, Ricky Lee, de uma amnésia tão completa que você nem sabia que estava com amnésia?”
E, de repente, a memória volta. E com ela, o terror.
O coração de It não é o palhaço. É o Clube dos Perdedores.
King faz algo extraordinário aqui: ele dedica centenas de páginas para que conheçamos cada um desses sete garotos. Suas histórias, seus medos, suas casas, suas famílias. E o que descobrimos é que, antes mesmo de It aparecer, cada um deles já estava sendo caçado por seus próprios monstros.
Bill Denbrough é o líder. Ele é o motor da história, movido pela culpa pela morte de Georgie e pela vontade de vingança. Mas Bill também é um garoto que perdeu os pais para a tristeza, que carrega a responsabilidade de ser o mais velho, que tem uma gagueira que explode nos momentos de maior tensão. Bill é o herói do grupo, mas é um herói quebrado, que só funciona quando os outros estão ao seu lado.
Ben Hanscom é o cérebro. Ele é o novo na cidade, gordo, inteligente, solitário. É ele quem descobre os ciclos de 27 anos, quem pesquisa a história de Derry, quem entende que It não é apenas um monstro, mas um padrão. Ben é também o romântico do grupo — apaixonado por Beverly desde o primeiro momento, capaz de construir um abrigo subterrâneo só para impressioná-la.
Beverly Marsh é a única garota. E isso, em Derry, é uma sentença. Seu pai a abusa — emocional, física, psicologicamente. Ele a acusa de ser “uma mulherzinha” quando ela começa a menstruar, como se a beleza dela fosse uma culpa que ele precisasse castigar . Beverly não tem um monstro no esgoto. O monstro dela mora na mesma casa, senta à mesma mesa, respira o mesmo ar. E, de certa forma, enfrentar It é mais fácil do que enfrentar seu pai.
Richie Tozier é a boca. Ele é o palhaço do grupo — e que ironia, enfrentar um palhaço maligno sendo o palhaço do grupo. Richie tem o dom das vozes, das imitações, das piadas que quebram a tensão nos momentos mais difíceis. Mas por trás da máscara de palhaço, há um garoto que também tem medo. Muito medo. Só que ele aprendeu que fazer os outros rirem é mais fácil do que mostrar a própria dor.
Eddie Kaspbrak é o hipocondríaco. Sua mãe o sufoca, o convence de que ele é frágil, doente, que o mundo lá fora é perigoso demais para ele. Eddie carrega um inalador de “placebo” — que talvez não faça nada, mas que representa tudo o que ele precisa: a proteção que nunca teve. Quando ele quebra o braço e descobre que não vai morrer, é um dos momentos mais libertadores do livro.
Stanley Uris é o observador. Ele é judeu, filho de um rabino, treinado desde pequeno para ver o mundo com olhos de adulto. Stanley é o mais lógico, o mais organizado, o mais “normal” do grupo. Por isso, talvez, seja o mais frágil. Porque a lógica não se sustenta diante do incompreensível. E quando a lógica desaba, Stanley desaba junto.
Mike Hanlon é a memória. Ele é o único negro de Derry, filho de um veterano de guerra que também enfrentou It décadas antes. Mike é o único que fica na cidade. É ele quem guarda os registros, quem pesquisa os ciclos, quem mantém viva a chama do pacto. Mike é o guardião, e carrega esse fardo sozinho por 27 anos. É ele quem faz as ligações. É ele quem lembra quando todos esqueceram.
Juntos, eles formam algo que nenhum deles conseguiria sozinho: uma comunidade de resistência. E King mostra, com uma delicadeza rara em livros de terror, que a amizade não é apenas um alívio cômico entre as cenas de susto. É o que os mantém vivos. É o que os faz acreditar que podem vencer. É, no fim das contas, a própria magia que o livro celebra .
Muita gente reduz It a “o livro do palhaço assassino”. Mas, se você prestar atenção, vai perceber que King está falando de algo muito mais profundo.
Como a análise crítica do Club de Escritura Fuentetaja apontou, o horror em It não é apenas sobrenatural. É doméstico. Beverly é abusada pelo pai. Eddie é sufocado pela mãe. Bill é abandonado emocionalmente pelos pais, que não conseguem superar a morte de Georgie. Os adultos de Derry são, na melhor das hipóteses, inúteis; na pior, cúmplices .
King está dizendo: o monstro não está só no esgoto. Ele está na sala de jantar, no quarto ao lado, na figura que deveria proteger e que, em vez disso, devora. E a criança que sofre isso aprende, desde cedo, que ninguém vai acreditar nela. Porque os adultos de Derry não veem. Os adultos de Derry não lembram. Os adultos de Derry são parte do problema.
Outro tema central é a perda da infância. Os Perdedores, quando se tornam adultos, esqueceram quase tudo sobre o verão de 1958. Esqueceram os medos, as aventuras, a amizade. Esqueceram It. É como se, ao se tornarem adultos, tivessem deixado para trás não apenas os monstros, mas também a coragem de enfrentá-los.
King está falando sobre a memória — e sobre como a gente constrói sua vida em cima de coisas que preferiu esquecer. O que aconteceu com você quando criança que você não lembra? O que você enterrou no porão da sua mente para poder seguir em frente? E o que aconteceria se, de repente, você tivesse que voltar lá e enfrentar tudo de novo?
