O Bom Mal: o desconforto sutil de Samanta Schweblin

Em O Bom Mal, a escritora argentina Samanta Schweblin aprofunda uma das marcas mais reconhecíveis de sua obra: a capacidade de transformar situações aparentemente comuns em experiências profundamente perturbadoras. Publicado no Brasil pela Fósforo Editora, o livro reúne contos que operam no limite entre o afeto e a ameaça, entre o cuidado e a violência simbólica, criando um mal-estar persistente que acompanha o leitor muito depois do fim da leitura.

O Bom Mal não trabalha com o horror explícito. Não há monstros, cenas gráficas ou explicações sobrenaturais diretas. O que Schweblin constrói aqui é um terror psicológico silencioso, feito de pequenas distorções da realidade, gestos ambíguos e relações atravessadas por uma lógica que parece protetora, mas esconde algo profundamente errado. O título já anuncia essa ambiguidade: o mal que se apresenta como bom, necessário ou justificável.

Crédito: Fósforo Editora

Contos que operam no limite do cotidiano

Assim como em outras obras da autora, O Bom Mal parte de situações reconhecíveis: relações familiares, vínculos afetivos, ambientes domésticos, rotinas aparentemente estáveis. É nesse terreno familiar que Schweblin instala o desconforto. Algo está sempre ligeiramente fora do lugar — uma decisão estranha, um silêncio excessivo, um comportamento que não encontra explicação clara.

Os contos não se desenvolvem rumo a grandes revelações. Pelo contrário: eles frequentemente terminam no ponto de maior tensão, deixando o leitor suspenso em uma sensação de incompletude. Essa escolha narrativa não é um recurso de economia, mas uma estratégia central da autora. Schweblin confia no leitor e em sua capacidade de perceber que o verdadeiro horror está nas entrelinhas.

O mal, aqui, não se impõe de fora. Ele surge de dentro das relações, muitas vezes disfarçado de zelo, responsabilidade ou amor.

O afeto como território perigoso

Um dos temas mais fortes de O Bom Mal é a maneira como o afeto pode se tornar uma forma de controle. Pais, mães, parceiros, amigos — todos podem agir movidos por algo que acreditam ser cuidado, mas que, na prática, sufoca, limita ou violenta o outro.

Samanta Schweblin explora com precisão esse ponto cego moral: até que ponto o bem que acreditamos fazer justifica o dano que causamos? Os personagens raramente se veem como agentes do mal. Eles estão convencidos de que agem corretamente, de que não há alternativa melhor. É essa convicção que torna as histórias tão inquietantes.

O leitor percebe, aos poucos, que não há vilões clássicos nos contos. O perigo nasce da normalização de atitudes abusivas, da dificuldade de reconhecer limites e da tendência humana de racionalizar comportamentos questionáveis.

Escrita econômica, impacto duradouro

A linguagem de Schweblin é contida, precisa e extremamente eficaz. Não há excesso de adjetivos nem descrições prolongadas. Cada frase parece calculada para produzir efeito máximo com o mínimo de explicação. Essa economia narrativa cria um ritmo particular: a leitura avança rapidamente, mas o impacto emocional é lento e cumulativo.

Em O Bom Mal, a autora utiliza o silêncio como ferramenta literária. O que não é dito pesa tanto quanto o que está na página. Muitas vezes, o momento mais perturbador de um conto não é uma ação concreta, mas a percepção de que algo foi omitido — e de que essa omissão é deliberada.

Essa estratégia aproxima o livro de um tipo de horror existencial, onde o medo não se manifesta como choque, mas como desconfiança constante da realidade.

Corpo, vulnerabilidade e limites

Outro eixo importante da obra é a vulnerabilidade do corpo. Crianças, idosos, pessoas em situação de fragilidade física ou emocional aparecem com frequência nos contos, não como vítimas óbvias, mas como figuras expostas a decisões tomadas por outros em seu nome.

Schweblin questiona quem tem o direito de decidir pelo outro e quais são as consequências dessa transferência de poder. Em muitos contos, o corpo se torna território de disputa — não necessariamente violenta, mas profundamente invasiva.

Essa abordagem confere ao livro uma dimensão ética forte. O desconforto que ele provoca não vem apenas da atmosfera estranha, mas da sensação de que essas situações poderiam acontecer — ou já aconteceram — no mundo real.

Um mal sem explicação definitiva

Um dos aspectos mais marcantes de O Bom Mal é a recusa em explicar totalmente suas próprias regras. Schweblin não oferece chaves interpretativas claras nem encerra os conflitos de forma reconfortante. O leitor é obrigado a conviver com a ambiguidade, a aceitar que nem tudo pode ser compreendido ou resolvido.

Essa escolha reforça a potência do livro. O mal, aqui, não é um evento isolado que pode ser combatido ou eliminado. Ele é difuso, cotidiano, incorporado às relações e às estruturas sociais. É um mal que se apresenta como razoável — e é justamente por isso que se torna tão perigoso.

O lugar de O Bom Mal na obra de Schweblin

Para leitores que já conhecem livros como Distância de Resgate ou Sete Casas Vazias, O Bom Mal dialoga diretamente com preocupações recorrentes da autora: a instabilidade do cotidiano, a fragilidade dos vínculos e a sensação de ameaça latente.

Ao mesmo tempo, o livro aprofunda essas questões, apresentando contos ainda mais secos e diretos, onde o desconforto é menos narrado e mais sentido. Trata-se de uma obra madura, que confirma Samanta Schweblin como uma das vozes mais relevantes da literatura contemporânea em língua espanhola.

Conclusão

O Bom Mal é um livro que incomoda de maneira silenciosa e persistente. Samanta Schweblin constrói contos que não oferecem alívio nem explicações fáceis, obrigando o leitor a confrontar a ideia de que o mal nem sempre se apresenta como ameaça evidente. Muitas vezes, ele vem disfarçado de cuidado, afeto e boas intenções.

É uma leitura curta, mas emocionalmente densa, ideal para quem aprecia literatura psicológica, narrativas ambíguas e histórias que continuam ecoando muito depois da última página.


📘 Ficha técnica da obra

  • Título: O Bom Mal
  • Título original: El buen mal
  • Autora: Samanta Schweblin
  • Gênero: Contos, literatura psicológica, ficção contemporânea
  • Editora (Brasil): Fósforo Editora
  • Formato: Livro físico
  • Idioma: Português (tradução do espanhol)
  • País de origem: Argentina

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