Duma Key: arte, trauma e o terror do isolamento

Sabe aquela sensação de acordar depois de um pesadelo e sentir, ainda por alguns segundos, que aquilo foi real? O coração acelerado, o suor frio, a certeza de que algo está ali, no canto do quarto, esperando você fechar os olhos de novo. E então você respira fundo, acende a luz, olha para o relógio. São 3h da manhã. Você tenta se convencer de que foi só um sonho. Mas no fundo, no fundo, você sabe que não foi.

Duma Key, de Stephen King, é exatamente essa sensação. Só que ela não passa depois de alguns segundos. Ela dura 665 páginas. E quando você termina o livro, ela continua ali, na sua cabeça, como uma pintura que você não consegue parar de olhar, mesmo sabendo que deveria.

Publicado originalmente em 2008, o livro é um dos mais introspectivos e pessoais da carreira do mestre do terror. É uma obra que fala sobre trauma, sobre perda, sobre o que acontece com a gente quando o corpo quebra e a mente ameaça seguir junto. É sobre a criatividade que pode tanto salvar quanto destruir. É sobre amizade, sobre segundas chances, sobre o preço que se paga para trazer algo ao mundo.

E, acima de tudo, Duma Key é sobre o mar. Sobre o que ele esconde nas profundezas. Sobre o que ele traz de volta. Sobre o que ele exige em troca.

Vamos mergulhar? Mas, se me permite um conselho: não nade sozinho.

Duma Key
Crédito: Editora Suma

O que é que tem dentro dessas páginas?

A história começa com Edgar Freemantle, um empresário da construção civil do Minnesota que tem a vida que muitos considerariam perfeita. É bem-sucedido, casado, tem duas filhas. Até que um dia, em uma inspeção de rotina, uma grua se solta e esmaga seu caminhão.

Ele sobrevive — por pouco. Mas o preço é alto: perde o braço direito, sofre danos cerebrais que afetam sua memória, sua fala e sua visão, e passa por uma recuperação longa e dolorosa. Durante a reabilitação, Edgar se torna uma pessoa que ele mesmo não reconhece: surtos de raiva, violência, instabilidade emocional. Sua mulher, Pam, não consegue mais suportar. Ela pede o divórcio.

Edgar pensa em suicídio. Está no fundo do poço, sem saber se tem forças para sair. É então que seu psicólogo, o Dr. Kamen, dá um conselho que vai mudar sua vida: uma “cura geográfica”. Mudar de ares. Recomeçar em outro lugar. E, já que Edgar menciona que costumava rabiscar nos tempos de faculdade, Kamen acrescenta: “Você precisa de cercas-vivas contra a noite”.

Edgar segue o conselho. Aluga uma casa em Duma Key, uma ilha remota na costa da Flórida, no Golfo do México. A casa é conhecida como Big Pink (Grande Rosa) por causa da cor vibrante de suas paredes. É uma propriedade isolada, com praias de areia que brilham no sol e um mar que às vezes parece vivo. Pertence a Elizabeth Eastlake, uma idosa octogenária que já foi uma grande mecenas das artes, mas agora está consumida pela demência.

Na ilha, Edgar encontra dois companheiros improváveis. O primeiro é Jerome Wireman, um ex-advogado de Omaha que também carrega suas próprias feridas: perdeu a mulher e a filha em circunstâncias trágicas e sobreviveu a uma tentativa de suicídio com um tiro na cabeça. Wireman é o zelador de Elizabeth Eastlake, e se tornou seu guardião nos anos de declínio. O segundo é Jack Cantori, um estudante local que Edgar contrata como assistente pessoal.

Edgar começa a desenhar. Depois a pintar. E descobre que tem um talento que nunca imaginou. Suas telas ganham vida — literalmente. As imagens que ele cria não ficam apenas na tela. Elas se manifestam no mundo real. Ele pinta o rosto de uma mulher e descobre que é a amante de sua ex-mulher. Pinta um assassino de crianças em sua cela e ele morre sufocado. Pinta o passado e o futuro se misturam em cores que ele não sabe de onde vieram.

Mas há algo errado em Duma Key. Algo antigo. Algo que quer usar o talento de Edgar para seus próprios fins. E essa coisa tem um nome: Perse.

