
Sabe aquela sensação de terminar um livro e ficar com aquela pulga atrás da orelha? Aquele incômodo gostoso de uma história que não terminou, de uma pergunta que não foi respondida, de um mistério que continua sendo mistério. A gente fica ali, olhando para a última página, esperando que algo se revele, que a chave apareça, que o autor tenha escondido uma pista final no posfácio. Mas não. O livro acabou. E você continua sem saber.
Pois O Garoto do Colorado, de Stephen King, é exatamente essa sensação. Só que ela não dura alguns segundos. Ela dura para sempre.
Publicado originalmente em 2005 nos Estados Unidos e lançado no Brasil pela Editora Suma em 2025, este livrinho de 144 páginas é, ao mesmo tempo, um dos livros mais odiados e mais amados da carreira do mestre do terror . Não há monstros aqui. Não há sangue. Não há sustos. Há apenas uma conversa entre dois jornalistas velhos e uma estagiária curiosa, em uma tarde qualquer, em uma ilha qualquer, no Maine. Eles contam a história de um homem morto encontrado na praia 25 anos antes. Um caso sem solução. Uma morte que nunca foi explicada. E, no final, o leitor fica com a mesma pulga que os personagens carregam há décadas.
Vamos conhecer esse caso? Mas, se me permite um conselho: não espere respostas. Porque, aqui, o mistério não tem fim — e é exatamente por isso que ele nunca sai da sua cabeça.

A história começa com uma cena aparentemente banal. Três jornalistas estão em um almoço de trabalho. Vince Teague tem quase 90 anos, é o dono e fundador do The Weekly Islander, o jornal local da pequena ilha de Moose-Lookit, no Maine . Dave Bowie está na casa dos 60 e é o editor. Stephanie McCann é uma estagiária de 22 anos, recém-saída da faculdade de jornalismo, que está na ilha para aprender o ofício .
A conversa começa leve. Eles falam sobre a rotina da ilha, sobre as notícias locais, sobre a visita de um repórter do Boston Globe que veio atrás de “histórias de mistério” e foi embora de mãos vazias. Até que Stephanie pergunta: vocês têm alguma história dessas? Algum caso que nunca foi resolvido?
Vince e Dave se entreolham. E então, decidem contar.
Abril de 1980. Uma manhã fria. Dois adolescentes correm pela praia e encontram um corpo encostado em uma lixeira. Um homem. Morto. Aparentemente, sem ferimentos. A autópsia revela a causa: ele se engasgou com um pedaço de carne .
O caso parece simples. Acidente. Fim.
Mas há detalhes que não se encaixam.
Primeiro: o homem não tinha documentos. Nenhum. Apenas um maço de cigarros recém-iniciado, 17 dólares em espécie e uma moeda russa no bolso . Segundo: ele estava sem casaco em uma manhã particularmente fria na região. Terceiro: o horário. A última vez que foi visto — já identificado, meses depois, como James Cogan, um designer gráfico de 42 anos de Nederland, Colorado — foi em seu estado de origem, pouco mais de cinco horas antes de seu corpo aparecer na ilha . A distância entre Colorado e Maine é de mais de 3.000 quilômetros. Como ele chegou lá tão rápido? De avião? De carro? E por que estava ali?
Quarto: o maço de cigarros. Cogan não fumava. Sua esposa confirmou .
Quinto: a moeda russa. O que um designer gráfico do Colorado estava fazendo com uma moeda soviética no bolso em 1980, plena Guerra Fria?
Os adolescentes que encontraram o corpo chamaram a polícia. Dave e Vince, que trabalhavam no jornal na época, foram chamados também — cidade pequena, todo mundo se conhece. Eles acompanharam o caso desde o primeiro dia. Entrevistaram testemunhas, investigaram pistas, enviaram fotografias do corpo para jornais do Colorado. Foram eles que, meses depois, conseguiram identificar a vítima .
Mas, quanto mais investigavam, menos entendiam.
O que Cogan estava fazendo em Moose-Lookit? Por que viajou mais de 3.000 quilômetros em poucas horas? Por que não tinha documentos? Por que estava sem casaco? Por que carregava uma moeda russa? Por que fumava se não era fumante? E, acima de tudo: foi realmente um acidente? Ou alguém o matou e fez parecer engasgo?
A polícia arquivou o caso. Sem provas, sem testemunhas, sem confissão. O mistério do “Garoto do Colorado” — apelido que ganhou porque veio daquele estado — nunca foi resolvido .
