
Sabe aquela sensação de estar preso dentro da própria cabeça? De olhar para alguém e pensar “essa pessoa não é normal”, mas ao mesmo tempo sentir um frio na espinha porque, no fundo, você entende um pouquinho do que se passa ali? Pois John Fowles construiu uma carreira inteira em cima dessa ambiguidade desconfortável.
O Colecionador é o romance de estreia que lançou o autor inglês ao estrelato em 1963. E mais de sessenta anos depois, ele continua tão perturbador quanto na primeira edição. Talvez até mais. Porque vivemos numa época em que a objetificação do outro virou moeda corrente, em que as redes sociais nos transformaram em colecionadores de corpos, de vidas alheias, de pedaços de gente que a gente nunca vai conhecer de verdade.
Agora, graças à DarkSide Books, o clássico está de volta ao Brasil em uma edição de capa dura que é, ela mesma, um objeto de colecionador — com direito a introdução inédita do mestre Stephen King e uma tradução caprichada de Antonio Tibau . E, como a própria editora já avisou: “todos temos um pouco dos dois dentro de nós” . A pergunta é: qual dos dois?
Vamos mergulhar nesse abismo psicológico?

Frederick Clegg é um homem comum. Funcionário público, colecionador de borboletas, vive com a tia e uma prima, não chama atenção de ninguém. É o tipo de pessoa que passa pela vida sem deixar rastro, invisível, ignorado, desprezado por uma sociedade que só valoriza quem tem dinheiro ou status .
Miranda Grey é tudo o que ele não é. Jovem, bela, estudante de artes, culta, cheia de vida. Ela mora na casa em frente à dele. Ele a observa. De longe. Todo santo dia. Até que ela se muda para Londres.
Aí acontece o imprevisto: Clegg ganha na loteria. Uma pequena fortuna. Dinheiro que, para ele, não é liberdade — é oportunidade. Ele compra uma casa isolada no campo, prepara um quarto no porão com tudo o que Miranda poderia querer: cama confortável, livros de arte, discos clássicos, comida boa. E, numa noite, ele a sequestra .
Agora, preste atenção: ele não quer machucá-la. Ele não quer estupá-la. Ele não quer matá-la. Ele quer que ela fique ali. Para sempre. Com ele. E que, com o tempo, aprenda a amá-lo. Porque ele acredita que, se ela o conhecer de verdade, vai perceber que eles nasceram um para o outro .
Terrível, não? Pois é. E piora.
A genialidade de O Colecionador está na estrutura. Fowles divide o romance em quatro partes, mas essencialmente são duas narrativas que se confrontam .
A primeira parte é narrada por Frederick. Ele nos conta como conheceu Miranda, como a observou, como planejou tudo, como executou o sequestro. E o que ele diz é assustador — não pelo que ele conta, mas pelo jeito que conta. Ele é frio, metódico, cheio de frases feitas e lugares-comuns. Ele não parece perceber a gravidade do que fez. Para ele, Miranda é uma “convidada”, não uma refugiada. Ele se ofende quando ela é ingrata. Ele se sente injustiçado .
A segunda parte é o diário de Miranda. É ali que a gente finalmente ouve a voz dela — e ela não é a santa imaculada que a gente esperava. Miranda é inteligente, sim. Culta, sim. Mas também é esnobe. É arrogante. É uma jovem de 20 anos que se acha superior a Clegg em todos os sentidos — e talvez esteja certa, mas o jeito como ela expressa isso é profundamente desconfortável .
E é aí que Fowles faz a mágica: ele embaralha nossa lealdade. A gente quer torcer por Miranda, claro. Ela é a vítima. Mas ela também nos irrita com sua presunção, com sua certeza de que sabe tudo sobre arte e vida e amor, com sua condescendência com Clegg — que, afinal, é um monstro. E Clegg, o monstro, às vezes parece… quase humano. Quase compreensível. Quase digno de pena .
É essa ambiguidade moral que torna o livro tão poderoso. E tão perturbador.
Quando o maior nome do terror contemporâneo escreve uma introdução para um livro, a gente para e escuta. E Stephen King, em seu texto inédito no Brasil, já deixou claro: O Colecionador é uma obra-prima do gênero .
King, que também é mestre em mergulhar na mente de assassinos e psicopatas, reconheceu em Fowles um precursor. O que o autor inglês fez em 1963 foi algo que poucos haviam tentado com tanta coragem: ele nos colocou dentro da cabeça de um sequestrador e nos fez sentir, em algum nível, que entendemos suas motivações. E isso é aterrorizante.
