
Sabe aquela sensação de abrir um jornal antigo, daqueles amarelados pelo tempo, e sentir o cheiro de história? As manchetes escandalosas, as fotografias em preto e branco, os relatos minuciosos de crimes que chocaram uma época inteira. Você lê e pensa: “como alguém foi capaz disso?” Mas, ao mesmo tempo, não consegue parar de ler.
Valêncio Xavier sentiu isso. E transformou essa fascinação em literatura.
Crimes à Moda Antiga: Contos Verdade é um livro que desafia classificações. É true crime antes do true crime virar febre. É literatura experimental antes de a gente saber o que era isso. É uma colagem de fragmentos de jornais, fotografias, depoimentos, ilustrações e ficção que se costuram numa narrativa tão envolvente quanto perturbadora.
Publicado originalmente em 2004 pela Publifolha e relançado em 2023 pela DarkSide Books, o livro reúne oito contos baseados em crimes reais que aconteceram no Brasil entre 1903 e 1930 . Assassinatos passionais, esquartejamentos, serial killers com delírios religiosos, corpos dentro de malas — tudo isso está aqui. Mas não como você imagina.
Vamos abrir essa mala? (Sem trocadilho infeliz, prometo.)

Se você nunca ouviu falar de Valêncio Xavier Niculitcheff (1933-2008), prepare-se para descobrir um dos nomes mais originais da literatura brasileira. E também um dos mais difíceis de classificar .
Paulistano de nascimento, Valêncio mudou-se para Curitiba aos 21 anos e nunca mais saiu . Lá, acumulou funções como poucos artistas conseguem: foi cineasta, roteirista, diretor de televisão, montador, jornalista, colunista, tradutor, curador de museu e escritor . Trabalhou na TV Paranaense (atual RPC TV), dirigiu episódios do Globo Repórter, criou a Cinemateca de Curitiba em plena ditadura militar e comandou o Museu da Imagem e do Som do Paraná .
Mas foi na literatura que Valêncio encontrou sua voz mais singular. Em 1981, lançou O Mez da Grippe, um livro que já nasceu clássico: uma colagem de documentos, cartas, anúncios e fotografias sobre a epidemia de gripe espanhola em Curitiba em 1918 . A obra é um marco da literatura experimental brasileira, e rendeu a Valêncio o Prêmio Jabuti de melhor produção editorial em 1999 .
Sua obra sempre brincou com os limites entre realidade e ficção, imagem e texto, jornalismo e literatura. Como ele mesmo dizia, sua produção era “uma obra sem denominação” . E foi nessa zona fronteiriça que nasceu Crimes à Moda Antiga.
Valêncio morreu em 2008, aos 75 anos, vítima de uma pneumonia . Mas deixou um legado que, graças à DarkSide, está mais vivo do que nunca.
Crimes à Moda Antiga reúne oito “contos verdade” — expressão que Valêncio cunhou para definir essas narrativas que partem de fatos reais, pesquisados exaustivamente, mas ganham contornos literários na montagem .
Os crimes aconteceram, em sua maioria, em São Paulo e no Rio de Janeiro, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX . Valêncio mergulhou nos arquivos públicos, vasculhou jornais da época, leu processos, coletou fotografias e depoimentos. E a partir desse material bruto, construiu algo que não é exatamente reportagem, não é exatamente ficção — é um terceiro gênero .
Vamos conhecer os oito crimes que compõem essa galeria macabra:
O conto que abre o livro reconstitui o assalto à joalheria de Jacob Fuoco, no Rio de Janeiro, em outubro de 1906. Dois sobrinhos do dono, Paulino e Carlo Fuoco, foram barbaramente assassinados pelos criminosos Eugênio Rocca e Carletto .
O caso ganhou enorme repercussão na época. Houve julgamento, reviravoltas, um filme foi feito sobre a história — e o próprio diretor do filme ia alterando as cenas conforme novas “verdades” surgiam . É uma metáfora perfeita para o que Valêncio faz com a verdade o tempo todo.
Um dos casos mais conhecidos da época. Em 1909, Arthur Malheiros foi assassinado no quarto de um hotel na Galeria Cristal, no centro de São Paulo. Os autores? Sua ex-namorada, Albertina Barbosa Bonilha, e o marido dela, Elisário Bonilha .
