
Sabe aquela sensação de abrir uma gaveta e encontrar um manuscrito amassado que você jogou fora anos atrás, achando que não prestava? Pois foi mais ou menos assim que Carrie, o primeiro romance publicado de Stephen King, veio ao mundo. Só que quem resgatou do lixo não foi o próprio autor — foi sua esposa, Tabitha King.
A história já virou lendária. No início dos anos 1970, King morava num trailer com a mulher e os filhos, mal conseguia pagar as contas e dava aulas durante o dia para escrever à noite. Ele começou a trabalhar num romance sobre uma adolescente com poderes telecinéticos que era humilhada pelos colegas. Mas não estava satisfeito. A história não fluía. Os personagens não o convenciam. Um dia, irritado, ele amassou os poucos capítulos que tinha escrito e jogou no lixo .
Tabitha encontrou os papéis, leu, e pediu que ele continuasse. O resto, como dizem, é história.
Carrie foi publicado em 1974 pela Doubleday e se tornou um sucesso imediato. Lançado no Brasil pela Editora Suma (selo do Grupo Companhia das Letras especializado em ficção especulativa, que em 2025 completa 20 anos de atuação no mercado ), o livro é hoje um clássico do terror psicológico, uma obra que inaugurou a carreira do mestre e já rendeu inúmeras adaptações — incluindo o filme clássico de Brian De Palma com Sissy Spacek, um musical da Broadway, uma refilmagem em 2013 com Chloë Grace Moretz e, agora, uma nova série de 8 episódios comandada por Mike Flanagan para a Amazon Prime Video, com estreia prevista para breve .
Mas o que faz de Carrie um livro tão especial? Por que, meio século depois, ele continua sendo lido, debatido e adaptado? E, mais importante: você está pronto para conhecer a garota mais estranha de Chamberlain, Maine?
Vamos descobrir.

Tudo começa em Chamberlain, uma pequena cidade do Maine, Estados Unidos. Carrietta N. White — ou simplesmente Carrie — é uma adolescente de 16 anos que vive um inferno diário. Na escola, é alvo de bullying constante por ser estranha, tímida, de vestidos compridos e aparência desleixada. Em casa, é vítima do fanatismo religioso de sua mãe, Margaret White, uma viúva perturbada que acredita que tudo é pecado e que a filha é uma agente de Satã .
Carrie é descrita como uma “rã entre cisnes”: pele coberta de espinhas, cabelo loiro desbotado, olhos castanhos tão escuros que parecem projetar sombras, um pouco acima do peso. É solitária, isolada, sem amigos .
A vida de Carrie muda para sempre no vestiário da escola. Quando toma seu primeiro banho após a aula de educação física, ela tem sua primeira menstruação. O problema é que Carrie não sabe o que está acontecendo. Sua mãe, obcecada por pureza e pecado, nunca lhe explicou nada sobre o próprio corpo. Aterrorizada, achando que está sangrando até a morte, Carrie pede ajuda às outras garotas .
Em vez de ajuda, ela recebe escárnio. Lideradas por Christine “Chris” Hargensen, as garotas jogam absorventes íntimos nela, gritam “tampa!” e “tampa aquilo!”, e transformam o momento em um espetáculo de humilhação . A única que sente remorso é Sue Snell, a namorada do popular jogador de futebol Tommy Ross.
A professora de educação física, Rita Desjardin, pune as garotas envolvidas com detenção. Chris se recusa a cumprir a punição e, como resultado, é proibida de ir ao Baile de Formatura. Ela jura vingança.
Enquanto isso, Sue, atormentada pela culpa, convence Tommy a chamar Carrie para o baile em seu lugar. Carrie, incrédula, aceita — contra a vontade de sua mãe, que a tranca no “armário de orações” e a proíbe de sair. Pela primeira vez, Carrie usa seus poderes telecinéticos contra Margaret. Empurra a mãe para o chão e vai para o baile.
O baile começa bem. Tommy é gentil. Carrie se sente, pela primeira vez, quase normal. Para sua surpresa, ela e Tommy são eleitos Rei e Rainha do Baile. Subindo ao palco, coroada, aplaudida, Carrie sorri.
É então que Chris e seu namorado, Billy Nolan, colocam em prática o plano. Uma corda é puxada. Um balde cheio de sangue de porco se inclina. O sangue cai sobre Carrie.