Vince e Dave contam tudo para Stephanie, em detalhes. Cada pista. Cada hipótese. Cada beco sem saída. E, quando terminam, Stephanie faz a pergunta que todo leitor está pensando:
“E então? O que aconteceu? Quem matou ele?”
E Vince responde: “Não sabemos. Nunca saberemos.”
O livro termina.
E você fica ali, com a mesma cara de Stephanie, pensando: “como assim não sabe?”
A grande sacada — e a grande frustração — de O Garoto do Colorado é que ele não é um livro sobre resolver um crime. É um livro sobre conviver com a falta de resposta.
King já brincou com isso antes. Em A Coisa, o mistério é resolvido (mais ou menos). Em O Iluminado, o hotel é destruído. Em A Dança da Morte, o bem vence o mal. Sempre há um final, uma solução, uma explicação — por mais absurda que seja.
Aqui, não.
E isso foi proposital.
No posfácio do livro, King revela que a inspiração veio de um amigo que lhe contou sobre um caso real sem solução. A ideia era justamente subverter as expectativas do leitor . Criar um mistério policial que não fosse resolvido — porque, na vida real, a maioria dos mistérios não é resolvida.
Quantos casos arquivados existem no mundo? Quantas pessoas desaparecem e nunca são encontradas? Quantos assassinatos ficam impunes? A ficção nos acostumou com a ideia de que, no final, o detetive reúne todos os suspeitos na sala e explica tudo. Mas a realidade é menos generosa .
O site Boca do Inferno descreveu bem essa proposta: “Subvertendo as expectativas de um livro de suspense/mistério, onde as pontas soltas se juntam, o culpado é revelado de forma mirabolante, há um motivo claro, por mais bobo que seja, King decide seguir por outro caminho. Um caminho mais realista, mais simples e, por que não, mais frustrante para muitos: nem tudo na vida tem uma explicação” .
O Portal Sobrenatural complementa: “O suspense não nasce da ação, mas da sensação constante de que algo está fora do lugar. Cada detalhe apresentado parece importante, mas nunca definitivo. O leitor é convidado a ocupar o mesmo lugar dos personagens: reunir informações, desconfiar das conclusões e, no fim, aceitar que talvez não exista uma resposta satisfatória” .
É uma aposta arriscada. King sabia que muitos leitores odiariam. Ele mesmo admite no posfácio que espera críticas. Mas também sabia que alguns entenderiam — e amariam — a ousadia.
Como uma leitora do Moonlight Books disse: “Acredito que, se não fosse um livro do King, o final teria me deixado nervosa. Mas, sendo uma obra dele, só consegui, mais uma vez, ficar admirada com seu trabalho de escrita e seu talento inegável como contador de histórias” .
O Garoto do Colorado não tem ação. Não tem perseguições, não tem assassinatos, não tem reviravoltas. O livro inteiro é uma conversa — e uma conversa que não leva a lugar nenhum, pelo menos em termos de resolução .
O que sustenta a narrativa são os personagens.
Vince Teague é o velho sábio. Tem quase 90 anos, mas a mente afiada. Ele viu de tudo na vida e aprendeu que algumas perguntas não têm resposta — e que tudo bem. É ele quem dá a “aula” sobre jornalismo e sobre a natureza humana. Em um dos diálogos mais bonitos do livro, ele diz: “O que mais acontece é que as pessoas inventam uma história e ficam nela. É fácil fazer isso desde que haja um único fator desconhecido: um envenenador, um conjunto de luzes misteriosas, um barco que encalhou com a maioria da tripulação desaparecida. Mas, com o Garoto do Colorado, não havia nada além de fatores desconhecidos” .
Dave Bowie é o contraponto mais jovem (ainda assim, 65 anos). Ele é mais impaciente, mais apegado ao caso. Foi ele quem não conseguiu deixar o mistério de lado, quem insistiu em investigar por conta própria, quem ainda carrega a frustração de não ter respostas .
Stephanie McCann é a âncora do leitor. Ela é jovem, curiosa, sedenta por respostas. Faz as perguntas que nós faríamos. Se frustra como nós nos frustraríamos. E, no final, precisa aprender a mesma lição que Vince e Dave aprenderam décadas antes: nem tudo tem explicação.
