Casas Estranhas Vol. 1: quando o lar revela o inesperado

Casas Estranhas Vol. 1, do autor japonês Uketsu, é um livro que dá seus primeiros passos no território do suspense e do horror psicológico de forma bastante singular: em vez de monstros ou cenas chocantes tradicionais, a narrativa explora o desconforto que nasce de lugares onde nada deveria ser estranho — as próprias casas. Publicado no Brasil em 2025 pela editora Intrínseca, o livro já figura entre os fenômenos literários japoneses recentes, chamando atenção tanto pela sua abordagem quanto pela maneira como engaja o leitor com um mistério que parece estar escondido em cada parede e planta baixa.

Crédito: Editora Intrínseca

O autor, que ganhou notoriedade inicialmente como youtuber e criador de conteúdo visual surreal, expandiu seu repertório para a ficção impressa trazendo uma proposta que mistura narrativa, imagens e lógica investigativa. Essa combinação é um dos principais atrativos do livro, pois convida o leitor a participar ativamente da resolução do enigma, observando plantas arquitetônicas, desconfiando de cada detalhe e refletindo sobre o que aquelas casas realmente escondem.

Um enigma além do óbvio

A trama começa com algo que poderia ser banal: um casal à procura da casa perfeita para começar uma nova vida. Ambientada em um bairro residencial de Tóquio, essa casa à primeira vista parece ideal — próximo a uma estação de trem, rodeada de verde e com uma aparência acolhedora. No entanto, quando o potencial comprador analisa a planta baixa, um espaço misterioso entre a cozinha e a sala chama atenção por não fazer sentido funcional algum.

Essa pequena anomalia desencadeia a verdadeira história: a busca por explicações que se transforma em uma investigação mais profunda envolvendo arquitetura, simbolismo e ocultismo. O narrador, um escritor fascinado por histórias estranhas, une forças com um amigo arquiteto para dissecar cada cômodo e cada canto da casa, questionando tudo aquilo que parecia normal à primeira vista — de portas sem propósito a cômodos sem função clara.

Esse ponto de partida simples e aparentemente corriqueiro cresce, ao longo da narrativa, em camadas de significado, fazendo com que o leitor questione não apenas a lógica arquitetônica, mas também as possíveis histórias humanas e sombrias que essas casas podem conter.

Estilo narrativo e experiência de leitura

Um dos aspectos mais interessantes de Casas Estranhas está na forma como Uketsu escolhe apresentar sua história. Em vez de um texto intimista e linear, o livro alterna entre diálogos, observações e imagens de plantas baixas que aparecem ao longo da leitura, não como mera ilustração, mas como pistas concretas que ajudam a construir o mistério. Essa estrutura incomum cria uma experiência quase interativa, onde o leitor — assim como os personagens — olha para as plantas e tenta montar um sentido para aquilo que parece ilógico.

A linguagem é direta, quase conversacional, o que faz com que a leitura flua rapidamente. Em poucas horas é possível absorver a totalidade da obra — algo que, para muitos leitores, funciona muito bem, oferecendo uma sensação de imersão contínua sem exigir longos períodos de atenção.

Por outro lado, esse estilo também pode deixar alguns leitores esperando por algo mais “clássico” em termos de narrativa de terror: não há sustos repentinos nem reviravoltas grotescas. Em vez disso, o desconforto cresce de forma sutil, como um incômodo que nasce da falta de fechamento ou da sensação de que nem tudo foi explicado de maneira definitiva.

Mistério para além das páginas

Embora o enredo central gire em torno dessa primeira casa aparentemente estranha, o desfecho deixa pistas e perguntas que parecem se estender além deste volume inicial. Essa sensação de mistério que persiste mesmo após a leitura é uma das marcas da obra — alguns leitores relatam que a sensação de ambiguidade continua a ressoar mesmo depois de fechar o livro.

Essa abordagem aberta pode ser vista tanto como um convite para refletir quanto uma frustração para quem busca conclusões claras e narrativas mais fechadas. Ainda assim, ela se encaixa bem na proposta de uma história que gira em torno de lógica e símbolos escondidos, em vez de respostas lineares.

Além disso, o sucesso da obra no Japão e no exterior indica que há algo universal na maneira como Uketsu explora o medo do inexplicável e do familiar transformado em estranho. A própria inclusão de plantas e imagens como parte integrante da narrativa fala de um experimentado híbrido entre livro tradicional e quebra-cabeça visual — algo que surpreendentemente funciona bem para leitores curiosos e atentos.

Para quem este livro é

Casas Estranhas Vol. 1 funciona melhor para leitores que:

  • gostam de mistérios que desafiam a lógica tradicional
  • apreciam histórias com elementos visuais ou investigativos
  • preferem atmosferas de inquietação sutil ao invés de sustos explícitos
  • se interessam por narrativas que deixam espaço para interpretação

Não é uma obra de horror convencional no sentido visceral — mas se você já sentiu aquele arrepio que vem quando algo familiar se mostra inexplicável, este livro provavelmente vai ecoar nessa mesma frequência.


📘 Ficha técnica da obra

  • Título: Casas Estranhas Vol. 1
  • Título original: Henna Ie
  • Autor: Uketsu
  • Gênero: Mistério, horror psicológico, suspense investigativo
  • Editora (Brasil): Intrínseca
  • Ano da publicação no Brasil: 2025
  • Tradutor: Jefferson José Teixeira
  • Número de páginas: ~176
  • Idioma: Português (tradução)
  • País de origem: Japão

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