As motivações nunca foram totalmente esclarecidas. Paixão? Ciúme? Interesse financeiro? Valêncio monta os fragmentos e deixa o leitor tirar suas próprias conclusões.
Aqui a coisa fica pesada. Febrônio Índio do Brasil foi um dos serial killers mais famosos do Brasil no século XX. Nos anos 1920, no Rio de Janeiro, ele cometeu uma série de crimes sexuais e homicídios, sempre envolvendo crianças e jovens .
O que torna Febrônio ainda mais assustador é sua motivação: ele acreditava que estava cumprindo uma missão divina. Tinha delírios religiosos, se dizia “regenerador da humanidade” e acreditava que, ao matar, estava purificando as vítimas .
Febrônio morreu em 1984, dentro de um manicômio, depois de mais de 50 anos internado . Sua história é um estudo de caso sobre o que a psiquiatria da época chamava de “loucura moral”.
Um crime que envolve a elite cafeeira paulista. Uma rica fazendeira — a “rainha do café” — encomenda a morte de seu próprio genro. Motivação? Não se sabe ao certo. Poder? Herança? Desonra?
Outro crime passional. Um famoso caçador de bandidos na São Paulo de 1913 morre de forma inglória, vítima de adultério . O título já entrega o tom irônico que Valêncio às vezes imprime.
A história de Maria Féa, uma jovem italiana assassinada pelo compatriota José Pistone. O corpo foi esquartejado e colocado dentro de uma mala, que chegou a embarcar em um navio antes de ser descoberta pelo mau cheiro .
Valêncio inclui no conto a própria imagem do jornal da época que noticiou o caso . A frieza dos assassinos é chocante: eles carregaram a mala com o corpo por dias, como se nada tivesse acontecido.
Sim, houve outro. E também envolvia um corpo dentro de uma mala. Dessa vez, a vítima foi Elias Farhat, assassinado por seu empregado, o imigrante sírio Miguel Trad . A coincidência dos dois crimes — ambos com malas, ambos em São Paulo — é bizarra o suficiente para merecer um conto inteiro.
O último conto revisita o assassinato, nos anos 1930, de dois curitibanos e dois gaúchos, cometido pela mesma dupla de assaltantes facínoras . Um crime que chocou o Paraná e que Valêncio resgata do esquecimento.
Se você espera uma leitura linear, deixa eu te preparar: Crimes à Moda Antiga não é assim. Valêncio não conta histórias do começo ao meio ao fim. Ele monta. Como um cineasta que edita um filme, ele justapõe fragmentos: trechos de jornais, depoimentos de testemunhas, trechos de processos, fotografias da época, ilustrações feitas por ele e por seu irmão, Sérgio Niculitcheff .
As imagens não são meras ilustrações. Elas são parte da narrativa. Uma fotografia de jornal antigo, um desenho que reconstitui a cena do crime, um retrato do assassino — tudo isso compõe o sentido do texto . Valêncio foi pioneiro nessa fusão entre imagem e palavra na literatura brasileira, e influenciou artistas como Lourenço Mutarelli e Décio Pignatari .
A estrutura dos contos também é inovadora. Valêncio divide os relatos por tópicos, criando uma espécie de linha do tempo que acompanha a vida dos envolvidos, os motivos dos crimes e os julgamentos . É como se ele dissesse: “a verdade não é uma linha reta. É uma colagem de fragmentos que você precisa juntar”.
A própria disposição gráfica dos elementos na página é pensada para criar ritmo, suspense, impacto . Valêncio, que também era montador de cinema, levou para a literatura a linguagem da edição. E o resultado é único.
Crimes à Moda Antiga não é apenas um livro curioso. É uma obra que, segundo pesquisadores, antecipa e contribui para a formação do subgênero true crime no Brasil .
Uma tese recente da Universidade Federal do Paraná (2025) dedicou-se a estudar a escrita experimental de Valêncio Xavier com foco neste livro. A pesquisa, assinada por Taynara Leszczynski, destaca que a obra do autor é marcada pela transposição de fragmentos de diferentes mídias — sobretudo jornais — e pela construção de sentidos por meio da montagem na narrativa .
Além disso, a tese explora a dimensão crítica da obra: Valêncio problematiza a forma como os meios de comunicação da primeira metade do século XX espetacularizaram os casos criminais, usando estratégias sensacionalistas . Em outras palavras: ele não só conta histórias de crime. Ele mostra como a imprensa as transformou em espetáculo.