A ilha que não é apenas um cenário

Uma das marcas registradas de Stephen King é transformar lugares em personagens. Derry, Castle Rock, o Overlook Hotel, a floresta de ‘Cujo’ — todos eles têm vida própria. Em Duma Key, ele faz algo ainda mais sutil: a ilha não é apenas um lugar assombrado. Ela é um ímã para a dor. Para o trauma. Para pessoas que estão fugindo de algo, ou tentando esquecer algo, ou buscando um recomeço que talvez não mereçam.

King descreve a paisagem com uma beleza quase onírica: as praias de areia vermelha, o mar que canta com o som das conchas, a luz do pôr do sol que parece líquida. Mas por baixo dessa superfície bucólica, há uma força que se alimenta da vulnerabilidade. Duma Key atrai artistas. Atraiu Salvador Dalí, diz a lenda local. Atraiu Elizabeth Eastlake quando era criança. E agora atraiu Edgar.

O que a ilha oferece em troca? Poder. Criatividade. A capacidade de fazer arte que não é apenas arte — é magia. Mas a magia, King sabe bem, nunca vem de graça.

Uma leitora do site Lire et Courir descreveu essa atmosfera como “uma ternura que sobe lentamente, crescendo até explodir nas últimas 200 páginas”. É exatamente isso: o livro é como a maré. Vem devagar, quase sem que você perceba. E quando você vê, já está com água até o pescoço.

Os personagens que carregam o peso (e o aliviam)

Edgar Freemantle é um dos protagonistas mais humanos que King já criou. Não é herói. Não é vítima. É um homem comum, quebrado por um acidente que não pediu, tentando juntar os pedaços de uma vida que não reconhece mais. E o que torna sua jornada tão poderosa é que a arte não vem fácil. No começo, ele mal consegue segurar um lápis com a mão esquerda. Cada traço é um esforço. Cada pintura é uma luta contra o próprio corpo.

Mas aos poucos, a criatividade vai tomando conta. Ele entra em um estado de transe enquanto pinta, como se as imagens viessem de algum lugar além dele. E é aí que o horror começa. Porque Edgar não sabe o que está criando até terminar. E quando termina, às vezes é tarde demais.

Jerome Wireman é o alívio cômico e o coração do livro. Suas falas são uma mistura de sabedoria popular, frases em espanhol (ele passa temporadas em Ybor City, Tampa) e um humor ácido que disfarça a dor profunda. Ele é o espelho de Edgar: também perdeu, também tentou se matar, também encontrou refúgio em Duma Key. E é ele quem dá ao livro uma de suas frases mais bonitas, uma espécie de mantra que vai ecoando ao longo da história:

“Does the mayonnaisse make you horny, Wireman?”

É uma piada interna entre eles, um código, um lembrete de que mesmo no fundo do poço, ainda dá para rir.

Elizabeth Eastlake é a chave de todo o mistério. Sua história, que King revela em capítulos intercalados, é tão trágica quanto a de Edgar. Quando criança, ela sofreu um acidente de carruagem que a deixou com danos na cabeça. Durante a convalescença, começou a desenhar. E foi aí que Perse se manifestou pela primeira vez.

Perse falava com Elizabeth. Às vezes em sua mente, às vezes através de sua boneca de pano. Prometia poder, conhecimento, a capacidade de moldar o mundo. E por um tempo, Elizabeth cedeu. Até que Perse pediu algo que ela não podia dar. E então, as irmãs gêmeas de Elizabeth se afogaram no mar, atraídas por algo que só elas podiam ver.

A velha senhora que agora vagueia pela casa com seu vestido de seda amarelo, derrubando bonecas de porcelana e murmurando sobre “a mesa está vazando”, é uma sobrevivente. Ela derrotou Perse uma vez, afogando a estatueta que a aprisionava em um barril de uísque cheio de água doce. Mas o barril está rachando. E Perse está acordando.

Perse: a vilã que veio das profundezas (e da mitologia)

Não tem como falar de Duma Key sem falar de Perse. Seu nome completo, que só se revela ao longo da história, é Perséfone — a rainha do submundo na mitologia grega. E King usa essa referência de forma brilhante.

Na lenda, Perséfone foi sequestrada por Hades e levada para o mundo dos mortos. Sua mãe, Deméter, a deusa da colheita, mergulhou o mundo em um inverno eterno até que um acordo foi feito: Perséfone passaria metade do ano com Hades (o outono e o inverno) e metade com sua mãe (a primavera e o verão).

