Casa de Amityville: A Verdadeira História da Família Lutz

Em dezembro de 1975, uma família de cinco pessoas mudou-se para uma mansão colonial holandesa em Amityville, Nova York, sem imaginar que seus 28 dias naquela casa se tornariam uma das lendas de terror mais duradouras da história americana. George e Kathy Lutz, junto com os três filhos de Kathy, compraram o imóvel por um valor incrivelmente baixo: US$ 80 mil . O preço tinha um motivo — ali, exatamente um ano antes, seis pessoas haviam sido assassinadas enquanto dormiam.

O que os Lutz viveram nas quatro semanas seguintes foi tão aterrorizante que os fez abandonar a Casa de Amityville no meio da noite, deixando todos os seus pertences para trás. Sua história virou um best-seller, depois um filme que arrecadou US$ 86 milhões , e finalmente uma franquia com mais de 45 títulos. Mas o que realmente aconteceu dentro daquela casa? A verdadeira história da Casa de Amityville é muito mais complexa — e controversa — do que os filmes mostram.

Neste artigo, vamos mergulhar fundo no caso de Amityville, desde a chacina dos DeFeo que assombrou a vizinhança, passando pelos 28 dias que os Lutz passaram no inferno dentro da Casa de Amityville, até a revelação que chocou o mundo: tudo poderia ter sido uma farsa elaborada entre muitas garrafas de vinho.

Capítulo I: O Crime que Tudo Começou

A Família DeFeo

A história da Casa de Amityville não começa com os Lutz, mas com os DeFeo. A família DeFeo mudou-se para a casa de três andares na 112 Ocean Avenue em 1965, vindo do Brooklyn. Eram Ronald DeFeo Sr., de 44 anos, sua esposa Louise, de 43, e seus cinco filhos: Dawn, 18; Allison, 13; Mark, 12; John, 9; e Ronald DeFeo Jr., de 23 anos, conhecido como “Butch” .

A família era descrita pelos vizinhos como “agradável e normal” . Mas por trás das portas da imponente mansão, algo estava profundamente errado. Butch, o filho mais velho, já tinha um pequeno histórico delitivo e era usuário de heroína. O relacionamento com o pai era tenso e frequentemente violento .

A Noite dos Assassinatos

Na madrugada de 13 de novembro de 1974, por volta das 3h15, Butch pegou um rifle de alta potência e matou toda a sua família enquanto dormiam em suas camas . As vítimas foram encontradas todas de bruços, com a cabeça apoiada nos braços, em uma formação quase macabra . A mãe, Louise, foi a única que recebeu um tiro na cabeça — os demais foram alvejados pelas costas.

Após o massacre, Butch guardou a arma, recolheu as roupas manchadas de sangue e as jogou em uma almofada que mais tarde seria encontrada em um bueiro . Ele então foi até um bar chamado The Witches’ Brew e disse ao atendente que alguém havia atirado em seus pais. Juntos, voltaram para a Casa de Amityville e chamaram a polícia .

A coartada de Butch não durou muito. As inconsistências em seu depoimento e o fato de ser o único sobrevivente o tornaram o principal suspeito. No julgamento, ele alegou ter ouvido vozes demoníacas que o obrigavam a matar sua família, uma versão que os jurados rejeitaram . Butch foi condenado a seis penas consecutivas de 25 anos de prisão, totalizando 150 anos de reclusão . Ele morreu na prisão em 2021.

Com os DeFeo mortos e Butch atrás das grades, a Casa de Amityville permaneceu vazia por quase um ano. Até que os Lutz apareceram.

Capítulo II: A Chegada dos Lutz

A Casa dos Sonhos

George Lutz tinha 30 anos e dirigia sua própria empresa de topografia. Ele e a esposa Kathy, também de 30 anos, procuravam uma casa com espaço para os três filhos de Kathy e para que George pudesse instalar seu escritório .

Após visitar mais de 50 imóveis, George recebeu uma ligação de uma corretora de imóveis em Massapequa Park. Havia uma casa que ela queria mostrar a eles — uma mansão colonial holandesa de três andares, com seis quartos, piscina aquecida e um píer sobre o rio Amityville . O preço era surpreendente: US$ 80 mil, muito abaixo do valor de mercado.

Apenas durante a visita a corretora revelou o motivo: aquela era a Casa de Amityville, onde os DeFeo haviam sido assassinados . George e Kathy, no entanto, mantiveram-se indiferentes. “Afinal, os fantasmas não matam, as casas também não, apenas as pessoas matam”, teria dito George .

Eles compraram a propriedade em 18 de dezembro de 1975 e se mudaram com os três filhos. A placa na entrada, deixada pelo antigo proprietário, trazia um nome quase profético: “High Hopes” .

Os Primeiros Sinais

De acordo com os relatos que os Lutz deram ao escritor Jay Anson, os fenômenos começaram quase imediatamente após a mudança para a Casa de Amityville.

Um padre católico foi chamado para abençoar a casa devido ao seu histórico macabro . Segundo a história, ao entrar em um dos quartos do andar de cima, o sacerdote sentiu uma presença sinistra e ouviu uma voz gutural gritando: “Saia!” . Ele teria saído correndo, com bolhas dolorosas nas mãos .

