
Em O Colecionador, o escritor britânico John Fowles constrói um dos romances psicológicos mais inquietantes do século XX. Publicado no Brasil pela DarkSide Books, o livro mergulha na mente de um homem comum que transforma admiração silenciosa em aprisionamento — físico e simbólico.
Frederick Clegg, muitas vezes confundido como autor por leitores desavisados, é na verdade o protagonista da história. Um funcionário público tímido, socialmente invisível, cuja vida muda ao ganhar uma grande quantia em dinheiro. O que poderia representar liberdade se converte em instrumento de dominação.

Clegg não se vê como vilão. Pelo contrário: ele acredita agir movido por amor, cuidado e apreciação estética. Sua obsessão por Miranda Grey, uma jovem estudante de arte, nasce de uma idealização absoluta. Para ele, amar é possuir, preservar, impedir a perda.
John Fowles constrói esse personagem com frieza perturbadora. Clegg não age por impulso; ele planeja, organiza e racionaliza cada gesto. O terror do livro não vem de violência explícita, mas da normalidade com que o absurdo é executado.
Em O Colecionador, o perigo está na lógica interna do personagem.
Um dos grandes méritos do romance está em sua estrutura narrativa. A história é contada a partir de dois pontos de vista: primeiro, o de Clegg; depois, o de Miranda. Essa divisão transforma completamente a experiência de leitura.
A voz de Clegg é contida, burocrática e emocionalmente limitada. Já o diário de Miranda revela sensibilidade, pensamento crítico e desespero crescente. O contraste entre essas duas narrativas expõe o abismo moral entre captor e vítima.
Fowles não suaviza o confronto. Ele coloca o leitor diante de versões irreconciliáveis da realidade.
Além do suspense psicológico, O Colecionador é um romance profundamente social. A relação entre Clegg e Miranda também reflete tensões de classe, educação e capital cultural. Ele representa o ressentimento silencioso; ela, a liberdade intelectual e artística.
O aprisionamento não é apenas físico. É também uma tentativa de dominar aquilo que o protagonista não compreende nem alcança. O livro expõe como o desejo de controle pode surgir da insegurança e da exclusão.
Essa camada social amplia o impacto da narrativa e a mantém atual.
John Fowles opta por uma escrita contida, sem exploração gráfica da violência. O horror se constrói no cotidiano, na repetição, na ausência de empatia. Cada tentativa de diálogo fracassada reforça a sensação de claustrofobia.
O silêncio é um elemento central do livro. O que não é dito pesa tanto quanto as ações descritas. O leitor acompanha o avanço inevitável de uma situação que parece não ter saída.
Publicado originalmente em 1963, O Colecionador antecipou discussões contemporâneas sobre obsessão, masculinidade tóxica, objetificação e violência simbólica. Sua influência pode ser percebida em inúmeros thrillers psicológicos posteriores.
A obra permanece relevante justamente por não oferecer explicações fáceis nem redenções confortáveis. O mal aqui não é monstruoso; é cotidiano.
O Colecionador é um romance psicológico perturbador, silencioso e profundamente humano em seu retrato da obsessão. John Fowles constrói uma história que incomoda não pelo choque, mas pela lucidez com que expõe o desejo de controlar o outro.
É uma leitura essencial para quem busca suspense psicológico denso, narrativas sobre poder e obras que permanecem ecoando muito depois do fim.
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