Em Duma Key, Perse é uma força que vem do mar — do sal, da escuridão, do que está enterrado nas profundezas. Ela só pode ser derrotada pela água doce, por lagos e rios que não têm o gosto do oceano. É uma inversão poética do mito: aqui, a rainha do submundo não quer sair das profundezas. Ela quer emergir. E para isso, precisa de artistas que lhe sirvam de canal.

A descrição de Perse é uma das mais aterrorizantes de King. Ela não tem corpo fixo. Às vezes é a estatueta de porcelana com capa vermelha que Elizabeth enterrou em 1927. Às vezes é uma presença que fala na sua cabeça. Às vezes é o navio fantasma que se aproxima da costa, com seus tripulantes mortos-vivos e suas velas podres. E às vezes, no momento mais cruel, ela usa o rosto de quem você ama.

A referência a H.P. Lovecraft está presente aqui, como em tantas obras de King. Perse é uma entidade cósmica, vinda de um tempo anterior ao tempo, que vê os humanos como ferramentas — ou como alimento. Mas o que a torna única é sua relação com a arte. Ela não destrói por destruir. Ela precisa de criadores. Precisa da sua vulnerabilidade, do seu trauma, da sua capacidade de dar forma ao que não tem forma. Edgar não é apenas uma vítima. É um instrumento.

A estrutura que te prende (e as páginas que voam)

Duma Key é um calhamaço. Na edição brasileira da Suma, são 665 páginas. E, confesso, há momentos em que a leitura pode parecer lenta. A construção de Edgar, sua rotina na ilha, seus primeiros passos na pintura, sua amizade com Wireman — tudo isso ocupa boa parte do livro.

Uma leitora da Amazon criticou exatamente isso: “Mais da metade do livro é focada na vida do protagonista, sobre como ele supera os seus sentimentos de raiva, melancolia, pensamentos suicidas, e, aos poucos, vai mudando o tom da própria narrativa e redescobrindo o gosto pela vida através da arte”. Outro leitor foi mais direto: “O livro é muito descritivo. Chega a dar raiva”.

São críticas legítimas. Duma Key não é um livro para quem busca ação frenética desde a primeira página. É um livro para quem está disposto a sentar, respirar, e acompanhar um homem que está aprendendo a viver de novo. E King, que sabe como ninguém criar personagens, não tem pressa.

Mas quando o horror começa, ele começa de verdade. As últimas cem páginas são um turbilhão. O navio fantasma encalha na praia. Os mortos caminham entre as dunas. Perse usa a imagem de Ilse, a filha mais nova de Edgar, para tentar convencê-lo a abrir o barril que a aprisiona. E Edgar, Wireman e Jack precisam usar tudo o que aprenderam — a arte, a amizade, a água doce e a prata — para vencer.

A crítica Janet Maslin, do New York Times, elogiou justamente essa construção: “O ritmo furioso do último terço compensa toda a calmaria que veio antes”.

O Kingverso e as referências que os fãs vão adorar

Como todo bom livro de Stephen King, Duma Key está cheio de conexões com outras obras. Para quem acompanha o Kingverso, é um prato cheio.

  • O número 19 aparece em toda parte: o e-mail de Edgar é EFree19; o de Pam é Pamorama667 (6+6+7=19); o voo que Edgar pega para a Flórida é o 559 (5+5+9=19); o quarto de hotel onde ele e Pam se encontram é o 847 (8+4+7=19). O 19, como todo fã de A Torre Negra sabe, é o número místico da série, associado ao ka e ao destino.
  • Edgar se refere a si mesmo como um “pistoleiro” em certo momento. E fala sobre a vida como uma “roda” — uma referência direta ao ka-tet e à jornada de Roland Deschain.
  • A banda Shark Puppy, que aparece como favorita de um personagem, tem como membros R. Tozier e W. Denbrough. São Richie Tozier e Bill Denbrough — dois dos Perdedores de A Coisa.
  • A referência a Andy Dufresne, de Um Sonho de Liberdade, aparece quando Edgar pensa em cavar uma parede com uma colher — assim como Andy usou uma picareta em miniatura para escapar da prisão.
  • Patrick Danville, de Insônia e A Torre Negra, também tem o poder de trazer à vida aquilo que desenha — uma conexão direta com o dom de Edgar.
  • Salvador Dalí é mencionado como um antigo morador de Big Pink, a casa que Edgar aluga. A referência ao surrealismo não é gratuita: as pinturas de Edgar são, literalmente, surreais — misturam o real e o imaginário de uma forma que não pode ser explicada pela lógica.