O ginásio inteiro explode em risadas. Até a professora Desjardin ri .
Carrie não ri. Ela se levanta, o sangue escorrendo pelo vestido, e algo dentro dela se rompe. O que acontece em seguida é uma das sequências mais icônicas da literatura de terror: Carrie usa seus poderes para trancar as portas do ginásio, provocar um incêndio, eletrocutar os estudantes que tentam fugir e destruir o prédio inteiro. Depois, caminha pela cidade, destruindo postos de gasolina, lojas e casas. Centenas de pessoas morrem .
Quando chega em casa, Margaret a espera com uma faca de cozinha. Ela acredita que a filha está possuída pelo demônio e precisa ser “purificada”. Enquanto reza, Margaret esfaqueia Carrie no ombro. Ferida, moribunda, Carrie usa seus poderes pela última vez: para deter o coração da própria mãe .
Carrie caminha até a estrada, onde encontra Chris e Billy no carro. Usando sua telecinese, ela faz o veículo colidir com uma parede, matando os dois. Sue Snell a encontra caída no estacionamento, sangrando. Em um último lampejo de consciência, Carrie percebe que Sue não participou da sabotagem — e a perdoa .
Carrie White morre chorando pela mãe.
Sue Snell sobrevive. Mas carregará para sempre a culpa e a memória da garota que poderia ter salvo.
Uma das coisas mais interessantes em Carrie é a maneira como King escolheu contar essa história. Diferente de um romance linear convencional, o livro é estruturado como uma colagem de documentos: trechos de jornais, depoimentos de sobreviventes, artigos acadêmicos, transcrições de julgamentos, trechos de livros e relatórios oficiais .
A resenha do blog Em Meio à Calmaria descreve essa escolha como “interligar fatos com depoimentos, trechos de livros, de pesquisas, de pontos de vista de outros personagens além de Carrie, o que tornou de certa forma a história mais completa e vendo por esses pontos de vista podemos ver claramente como Carrie se sentia” .
É uma metaficção antes do termo se popularizar. King escreve como se estivesse reconstituindo um caso real, décadas depois do ocorrido. O leitor não apenas acompanha os eventos em tempo real, mas também vê as consequências, os julgamentos, as tentativas de entender o que aconteceu. Isso dá ao livro uma camada extra de realismo — e de tragédia. Porque, no fundo, a gente sabe que Carrie não vai sobreviver. O livro todo é, de certa forma, um prelúdio para a destruição que já sabemos que vai acontecer .
A resenha do blog Interação Literária observa: “A história é contada como se o livro apresentasse um caso verídico: parágrafos são ditos terem sido tirados de estudos sobre o caso e biografias de alunos envolvidos” . E, embora a resenha aponte que isso pode tornar a narrativa menos “fluida”, é inegável que a estrutura se tornou uma marca registrada de King — e continua sendo um dos aspectos mais elogiados do romance.
O grande trunfo de Carrie é a construção de sua protagonista. Não há heroísmo aqui. Não há redenção fácil. Carrie é, ao mesmo tempo, vítima e monstro. E é justamente essa dualidade que torna sua história tão devastadora.
Por um lado, Carrie é uma garota comum — se é que se pode dizer isso. Ela quer ser aceita, quer ir ao baile, quer usar um vestido bonito, quer ser beijada. Seus poderes não são inatos; eles se manifestam em momentos de estresse extremo, como uma resposta do corpo à violência que sofre . Ela não escolheu ser diferente. Ela foi feita diferente.
Por outro lado, quando finalmente explode, Carrie não faz distinção entre culpados e inocentes. Ela mata Chris e Billy — sim. Mas também mata dezenas de estudantes que nada tinham a ver com a sabotagem. Mata professores. Mata pessoas na cidade. Sua vingança é cega, brutal, indiscriminada .
A resenha do Skoob user vivs7 captura essa ambiguidade: “Carrie, na minha opinião, é uma crítica social ao fanatismo religioso, ao bullying, é uma obra bem representativa, com o toque de sobrenatural” . O “toque de sobrenatural” é apenas o gatilho. O verdadeiro horror é humano.
E, no fim, o que sobra é uma menina morta — não um monstro, não uma deusa da vingança, mas uma garota de 16 anos que, em seu último suspiro, chama pela mãe que tentou matá-la .
Se Carrie é a vítima que se torna monstro, Margaret White é o monstro que nunca precisou de poderes sobrenaturais.