O crítico literário e pesquisador Daniel Felipe, em ensaio para a revista Cena, aponta que a nova edição da DarkSide investe num viés pop que aproxima a obra do true crime contemporâneo — um filão de mercado lucrativo, mas também uma tradição que Valêncio já habitava décadas antes .
Felipe faz uma observação importante: na edição de 2023, o parágrafo inicial do conto “Os Estranguladores da Fé em Deus” foi ligeiramente alterado em relação à edição original de 2004, suavizando um certo aspecto truncado da redação de Xavier . A mudança, para muitos imperceptível, levanta questões sobre como os textos se transformam com o tempo — tema que está no coração do próprio livro.
Como escreveu Valêncio, em um trecho que poderia ser lido como autorreflexão:
“Enfrentei filas e o assisti várias vezes, sempre com interesse, pois o sr. Alberto Leal, vez ou outra, retira-o de cartaz para suprimir cenas que lhe pareçam imperfeitas e acrescentar outras, conforme novas verdades que vão surgindo sobre os crimes… Considero muito interessante essa ideia do sr. Alberto Leal de ir acompanhando em filme este fato real que tanto comoveu a opinião pública, acrescentando a ele os acontecimentos e ideias que vão surgindo com o desenrolar do tempo e suprimindo as cenas que perderam o interesse. Sendo assim, o filme nunca estará terminado e se tornará cada vez tão real quanto a própria vida” .
Teria todo grande texto o mesmo destino? A edição da DarkSide parece insinuar que sim.
Vivemos a era do true crime. Podcasts, séries, documentários, livros — a gente não se cansa de consumir histórias de crimes reais. É quase um vício. Mas, nesse mar de conteúdo, pouca gente sabe que um escritor brasileiro já estava fazendo isso com maestria nos anos 1970 e 1980.
Valêncio Xavier não é apenas um precursor. Ele é um mestre do gênero. E Crimes à Moda Antiga é uma aula de como contar histórias reais sem perder a complexidade, a ambiguidade, a dimensão crítica. Ele não quer que você só se chocou com os crimes. Ele quer que você pense sobre como a sociedade lida com a violência. Como a imprensa a transforma em espetáculo. Como a verdade nunca é única. Como o tempo apaga, distorce, recria.
Além disso, há o aspecto visual. A edição da DarkSide é linda. Capa dura, projeto gráfico impecável, ilustrações que conversam com o texto, aquele acabamento que faz o livro pesar na mão (de um jeito bom) . É um objeto que você vai querer ter na estante — e também vai querer manusear, sentir, folhear como quem examina um álbum de fotografias antigas.
Recomendado para:
Não recomendado para:
Crimes à Moda Antiga é um livro que não se entrega na primeira lida. Ele pede atenção. Pede que você pare, olhe as imagens, relacione os fragmentos, sinta o peso de cada palavra. Ele não quer ser consumido rápido. Ele quer ser experimentado.
Valêncio Xavier conseguiu algo raro: transformar horror em arte sem banalizar a violência. Ele não faz espetáculo com o sofrimento. Ele o descreve com a frieza de um montador de cinema, a precisão de um arquivista, a sensibilidade de um poeta.
E no final, você termina o livro com uma sensação estranha: de ter conhecido pessoas que não queria conhecer. De ter testemunhado coisas que não queria ver. Mas também de ter sido transformado por elas. Porque, como Valêncio sabia, a literatura não é sobre nos fazer sentir bem. É sobre nos fazer pensar.
E Crimes à Moda Antiga faz pensar. Sobre o mal. Sobre a verdade. Sobre o tempo. Sobre a própria natureza de contar histórias.
Você está pronto para abrir essa mala?
Ficha Técnica:
| Item | Informação |
|---|---|
| Título | Crimes à Moda Antiga: Contos Verdade |
| Autor | Valêncio Xavier |
| Editora | DarkSide Books (coleção Crime Scene) |
| Páginas | 160 |
| Ano | 2023 (original: 2004) |
| ISBN | 978-6555983463 |
| Gênero | True Crime / Literatura Experimental / Contos |
| Formato | Capa dura |
| Ilustrações | Valêncio Xavier e Sérgio Niculitcheff |