E há mais: o sobrenome Freemantle é o mesmo de Abagail Freemantle, a profeta do bem em A Dança da Morte. A amnésia de Edgar lembra a de outros personagens de King que sofreram traumas cranianos. E a cena em que Perse fala com Ilse pelos canos e ralos é um eco direto de A Coisa.

Para quem gosta de caçar referências, Duma Key é um presente. Para quem não se importa, é apenas um livro mais rico, mais profundo, mais conectado ao universo que King construiu ao longo de décadas.

O que o livro tem de melhor (e onde talvez você sinta um pouco de cansaço)

Vamos aos prós e contras. Porque Duma Key é um livro que divide opiniões, e é bom saber no que você está se metendo.

O que funciona:

  • Os personagens. Edgar, Wireman, Elizabeth, Jack — todos são construídos com a profundidade que King sabe dar. Você termina o livro sentindo que conhece cada um deles como se fossem velhos amigos.
  • A amizade. A relação entre Edgar e Wireman é o coração do livro. É rara, genuína, feita de piadas internas e silêncios compartilhados. E a dor quando Wireman se vai — dois meses depois de tudo, de um ataque cardíaco, em um final que dói porque é banal — é uma das coisas mais tristes que King já escreveu.
  • A metáfora da arte. King nunca escreveu tão profundamente sobre o processo criativo. O que significa criar? O que acontece quando a arte sai do seu controle? Qual é o preço de trazer algo ao mundo? Essas perguntas atravessam o livro inteiro.
  • O horror que cresce. Não há sustos baratos. A tensão vai subindo, como a maré. E quando ela finalmente quebra, você já está tão imerso que não consegue mais sair.
  • O final. Sem spoiler, mas o desfecho de Duma Key é um dos mais bonitos e satisfatórios de King. A última pintura de Edgar, a tempestade que varre Duma Key do mapa, é uma imagem que fica na cabeça muito depois de você fechar o livro.

O que pode te incomodar:

  • O ritmo. O livro é lento. Muito lento. Se você está acostumado com thrillers que te agarram pela camisa desde a primeira página, vai sentir falta de ação. Uma leitora da Amazon disse que “cortaria no mínimo umas 200 páginas pra dar uma aliviada”. É uma opinião que faz sentido.
  • A repetição. Edgar pinta, faz sucesso, pinta mais, o horror avança — e depois repete. Há momentos em que a narrativa parece andar em círculos.
  • A primeira pessoa. O livro inteiro é narrado por Edgar. E estar o tempo todo dentro da cabeça de um homem traumatizado, em recuperação, pode ser cansativo.
  • A virada para o terror. Alguns críticos apontaram que os “marinheiros fantasmas” que surgem no final quebram um pouco o clima de terror mais sutil que vinha sendo construído. Richard Rayner, do Los Angeles Times, disse que “o terror interior das primeiras duas partes se dissipa um pouco quando os marinheiros demônios começam a sair do oceano barulhentos”. É uma crítica justa.

O que os leitores estão achando

As avaliações dos leitores brasileiros são mistas — mas quase sempre apaixonadas, para um lado ou para outro.

Uma leitora da Amazon deu 5 estrelas e escreveu: “Se tornou meu favorito do mestre. Me conectei profundamente e me emocionei muito. Que livro”.

Outra leitora, também de 5 estrelas, disse: “Diferente de tudo que li do autor, uma viagem lenta, mas repleta de significados e sentimentos. Amei”.

Já um leitor que deu 3 estrelas foi mais crítico: “A construção do personagem é bastante extensa e, por vezes, cansativa. (…) Eu cortaria no mínimo umas 200 páginas pra dar uma aliviada”.

Outro leitor, também com 3 estrelas, foi mais duro: “Adoro os livros do King mas esse aqui é muito chato. Quase nada acontece. O livro é muito descritivo. Chega a dar raiva”.

Há também quem tenha desistido: “Mais de 600 páginas serviram de teste para minha paciência. Passou longe de Dezembro de 1963A Zona Morta e outros do mesmo autor”.

O consenso parece ser: Duma Key é um livro para quem já é fã de King e está disposto a acompanhar uma narrativa mais lenta, mais introspectiva, mais focada em personagens do que em ação. Quem busca um thriller frenético pode se decepcionar. Quem busca uma história sobre perda, trauma, amizade e arte pode encontrar ali um dos livros mais bonitos do autor.