A dinâmica entre os três é o ponto alto do livro. O site Publisko descreveu como “uma longa conversa entre os três personagens. O que poderia ser apenas uma simples anedota jornalística se transforma em uma meditação sobre o ato de investigar, sobre as versões da verdade e sobre o fascínio que as histórias inacabadas exercem sobre quem as escuta” .
Há quem critique a falta de química entre eles. Uma leitora do blog Estante Diagonal disse que “não há química entre as personagens e, ainda, as páginas são entrelaçadas com diálogos monótonos que me fizeram torcer para que tudo acabasse logo” . É uma crítica válida. O livro é lento, sim. É filosófico demais para quem busca ação. Mas, para quem se permite entrar no ritmo, a recompensa é uma reflexão poderosa.
O Garoto do Colorado é, acima de tudo, um experimento narrativo. E, como todo experimento, ele tem pontos fortes e fracos.
O Garoto do Colorado está disponível no Brasil pela Editora Suma em formato brochura, com 144 páginas e tradução de Regiane Winarski . A edição é enxuta, como o livro pede, e a capa segue o padrão dos thrillers da editora.
Uma curiosidade: o livro inspirou a série de TV Haven, exibida entre 2010 e 2015 . Mas, atenção: a relação entre o livro e a série é bem vaga. Enquanto o livro é um suspense realista sobre um caso sem solução, a série é um drama sobrenatural com uma agente do FBI investigando fenômenos estranhos em uma cidade misteriosa. Se você viu a série e espera o mesmo do livro, vai se surpreender — e não necessariamente de um jeito bom .
Uma leitora do Moonlight Books alertou: “Embora o seriado seja baseado no livro, as histórias são bastante diferentes, com apenas algumas referências aqui e ali. Enquanto o seriado traz diversos casos misteriosos em uma cidade repleta de segredos e elementos sobrenaturais, o livro é totalmente centrado nos dois jornalistas” .
Se você está se perguntando se o caso do Garoto do Colorado é real — a resposta é: mais ou menos.
King não inventou a ideia do zero. Ele se inspirou em um famoso caso sem solução da vida real: o Mistério do Homem de Somerton, também conhecido como o “Caso Taman Shud” .
Em 1948, na praia de Somerton Park, em Adelaide, Austrália, um homem bem-vestido foi encontrado morto, sem documentos, sem identificação. No bolso, um pedaço de papel com as palavras “Taman Shud” (que significa “está terminado” em persa). Até hoje, ninguém sabe quem ele era, como morreu ou o que a mensagem significava. O caso é um dos maiores mistérios não resolvidos da história da Austrália.
King pegou essa ideia — a de um corpo sem identificação, com pistas que não levam a lugar nenhum — e a transplantou para o Maine. O resultado é uma homenagem ao mistério em sua forma mais pura.
Recomendado para:
Não recomendado para:
O Garoto do Colorado não é o melhor livro de Stephen King. Não é o mais assustador, não é o mais emocionante, não é o mais bem escrito. Mas é, de certa forma, um dos mais corajosos.
King sabia que muitos leitores odiariam. Sabia que a crítica o acusaria de ter escrito um “livro menor”. Sabia que a falta de respostas frustraria. E, ainda assim, ele o publicou. Porque, às vezes, a história que precisa ser contada não é a que dá respostas — é a que faz as perguntas certas.
O site Publisko resumiu bem: “O Garoto do Colorado mostra que Stephen King, mais do que um mestre do terror, é um mestre das histórias. E às vezes, o maior mistério está justamente em não resolver o mistério” .
Eu não posso te dizer se você vai gostar ou não. Só posso te dizer que, se você se permitir entrar na conversa, deixar de lado a ansiedade por respostas e simplesmente ouvir Vince, Dave e Stephanie, vai encontrar ali um livro que fica na cabeça. Não pelo susto. Mas pela pulga.
E, no final, King deixa uma mensagem no posfácio que resume tudo: “Querer saber pode ser melhor do que saber” .
Você vai concordar? Ou vai querer jogar o livro na parede?
Só tem um jeito de descobrir.
Ficha Técnica:
| Item | Informação |
|---|---|
| Título | O Garoto do Colorado |
| Título Original | The Colorado Kid |
| Autor | Stephen King |
| Editora | Suma |
| Tradução | Regiane Winarski |
| Páginas | 144 |
| Ano | 2025 (original: 2005) |
| ISBN-13 | 978-8551014097 |
| Gênero | Suspense / Mistério / Ficção Policial |
| Formato | Brochura |
| Classificação etária | 16 anos (recomendado) |