A partir daí, o inferno começou.

As portas batiam sozinhas a qualquer hora. Um frio persistente tomava conta da Casa de Amityville, mesmo com as lareiras acesas. Gotas de uma substância gelatinosa — verde, preta ou vermelha, dependendo da versão — apareciam nas paredes e no tapete . Uma horda de moscas invadiu a casa em pleno inverno, uma das cenas mais icônicas do filme .

E então vieram as visões.

Capítulo III: Os 28 Dias no Inferno

O Porco de Olhos Vermelhos

Uma das aparições mais famosas relatadas pelos Lutz era uma criatura que eles chamavam de “Jodie”. Descrita como um porco de olhos vermelhos, Jodie podia mudar de tamanho — de um ursinho de pelúcia a algo maior que uma casa . A figura aparecia nas janelas, especialmente no quarto da filha mais nova, e deixava pegadas no jardim coberto de neve da Casa de Amityville.

A imagem do porco demoníaco com olhos flamejantes tornou-se um dos símbolos mais duradouros do mito de Amityville. Nos anos seguintes, descobriu-se que a ideia teria surgido de um detalhe da vida real: um gato da vizinhança que costumava espiar pela janela dos DeFeo, transformado pela imaginação dos Lutz e do advogado William Weber em algo muito mais aterrorizante .

A Levitação e a Metamorfose

As noites na Casa de Amityville eram as piores. George Lutz relatou que acordava todas as madrugadas exatamente às 3h15 — o horário em que Butch DeFeo havia cometido os assassinatos .

Em uma das noites, Kathy teria se transformado em uma mulher de 90 anos, com o rosto enrugado e envelhecido diante dos olhos do marido. Em outra, George acordou para encontrar sua esposa levitando acima da cama, flutuando no ar antes de cair de volta no colchão .

O filho mais velho de Kathy tinha pesadelos recorrentes com a figura de Jodie. As crianças acordavam assustadas, afirmando que não conseguiam se mover ou sair dos quartos . Objetos voavam pela sala. O cheiro de enxofre e carne podre se espalhava pelos cômodos sem explicação.

Por 28 dias, a família suportou o que descreveram como um cerco sobrenatural dentro da Casa de Amityville. Até que não aguentaram mais.

A Fuga

Na noite de 14 de janeiro de 1976, os Lutz tomaram uma decisão drástica. Deixaram a Casa de Amityville imediatamente, abandonando todos os seus pertences. Roupas, móveis, objetos pessoais — tudo ficou para trás . Mudaram-se para a casa da mãe de Kathy e nunca mais voltaram .

A fuga em meio à noite, sem levar nada, era exatamente o tipo de detalhe que tornava a história convincente. Quem fugiria de uma casa no meio da noite sem sequer fazer as malas, a menos que estivesse realmente aterrorizado?

Nos meses seguintes, os Lutz começaram a contar sua história a qualquer um que quisesse ouvir. E não demorou muito para que alguém importante os ouvisse.

Capítulo IV: A Criação do Mito

Casa de Amityville
Crédito: Portal Sobrenatural

O Livro

O escritor Jay Anson foi contratado para transformar as fitas com os relatos dos Lutz em um livro. Ele ouviu 35 horas de entrevistas e, em setembro de 1977, publicou “The Amityville Horror: A True Story” . O livro foi um sucesso instantâneo, vendendo cerca de 10 milhões de cópias .

A página de direitos autorais afirmava que “todos os fatos e eventos, tanto quanto pudemos verificar, são estritamente precisos” . Mas Anson admitiria mais tarde que não verificou absolutamente nada. Ele simplesmente escreveu o que ouviu nas fitas .

O Filme

Em 1979, a American International Pictures lançou a adaptação cinematográfica com James Brolin e Margot Kidder como George e Kathy Lutz, e Rod Steiger como o padre . O orçamento foi modesto: US$ 4,7 milhões. A bilheteria foi estrondosa: US$ 86,4 milhões, tornando-o o filme independente de maior sucesso até aquela data .

A crítica detestou. Roger Ebert chamou o filme de “deprimente” e “desagradável” . Mas o público adorou. A alegação de que a história era “baseada em fatos reais” atraía os espectadores como moscas. Stephen King, em seu livro “Danse Macabre”, ofereceu uma análise perspicaz: o sucesso do filme não vinha apenas do terror sobrenatural, mas da ansiedade financeira da época. Os Lutz haviam investido tudo na Casa de Amityville, e o público se identificava com o medo de perder o patrimônio .

Nos anos seguintes, dezenas de sequências, remakes e spin-offs seriam lançados. O nome “Amityville” tornou-se uma franquia por si só, com mais de 45 filmes .

Capítulo V: A Confissão e o Desmascaramento

As Garrafas de Vinho

Em 1979, o advogado de defesa de Ronald DeFeo Jr., William Weber, revelou algo que abalou os alicerces do mito da Casa de Amityville. Ele admitiu que ele e os Lutz haviam inventado a história da casa assombrada durante uma noite de brainstorming regada a “muitas garrafas de vinho” .