Como uma leitora do LibraryThing escreveu: “É uma coisa ler sobre um psicopata desequilibrado, é outra completamente diferente estar dentro da cabeça dele. Não consigo pensar em outro livro que use a primeira pessoa de forma tão eficaz” . É exatamente isso. Clegg não é um vilão caricato. Ele é real. E talvez o mais assustador seja perceber que existe um pedaço dele em cada um de nós.
Antes de se tornar o escritor que aterrorizou gerações, John Robert Fowles foi um garoto de Essex que cresceu num ambiente que ele descreveu como “opressivamente conformista”. Aos 13 anos, foi mandado para um internato. Depois veio o serviço militar obrigatório — a Segunda Guerra acabou pouco depois, mas ele nunca chegou a ver combate. Em 1947, entrou em Oxford, onde descobriu os escritores que mudariam sua vida: Jean-Paul Sartre e Albert Camus .
Foi ali, na filosofia existencialista francesa, que Fowles encontrou as ferramentas para pensar sobre liberdade, escolha, autenticidade. Temas que atravessam toda a sua obra — mas que talvez nunca tenham sido tão cruamente explorados quanto em seu romance de estreia .
Entre 1950 e 1963, Fowles trabalhou como professor na França, na Grécia e em Londres. Foi na ilha grega de Spetses, onde ensinou inglês por dois anos, que ele começou a escrever poesia e a vencer a repressão criativa que o impedia de publicar. Escreveu vários romances nesse período, mas nunca os mostrou a ninguém. Considerava todos incompletos. Até que, no final de 1960, ele escreveu O Colecionador em apenas quatro semanas .
O sucesso foi imediato. O livro virou best-seller internacional, foi adaptado para o cinema dois anos depois, e fez com que Fowles pudesse finalmente se dedicar exclusivamente à literatura. Depois vieram O Mago (1965) e A Mulher do Tenente Francês (1969), ambos consagrados . Mas O Colecionador continua sendo o marco zero — a obra que, como disse a Time Magazine, provou que “o mal raramente foi tão sinistro” .
O título já entrega o jogo. Clegg coleciona borboletas. Ele as captura, mata, fixa em caixas de vidro, admira sua beleza estática. Para ele, Miranda é apenas mais um espécime raro — a mais bela de todas. Ele não quer conhecê-la. Ele quer possuí-la .
Essa objetificação é o cerne do livro. E é também, como Fowles sabia, o cerne de uma sociedade que transforma tudo em mercadoria. O crítico de arte e a milionária que compram quadros sem jamais amá-los; o colecionador de discos que nunca escuta as músicas; o voyeur das redes sociais que consome a vida alheia em pedaços — todos eles são, de alguma forma, irmãos de Clegg .
Fowles era um intelectual de esquerda, e essa posição transborda no livro. Clegg é o produto de uma classe média baixa que ascendeu financeiramente, mas nunca culturalmente. Ele odeia os “la-di-da” — os esnobes, os cultos, os sofisticados. Miranda, por sua vez, é o produto da elite intelectual: ela estuda arte, lê os clássicos, frequenta galerias, mas também é profundamente presunçosa .
O conflito entre eles é também um conflito de classes. E a ironia é que ambos estão presos em suas próprias bolhas. Clegg não consegue se conectar com Miranda porque não entende seu mundo. Miranda não consegue se conectar com Clegg porque o despreza. É um abismo de incompreensão mútua, e o livro inteiro é sobre essa impossibilidade de comunicação .
O próprio Fowles via o livro como uma parábola sobre a luta entre os Poucos e os Muitos — entre aqueles que são capazes de transcender as limitações sociais e aqueles que permanecem prisioneiros delas. O trágico é que, na história, ninguém transcende nada .
Miranda é estudante de arte, e seu grande ídolo é G.P. — um artista mais velho que a ensinou a ver o mundo de outra forma. Através de G.P., ela descobriu a beleza, a verdade, a importância de ser um dos “Poucos”. Mas também, através de G.P., ela desenvolveu uma certa arrogância, uma certeza de que a arte justifica tudo .
O que Fowles coloca em xeque é justamente isso: até que ponto a arte nos redime? Até que ponto ela nos torna melhores? Miranda usa sua erudição para humilhar Clegg, para se afirmar superior. G.P., que ela tanto admira, é um homem que não consegue se comprometer com ela, que a mantém à distância, que talvez seja apenas mais um colecionador — de corpos, de jovens discípulas .
