Bom Dia, Verônica: violência doméstica e poder em colapso

Em Bom Dia, Verônica, romance escrito por Raphael Montes em parceria com Ilana Casoy, o autor se afasta do jogo psicológico fechado de outras obras para encarar um terror mais direto, social e profundamente real. Publicado pela Companhia das Letras, o livro constrói um thriller que nasce menos do mistério e mais daquilo que já está à vista — mas é sistematicamente ignorado.

Bom Dia, Verônica não trata da violência como exceção extrema. Ao contrário: seu maior impacto vem da constatação de que o horror está inserido na rotina, nos lares, nas instituições e na normalização do abuso. É um livro que provoca não pelo choque isolado, mas pela repetição sufocante do silêncio.

Crédito: Companhia das Letras

Uma protagonista cansada de obedecer

A história acompanha Verônica Torres, uma escrivã da polícia acostumada a ouvir denúncias que raramente chegam a lugar algum. No início do romance, ela é mais observadora do que agente, alguém que cumpre protocolos sem ilusões sobre justiça ou reparação.

Esse ponto de partida é essencial. Raphael Montes constrói uma protagonista comum, exausta e emocionalmente desgastada, cuja transformação não ocorre por heroísmo súbito, mas por acúmulo. O que a move não é coragem idealizada, mas indignação tardia.

Em Bom Dia, Verônica Raphael Montes, a mudança acontece quando ignorar deixa de ser possível.

Violência doméstica sem metáforas

Diferente de outras obras do autor, aqui não há grande esforço de simbolização. A violência doméstica é mostrada de forma direta, sem alegorias, sem romantização e sem conforto narrativo. O livro expõe agressões físicas, psicológicas e institucionais com um realismo que incomoda justamente por ser reconhecível.

Raphael Montes opta por um tom quase documental em vários momentos. O leitor não é convidado a desvendar enigmas sofisticados, mas a testemunhar a repetição do abuso e a falência dos sistemas de proteção.

Esse realismo desloca o romance do território do entretenimento puro e o aproxima de uma crítica social contundente.

Poder, masculinidade e impunidade

Outro eixo central do livro é a relação entre poder e violência. Bom Dia, Verônica expõe como cargos, reputações e estruturas institucionais funcionam como escudos para agressores. A brutalidade não se sustenta apenas pela força física, mas pela certeza da impunidade.

Raphael Montes constrói antagonistas que não dependem do mistério para causar medo. Eles são assustadores porque representam um tipo de ameaça recorrente: homens protegidos por sistemas que deveriam combatê-los.

Essa abordagem torna o livro especialmente incômodo. O horror não termina com a última página, porque ele ecoa na realidade.

Ritmo de investigação e tensão contínua

Embora trate de temas pesados, o romance mantém ritmo de thriller. A investigação conduzida por Verônica avança em meio a riscos constantes, decisões mal calculadas e ameaças que se aproximam de forma gradual.

O suspense não vem de reviravoltas espetaculares, mas da sensação de que a protagonista está sempre em desvantagem. Cada passo à frente parece expor ainda mais sua vulnerabilidade.

Essa construção mantém o leitor em estado de alerta, sem recorrer a excessos estilísticos.

Um livro sobre escuta — e sobre falha

Talvez o aspecto mais perturbador de Bom Dia, Verônica seja sua insistência em mostrar quantas vozes não são ouvidas. O livro não trata apenas da violência em si, mas do processo sistemático de desacreditar vítimas, minimizar denúncias e transformar sofrimento em estatística.

Raphael Montes constrói uma narrativa que gira em torno da escuta — ou da ausência dela. O terror nasce quando a violência se repete porque ninguém quis ouvir da primeira vez.

Lugar na obra de Raphael Montes

Dentro da bibliografia do autor, Bom Dia, Verônica marca uma virada temática importante. É menos lúdico, menos experimental e mais frontal. Se em livros como Suicidas ou Jantar Secreto o horror surge de jogos extremos, aqui ele está enraizado na realidade social.

Essa mudança amplia o alcance da obra e explica sua forte repercussão entre leitores. Trata-se de um livro que incomoda não apenas pelo enredo, mas pela identificação inevitável com o que é retratado.

Conclusão

Bom Dia, Verônica é um thriller duro, necessário e profundamente desconfortável. Raphael Montes constrói uma narrativa que expõe a violência doméstica sem filtros e questiona a passividade institucional diante do abuso.

Não é um livro feito para distração. É uma leitura que exige atenção, maturidade emocional e disposição para encarar o que muitas vezes preferimos ignorar. Justamente por isso, é uma das obras mais impactantes do autor.


📘 Ficha técnica da obra

  • Título: Bom Dia, Verônica
  • Autor: Raphael Montes (com Ilana Casoy)
  • Gênero: Thriller, suspense policial
  • Editora: Companhia das Letras
  • Ano de publicação: 2016
  • Formato: Livro físico, e-book
  • Idioma: Português
  • País de origem: Brasil

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