
Sabe aquela sensação de terminar um livro e pensar: “poxa, queria que tivesse durado mais”? Pois bem, esquece. Com A Mandíbula de Caim você vai ter a experiência oposta: vai terminar e pensar “meu Deus, nunca mais vou ser o mesmo” – e olha que estou falando de um livro com 216 páginas que você provavelmente vai ler umas quarenta vezes antes de entender patavinas .
Parece loucura? Bem-vindo ao clube. Senta que lá vem história.
Imagine que Agatha Christie e Umberto Eco tivessem um filho que crescesse obcecado por palavras cruzadas. Agora imagine que essa criança, ao se tornar adulta, decidisse escrever um livro onde as páginas viessem completamente fora de ordem – tipo aquele parente que conta a história do casamento começando pelo discurso do padrinho, passando pelo “sim” e terminando no convite.
É exatamente isso que Edward Powys Mathers, usando o pseudônimo de Torquemada (sim, como o inquisidor – e não, não é coincidência), fez em 1934 . E a humanidade até hoje tenta se recuperar.
Na trama (se é que podemos chamar assim), seis pessoas morrem. Não sabemos quem são. Não sabemos quem matou. Na verdade, nem sabemos a ordem dos acontecimentos. O leitor precisa descobrir os nomes das seis vítimas e de seus respectivos assassinos, mas para isso… precisa primeiro organizar as 100 páginas do livro na sequência correta .
Simples, não? Bem, as combinações possíveis das 100 páginas geram um número com 158 algarismos . É mais fácil você ganhar na mega-sena duas vezes seguidas do que acertar a ordem no chute.
Edward Powys Mathers não era um escritor comum. O cara era o pioneiro das palavras cruzadas enigmáticas na Inglaterra, publicando suas criaturas no jornal The Observer sob o sinistro pseudônimo de Torquemada . Ele acreditava – e isso é importante – que um quebra-cabeça devia ser extremamente difícil, mas igualmente compensador quando solucionado .
Além disso, era tradutor brilhante (responsável por uma versão de As mil e uma noites) e crítico literário especializado em ficção criminal . Ou seja: o homem sabia exatamente o que estava fazendo quando resolveu torturar leitores pelo resto da eternidade.
O título, aliás, é uma referência direta à Bíblia: a mandíbula de um animal teria sido a primeira arma usada por Caim para matar seu irmão Abel . Já deu pra sentir o clima, né?
Agora vem a parte mais surreal da história. Durante décadas, A Mandíbula de Caim ficou esquecido. Até que, em novembro de 2021, uma moça de San Francisco chamada Sarah Scannell entrou numa livraria, comprou o livro e postou um vídeo no TikTok dizendo que ia tentar resolver o enigma “como oportunidade para realizar o sonho de toda uma vida, de transformar as paredes de meu quarto em um quadro de assassinatos” .
O vídeo viralizou. 6,6 milhões de visualizações .
De repente, milhares de pessoas ao redor do mundo estavam fazendo a mesma coisa: destacando as páginas dos livros, fixando nas paredes com fita adesiva, criando aquelas cenas dignas de filme de detetive com fotos, linhas e teorias .
A editora Intrínseca, esperta como ela só, lançou a edição brasileira em dezembro de 2022 – com um detalhe genial: páginas destacáveis . Porque sim, para tentar resolver esse negócio, você PRECISA rasgar o livro. Literalmente. Aquela linha pontilhada não está ali à toa.
E vendeu 140 mil cópias em menos de um mês . Um livro de 1934, escrito por um cara que adorava torturar leitores com palavras cruzadas, virou best-seller entre a garotada do TikTok. Viva a internet.
Prepare o coração: desde 1934, apenas quatro pessoas no mundo (reconhecidamente) conseguiram solucionar o mistério .
Em 1935, dois leitores – um tal de S. Sydney-Turner e W.S. Kennedy – acertaram a ordem e levaram pra casa um prêmio de 15 libras (uns 2 mil dólares em valores de hoje) .
Depois disso, silêncio. O livro virou peça de museu.
Em 2019, uma editora inglesa chamada Unbound resolveu relançar a obra com um prêmio de 1.000 libras para quem resolvesse em um ano. Doze pessoas enviaram respostas. Apenas uma acertou: o comediante e escritor de palavras cruzadas John Finnemore, que passou quatro meses de confinamento da pandemia mergulhado nessa loucura .
E no Brasil? Até julho de 2023, dois brasileiros conseguiram o feito: Flávio (23 anos) e Camila (16 anos), ambos aficionados por mistério, resolveram o enigma em dois meses de dedicação .
A editora Intrínseca, aliás, ofereceu um prêmio tentador para quem conseguisse resolver até agosto de 2023: uma viagem ao Rio de Janeiro para conhecer o escritório da editora . Não é o prêmio de mil libras, mas hey – passagem pro Rio é passagem pro Rio.
Vamos por partes, porque o negócio é complexo.
Primeiro: as narrativas são em primeira pessoa, mas existem MÚLTIPLOS narradores. Estima-se que haja uns cinco, e um deles… é um cachorro chamado Henry . Pois é. Tem um depoimento no Goodreads de um leitor desconfiado: “Eu suspeitei algumas vezes. ‘Uma pena sobre o ciúme insano de Dickens por galinhas, e quase se podia desconfiar de sua desconfiança mórbida por ovelhas’ é uma frase que só faz sentido se for sobre um cachorro” .
Segundo: cada página é um parágrafo solto que parece não fazer sentido isoladamente. Um leitor do Goodreads resumiu bem: “Li todas as palavras, mas certamente não faço ideia de quem é quem, quantos cachorros existem, quem Mithridatiza quem, nem por que tantas linhas de poesia aleatórias foram inseridas apenas para parecer culto” .
Terceiro: as referências são obscuríssimas. Mathers adorava citar coisas que só quem tinha a 11ª edição da Encyclopædia Britannica em casa entenderia . Nomes, lugares, eventos, poemas, trocadilhos – tudo ancorado na cultura britânica dos anos 1930.
Quarto: palavras são anagramas. Personagens trocam de nomes. Identidades se confundem. Aquela página que você achou que era sobre uma pessoa pode ser sobre outra completamente diferente .
Se você chegou até aqui, provavelmente está pensando: “sou inteligente, consigo resolver”. Amigo, senta, respira e ouve os conselhos de quem já tentou:
Olha, A Mandíbula de Caim não é um livro para se ler. É um livro para se experienciar. Se você busca uma narrativa linear, com começo, meio e fim, passa longe. Agora, se você topa o desafio de virar detetive por alguns meses (ou anos), de ter as paredes do quarto cobertas de páginas numeradas, de discutir teorias com estranhos na internet… então corre atrás.
A edição da Intrínseca está linda: capa em papel cartão, miolo em papel pólen levemente amarelado, fonte com serifa que facilita a leitura prolongada, espaço para anotações em cada página . Tudo pensado para a experiência.
E tem mais: quando você compra, está participando de uma tradição que começou em 1934. Está se juntando a uma comunidade global de malucos que adoram sofrer. Está, de certa forma, conversando com Edward Powys Mathers através do tempo – e ele, do além, deve estar dando risada da nossa cara.
Veredito: Recomendadíssimo para fãs de mistério, enigmas, palavras cruzadas e pessoas que gostam de sentir dor de cabeça de forma prazerosa. Não recomendado para quem quer ler algo rápido no ônibus ou para quem tem pressão alta.
E você? Vai encarar o desafio? Me conta nos comentários se já tentou resolver – ou se ficou com medo só de ler essa resenha.
Ficha Técnica:
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