É impossível ler O Colecionador hoje sem pensar nos debates feministas sobre violência contra a mulher. O livro foi escrito em 1963, no alvorecer da segunda onda feminista. E ele já mostrava, com clareza perturbadora, como o homem comum pode ser tão perigoso quanto o monstro caricato .
A jornalista Silvana Perez, em resenha para o site Boca do Inferno, lembra que “é uma situação já bem conhecida das mulheres. Homens que acreditam que têm direitos sobre nossos corpos, independentemente das nossas vontades. São olhares, comentários, toques, que nos fazem perceber que não somos tão livres quanto deveríamos. Mas, em O Colecionador, a história é um tanto mais extrapolada” . Extrapolada, sim, mas não tanto quanto a gente gostaria de acreditar.
Miranda usa toda sua inteligência para tentar sobreviver. Ela tenta seduzir Clegg, tenta convencê-lo a libertá-la, tenta fugir, tenta apelar para a razão. Nada funciona. Porque Clegg não é movido pela razão. Ele é movido pela obsessão. E a obsessão, como Fowles mostra, é cega.
O Colecionador é um romance que não oferece conforto. O final — e não vou dar spoiler, mas prepare-se — é devastador . A sensação ao fechar o livro é de ter testemunhado algo que não deveria ter visto. De ter, de alguma forma, participado.
E essa é a genialidade de Fowles. Ele nos coloca na posição de voyeur. Nós, leitores, somos também colecionadores — de emoções, de sensações, de histórias alheias. Nós nos deleitamos com o horror, viramos as páginas ansiosos para saber o que vai acontecer a seguir. E quando acaba, ficamos ali, olhando para a parede, processando .
Uma leitora do blog Minha Vida Literária descreveu essa sensação como “uma experiência tanto frenética quanto perturbadora, e não apenas pela história propriamente dita, mas sobretudo pelo que ela revela: é perverso estarmos na situação de quem se delicia com o horror narrado” . Exatamente.
Vamos combinar: se tem uma editora que sabe tratar clássicos do horror com o respeito que eles merecem, é a DarkSide Books. E O Colecionador ganhou um tratamento à altura.
A edição brasileira, lançada em 2018, é em capa dura, com 256 páginas . A tradução é de Antonio Tibau, que também assina um posfácio esclarecedor sobre as muitas referências artísticas que pontuam o romance. E, para coroar, uma introdução inédita de Stephen King — que, convenhamos, é o aval definitivo para qualquer livro de suspense .
O projeto gráfico mantém o padrão DarkSide: elegante, sombrio, com aquele acabamento que faz o livro pesar na mão (de um jeito bom). É um volume que você vai querer exibir na estante — e também vai querer manter longe do alcance de crianças.
Recomendado para:
Não recomendado para:
O Colecionador é um daqueles livros que você lê uma vez e nunca mais esquece. Ele gruda na pele, na mente, nos sonhos. E a cada ano que passa, parece mais atual. Porque vivemos numa época de colecionadores — de curtidas, de seguidores, de corpos exibidos em vitrines digitais. Vivemos numa época em que a linha entre admiração e obsessão nunca foi tão tênue.
John Fowles não estava apenas escrevendo um thriller em 1963. Ele estava escrevendo um tratado sobre a solidão moderna, sobre a desumanização que vem quando a gente trata o outro como objeto, sobre a violência que está sempre ali, à espreita, na mente de quem se sente invisível.
Miranda queria ser livre. Clegg queria ser amado. Nenhum dos dois conseguiu. E talvez essa seja a lição mais triste do livro: a de que o amor não se impõe, a liberdade não se concede, e o desejo de possuir, quando se torna absoluto, destrói tudo o que toca.
Então, se você vai ler O Colecionador, prepare-se. Vai doer. Vai desconfortar. Vai fazer você olhar para o vizinho, para o colega de trabalho, para aquela pessoa que sempre te observa no ônibus, e pensar: “será que…?”
E talvez, só talvez, você termine o livro com mais perguntas do que respostas. Sobre os outros. Sobre o mundo. Sobre você mesmo.
Ficha Técnica:
| Item | Informação |
|---|---|
| Título | O Colecionador |
| Autor | John Fowles |
| Editora | DarkSide Books |
| Tradução | Antonio Tibau |
| Páginas | 256 |
| Ano | 2018 (original: 1963) |
| ISBN | 978-8594541086 |
| Gênero | Thriller Psicológico / Suspense / Horror |
| Formato | Capa dura |






