
No cinema contemporâneo, poucas propostas conseguem ser tão estranhas e surpreendentemente envolventes quanto A Useful Ghost – Uma Ajuda do Além, uma produção tailandesa que desafia expectativas sobre fantasmas e gêneros cinematográficos. Mais do que um filme de medo, a obra transita entre horror, comédia, romance e comentário social de forma tão inesperada quanto o próprio título sugere.
Dirigido por Ratchapoom Boonbunchachoke, o longa ganhou projeção internacional após sua estreia em festivais ao longo de 2025, incluindo destaque na Semana da Crítica de Cannes. No Brasil, o filme ainda não foi exibido comercialmente, mas tem estreia confirmada nos cinemas brasileiros para janeiro de 2026, com lançamento previsto para o circuito comercial e salas de cinema de arte.

Em sua base narrativa, A Useful Ghost subverte a lógica tradicional das histórias de assombração ao apresentar um espírito que retorna não para assustar, mas para ocupar um espaço inesperado do cotidiano. Após a morte de Nat, vítima de uma doença respiratória associada à poluição, seu espírito passa a habitar um aspirador de pó — objeto que se transforma em corpo, símbolo e comentário.
O elemento, que poderia soar apenas excêntrico, rapidamente revela sua função narrativa. Nat retorna não como ameaça, mas como presença constante, quase doméstica. A pergunta central não é se o fantasma existe, mas se ele é tolerável — e sob quais condições.
A narrativa não se ancora em um único registro emocional. O filme oscila entre humor seco, melancolia, estranhamento e momentos de afeto genuíno. O terror nunca se impõe de maneira convencional; ele se infiltra nos gestos, nas situações e na normalização do absurdo.
Essa fluidez tonal faz com que A Useful Ghost se aproxime mais de uma sátira sombria do que de um horror clássico. O desconforto vem da convivência prolongada com algo que deveria ser passageiro — mas insiste em ficar.
Sob a camada fantástica, o filme constrói uma reflexão sobre luto e utilidade social. A presença de Nat só é aceita porque ela “serve” para algo. O fantasma precisa justificar sua existência, assim como memórias incômodas muitas vezes só são toleradas quando não atrapalham o funcionamento do cotidiano.
O aspirador não é apenas um corpo improvisado, mas uma metáfora clara: limpar, apagar, remover vestígios. O filme questiona o quanto estamos dispostos a lembrar — e o quanto preferimos varrer certas presenças para debaixo do tapete.
A direção aposta em uma encenação contida, com enquadramentos que valorizam o banal e tratam o sobrenatural como extensão da vida comum. Não há pressa nem sublinhado excessivo. A estranheza surge justamente da naturalidade com que tudo é apresentado.
O filme confia no espectador, evitando explicações didáticas ou mensagens explícitas. As camadas simbólicas se revelam conforme a convivência com a história se prolonga.
As atuações equilibram delicadeza e estranhamento, evitando transformar a proposta em farsa. O vínculo entre March e o fantasma de Nat se constrói mais por convivência silenciosa do que por diálogos explicativos, reforçando a sensação de que o sobrenatural aqui não rompe a realidade — ele a prolonga.
Após sua circulação em festivais e a recepção crítica positiva no exterior, A Useful Ghost – Uma Ajuda do Além chega oficialmente aos cinemas brasileiros em janeiro de 2026, com previsão de estreia no circuito comercial e em salas de cinema de arte.
A exibição no Brasil acontece pela primeira vez agora, não tendo passado anteriormente por mostras ou sessões comerciais no país. A expectativa é que o filme encontre aqui um público interessado em produções de gênero menos convencionais e narrativas híbridas.
A Useful Ghost não busca sustos imediatos nem respostas claras. O filme trabalha com permanência, desconforto suave e ideias que continuam reverberando após a sessão. É uma experiência que pode causar estranhamento inicial, mas que se sustenta pela coerência interna e pela originalidade da proposta.
A Useful Ghost – Uma Ajuda do Além é um filme que utiliza o sobrenatural para discutir temas profundamente humanos: luto, memória, utilidade e exclusão. Ao transformar um fantasma em algo funcional, a obra revela as contradições de uma sociedade que só aceita aquilo que não atrapalha.
Com estreia confirmada no Brasil em janeiro de 2026, o filme chega como uma proposta singular dentro do terror contemporâneo — menos interessada em assustar e mais disposta a permanecer.
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