A dedicatória do livro é uma das mais bonitas de King: “Crianças, a ficção é a verdade que se encontra dentro da mentira, e a verdade desta ficção é muito simples: a magia existe” .
A magia, em It, não é a magia de varinhas e feitiços. É a magia de acreditar. É a magia de olhar para os amigos e saber que, juntos, vocês podem enfrentar qualquer coisa. É a magia de recusar a lógica adulta que diz que “isso não está acontecendo” e insistir: “está sim, e eu vou fazer alguma coisa”.
Os Perdedores vencem It não porque são mais fortes. Vencem porque são seis (e depois sete). Porque compartilham o medo e, ao compartilhar, ele diminui. Porque, como diz a canção, ninguém solta a mão de ninguém.
It é um calhamaço. Na edição brasileira da Suma, são mais de 1.100 páginas . Dá medo só de olhar. Mas, como todo bom livro de King, as páginas voam.
A estrutura é um dos seus grandes trunfos. King alterna entre duas linhas do tempo:
Cada capítulo avança um pouco em cada linha, construindo uma narrativa paralela que mantém o suspense no limite . A gente sabe o que aconteceu em 1958, mas não sabe como isso vai se conectar com o presente. A gente sabe que os Perdedores venceram uma vez, mas não sabe se vão vencer de novo. E, o mais importante, a gente não sabe o que eles esqueceram.
Essa alternância também permite que King explore as duas idades com profundidade. A infância é descrita com uma nostalgia que dói — os dias sem fim, as bicicletas, as brincadeiras na rua, os primeiros amores. A vida adulta é descrita com uma frieza que também dói — as carreiras, os casamentos fracassados, a sensação de que algo se perdeu no caminho.
E, no meio de tudo, há os capítulos intercalados sobre a história de Derry. As explosões, os assassinatos em massa, os incêndios, os linchamentos — tudo acontecendo a cada 27 anos, tudo sendo esquecido no dia seguinte. É aí que King mostra que Derry não é uma cidade comum. É um ecossistema de horror, e It é apenas o predador no topo da cadeia.
It é uma obra-prima. Mas não é perfeita. Vamos aos pontos.
It: A Coisa está disponível no Brasil pela Editora Suma em uma edição de capa dura com 1.104 páginas, tradução de Regiane Winarski . O projeto gráfico é sóbrio e imponente — à altura do calhamaço.
O livro já ganhou duas adaptações cinematográficas:
Além disso, em 2025, estreou a série It: Bem-vindos a Derry, uma prequela que explora os ciclos anteriores de It e conecta Derry ao universo expandido de King — com aparições de Dick Hallorann (de O Iluminado) e menções a Shawshank (de Um Sonho de Liberdade) . É um prato cheio para os fãs que querem ver o “Kingverso” ganhando forma nas telas.
Recomendado para:
Não recomendado para:
It: A Coisa não é apenas um livro de terror. É um livro sobre crescer. Sobre os monstros que enfrentamos quando crianças — os de verdade, dentro de casa, e os que a gente inventa para explicar o inexplicável. É sobre como a amizade pode ser a única coisa que nos mantém inteiros. E sobre como, quando viramos adultos, a gente esquece. Esquece os amigos, esquece os medos, esquece a coragem que a gente tinha. Até que, um dia, a vida nos obriga a voltar.
King escreveu It no auge de sua carreira, quando já era um fenômeno, mas ainda não tinha se tornado o “Stephen King institucional” que conhecemos hoje. É um livro cheio de raiva, de dor, de esperança desesperada. É um livro que não pede licença, que não se desculpa por ser longo, que não suaviza os cantos. E, por isso mesmo, é um livro que gruda.
Uma leitora do Quelibroleo resumiu: “Adentrar-se na história, ou melhor, nas histórias, porque seus personagens têm aspectos e detalhes que vocês, como eu, também têm. Esta novela é superlativa: King pega a inocência e ternura da infância, o valor da amizade, e os mistura com os temores infantis, o bullying, abusos, discriminação e traumas que inevitavelmente repercutirão na idade adulta” .
Outro leitor completou: “Mais do que um livro de terror, é um reflexo do que qualquer criança pode viver ao ser discriminada por sua raça, religião, aspecto físico, condição econômica, ser vítima de maltrato físico e psicológico por parte de seus pais ou colegas de escola; e como essas experiências influenciam a personalidade na idade adulta” .
Então, se você está disposto a encarar, vai em frente. Mas, se me permite um conselho: não leia sozinho à noite. E, quando terminar, procure seus amigos. Agradeça por eles. E, talvez, relembre os verões da sua infância — aqueles em que vocês juravam que iam ser amigos para sempre.
Porque, no fundo, It é sobre isso. Sobre lembrar. Sobre não esquecer. Sobre acreditar que a magia existe. E que, quando a gente se junta, nenhum monstro é grande demais.
Ficha Técnica:
| Item | Informação |
|---|---|
| Título | It: A Coisa |
| Autor | Stephen King |
| Editora | Suma |
| Tradução | Regiane Winarski |
| Páginas | 1.104 |
| Ano | 2019 (original: 1986) |
| ISBN | 978-8556510884 |
| Gênero | Terror Psicológico / Horror Cósmico / Romance de Formação |
| Formato | Capa dura |
| Classificação etária | 18 anos |







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