Weber afirmou que, após a condenação de Butch, ele planejava usar a alegação de possessão demoníaca para conseguir um novo julgamento para seu cliente . A ideia era convencer o público de que os demônios que atormentavam a Casa de Amityville eram reais — e que Butch havia sido vítima deles. Os Lutz, endividados e incapazes de pagar as prestações da casa, viram na história uma oportunidade de lucrar.

Segundo Weber, os detalhes “paranormais” foram criados a partir de fatos reais, mas distorcidos:

  • O gato da vizinha que espreitava a janela da família DeFeo transformou-se no porco de olhos vermelhos .
  • Uma briga entre os pais DeFeo, em que o pai jogou molho de espaguete na parede, transformou-se no gosma vermelha .
  • A casa em dificuldades financeiras tornou-se o cenário de um cerco demoníaco.

Weber e os Lutz brigaram pela divisão dos direitos do livro, e ele decidiu expor a farsa.

As Inconsistências

Pesquisadores como Joe Nickell e Rick Moran catalogaram mais de cem erros factuais na história da Casa de Amityville . Alguns exemplos:

  • Os Lutz afirmaram ter encontrado pegadas de porco na neve — mas os registros meteorológicos mostram que não houve neve na região naquela noite .
  • As portas e fechaduras da Casa de Amityville estavam intactas, sem os danos descritos no livro .
  • Durante os 28 dias de “cerco”, os Lutz nunca chamaram a polícia .
  • O padre mencionado no livro não estava presente na casa, segundo seu próprio depoimento .

O próprio escritor Jay Anson, quando questionado sobre a veracidade do livro, deu respostas evasivas: “Não tenho ideia se o livro é verdadeiro ou não. Mas tenho certeza de que os Lutz acreditam que o que me contaram é verdade” .

Os Proprietários Posteriores

Em 1977, James e Barbara Cromarty compraram a Casa de Amityville dos Lutz. Moraram ali por dez anos e afirmaram categoricamente que nunca presenciaram nada sobrenatural . “A única coisa estranha era o número de curiosos que apareciam por causa do livro e do filme”, disse James Cromarty .

Casa de Amityville foi vendida novamente em 2016 por US$ 850 mil . Nenhum dos proprietários posteriores relatou fenômenos inexplicáveis.

Capítulo VI: A Casa Hoje

A Transformação

Com o passar das décadas, a famosa Casa de Amityville passou por várias transformações. O número foi alterado de 112 para 108 Ocean Avenue na tentativa de despistar turistas e curiosos . As características janelas arredondadas do terceiro andar foram substituídas por janelas retangulares com venezianas, mudando completamente a aparência da fachada .

A piscina foi aterrada, a cozinha e o porão foram reformados. A Casa de Amityville continua sendo uma residência particular e não está aberta a visitas . O último proprietário conhecido comprou o imóvel em 2016, e o valor de venda em 2024 foi estimado em cerca de US$ 1,7 milhão para uma propriedade vizinha usada nas filmagens .

O Legado

Apesar das evidências esmagadoras de que a história dos Lutz foi uma farsa, o mito da Casa de Amityville se recusa a morrer. A casa continua sendo um destino de peregrinação para fãs de terror. Em 2010, um proprietário abriu as portas por algumas horas, permitindo que centenas de curiosos vissem os cômodos onde o crime aconteceu .

Os próprios Lutz nunca retrataram sua história. Em 1979, George Lutz disse ao Washington Post: “Nossos críticos são pessoas que nunca estiveram na casa, apenas leram um livro. Ninguém que esteve na Casa de Amityville, que investigou, jamais chamou isso de farsa” .

Mas a verdade é que os críticos estiveram lá — e não encontraram nada.

Conclusão: O Verdadeiro Horror da Casa de Amityville

O caso da Casa de Amityville nos deixa com uma lição perturbadora. O verdadeiro horror não estava nos fantasmas, no gosma verde, no porco de olhos vermelhos ou na cama levitando. O verdadeiro horror era real: uma família inteira assassinada por um de seus membros, uma tragédia brutal que chocou a vizinhança e deixou seis corpos estirados em suas camas.

A família Lutz viu naquela tragédia uma oportunidade. Endividados, incapazes de pagar a Casa de Amityville que haviam comprado, transformaram uma história real de violência em uma lenda sobrenatural que venderia milhões de livros e ingressos de cinema. E, no processo, criaram um mito que sobrevive até hoje.

O sociólogo Robert Bartholomew, especialista em histeria coletiva, resume: “O mito da Casa de Amityville persiste diante de evidências esmagadoras em contrário. É evidente que é uma farsa, mas as pessoas ainda querem acreditar” .

E você, depois de conhecer todos os fatos, o que acha? A família Lutz foi realmente vítima de uma possessão demoníaca dentro da Casa de Amityville, ou criou uma das maiores fraudes da história do terror? A resposta, como quase tudo em Amityville, depende de quem você pergunta. Mas os fatos falam por si mesmos.

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