A edição da Suma e a adaptação que não foi

Duma Key está disponível no Brasil pela Editora Suma em versão brochura, com 665 páginas e tradução de Regiane Winarski. A edição atual é a mesma de 2011, com a capa que mostra uma ilha ao pôr do sol e uma silhueta que pode ser uma mulher ou uma estátua.

Uma adaptação para o cinema chegou a ser anunciada, mas o projeto foi engavetado. Uma pena, porque Duma Key tem uma atmosfera visual tão forte que pede as telas. As praias vermelhas, o mar que brilha, as pinturas que ganham vida, o navio fantasma — tudo isso seria um espetáculo. Mas, por outro lado, é difícil imaginar alguém fazendo jus à profundidade dos personagens. Talvez seja melhor assim.

Curiosamente, o jogo Alan Wake, de 2010, tem uma premissa muito semelhante: um escritor que vai para uma cidade isolada e descobre que sua criatividade está invocando forças sombrias. O jogo faz várias referências a King, e muitos fãs veem em Alan Wake um primo espiritual de Edgar Freemantle.

Para quem é (e para quem não é) este livro

Recomendado para:

  • Fãs de Stephen King que querem ler um dos livros mais pessoais e introspectivos do autor — para muitos, um dos melhores
  • Leitores que apreciam histórias sobre arte e criatividade e não têm medo de mergulhar no processo criativo
  • Quem gosta de narrativas lentas, focadas em personagens, em que o horror se constrói aos poucos
  • Leitores que valorizam a amizade como tema central — a relação entre Edgar e Wireman é uma das mais bonitas de King
  • Fãs do Kingverso que gostam de caçar referências a A Torre NegraA CoisaUm Sonho de Liberdade e outras obras

Não recomendado para:

  • Leitores que preferem ação frenética desde o início — a primeira metade do livro é mais lenta, e isso pode cansar
  • Pessoas sensíveis a temas de trauma físico e psicológico — Edgar passa por muito sofrimento
  • Quem não gosta de narrativas em primeira pessoa — estar o tempo todo dentro da cabeça de Edgar pode ser claustrofóbico
  • Leitores que se incomodam com livros longos e descritivos — King é prolixo aqui, e não se desculpa por isso

Veredito final: o livro que King escreveu para si mesmo (e que a gente tem o privilégio de ler)

Duma Key não é o livro mais famoso de Stephen King. Não é o mais aclamado pela crítica. Não tem a fama de It ou O Iluminado. Mas é, para muitos fãs, um dos mais pessoais e emocionantes que ele já escreveu.

Porque, no fundo, Duma Key é sobre King. Sobre o acidente de 1999, quando ele foi atropelado por uma van enquanto caminhava e quase morreu. Sobre a recuperação longa e dolorosa. Sobre a volta à escrita, que não foi fácil, que exigiu aprender a digitar com dor, que o fez questionar se ainda tinha algo a dizer.

Edgar Freemantle não é King. Mas a dor dele é a dor de King. A luta para voltar a ser quem era é a luta de King. A arte que salva e que assombra é a arte de King. E quando Edgar pinta e descobre que aquilo que cria tem vida própria, ele está falando sobre o que significa ser um artista — sobre a sensação de que as histórias vêm de algum lugar que não é a gente, e que a gente só serve de canal.

Uma leitora resumiu bem: “King é mestre em explorar o que há de mais sombrio e profundo na alma humana, e em Duma Key ele faz isso com uma delicadeza que dói”. É isso. Duma Key dói. Mas é uma dor boa, uma dor que faz a gente sentir que está viva, que a arte importa, que a amizade é a única coisa que nos salva no fim.

Então, se você está disposto a embarcar nessa jornada, vai em frente. Aluga Big Pink, senta na varanda, olha para o mar. Pega um pincel, se quiser. E deixa a maré te levar.

Mas, se me permite um conselho: não pinte o navio.


Ficha Técnica:

ItemInformação
TítuloDuma Key
AutorStephen King
EditoraSuma
TraduçãoRegiane Winarski
Páginas665
Ano2011 (original: 2008)
ISBN978-8581050386
GêneroTerror Psicológico / Horror Gótico / Fantasia
FormatoBrochura
Classificação etária18 anos

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