Margaret é uma fanática religiosa. Viúva, criou Carrie sozinha em um ambiente de medo, culpa e repressão. Ela acredita que tudo é pecado: o corpo, os desejos, a menstruação, a dança, a maquiagem, o romance. Quando Carrie começa a menstruar, Margaret a tranca no armário de orações e a obriga a rezar por perdão — como se o próprio corpo fosse uma afronta a Deus .
A resenha do Skoob user J_m81 destaca: “No fim fiquei bastante reflexiva com tudo o que aconteceu, com a Carrie que foi uma vítima, parecia tão ingênua a respeito de tudo, mas a parte que mais me remeteu terror foram as partes da mãe fanática religiosa” .
Margaret não é uma caricatura. É um retrato assustador do que o fanatismo pode fazer com uma pessoa — e com quem está ao seu redor. Ela acredita genuinamente que está salvando a filha do pecado. Sua violência não é sádica; é terapêutica. E é exatamente essa convicção que a torna tão aterrorizante.
No clímax do livro, Margaret revela a Carrie que nunca quis ser mãe. Carrie foi fruto de um estupro: o pai de Carrie, Ralph White, estuprou Margaret no dia do casamento. Margaret nunca perdoou a filha por existir . É uma revelação de partir o coração — e que explica, em grande parte, o ódio que Margaret sente pelo corpo da filha. Carrie não é apenas um pecado. Carrie é a lembrança viva de uma violência que Margaret nunca conseguiu superar.
Carrie é um livro de terror. Mas é também uma crítica social mordaz a temas que, infelizmente, continuam atuais meio século depois.
O livro não romantiza o bullying. Não o trata como “coisa de adolescente” ou “fase”. Mostra a crueldade pura e simples — e mostra como ela pode destruir uma vida. As garotas que humilham Carrie não são monstros caricatos. São pessoas comuns que, por um momento, deixam a maldade falar mais alto. E pagam por isso com a vida.
Uma leitora da Amazon escreveu: “Carrie é uma crítica social ao fanatismo religioso, ao bullying” . É exatamente isso.
Margaret White é um dos personagens mais assustadores de King justamente porque é real. Existem Margarets por aí — pais e mães que usam a religião como desculpa para controlar, punir, humilhar. O “armário de orações” onde Carrie é trancada sempre que comete um “pecado” é uma metáfora poderosa para o que acontece com crianças criadas em ambientes repressivos: elas aprendem a temer o próprio corpo, a própria mente, a própria existência.
Há uma leitura feminista possível de Carrie. Seus poderes telecinéticos se manifestam pela primeira vez durante a menstruação — o marco biológico da passagem para a vida adulta feminina. A violência que ela sofre é, em grande parte, sobre o controle do corpo feminino: o corpo que sangra, o corpo que deseja, o corpo que é humilhado. Quando Carrie finalmente usa seus poderes para se vingar, ela está, de certa forma, recuperando o controle sobre seu próprio corpo .
O problema, claro, é que essa recuperação vem a um preço altíssimo — não apenas para os algozes, mas para inocentes também.
Sue Snell sobrevive. Chris Hargensen, não. Tommy Ross, não. A professora Desjardin sobrevive, mas carrega a culpa de ter rido quando o sangue caiu sobre Carrie . O livro dedica boa parte de seus “documentos” a explorar o que acontece com quem fica. A culpa, o trauma, a tentativa de entender. É um tema que King revisitou muitas vezes em sua carreira, mas que em Carrie aparece pela primeira vez — e com uma força que impressiona.
Carrie não é o melhor livro de Stephen King. Ele mesmo diria isso. É um romance de estreia, com amarras de romance de estreia: a prosa às vezes é truncada, os personagens secundários são menos desenvolvidos, e algumas reviravoltas são um pouco previsíveis demais .
Mas é um livro fundador. É onde King aprendeu a escrever sobre o que escreveria pelo resto da vida: o horror que mora dentro de pessoas comuns. O monstro que não está no armário, mas na sala de jantar. A violência que não vem de fora, mas de dentro.
Uma leitora do blog Em Meio à Calmaria resumiu bem: “Esse sendo o primeiro livro do autor, foi o que deu o despertar e pontapé inicial para várias outras histórias que hoje em dia não existiriam se não fosse por Carrie” .
E, em 2025, Carrie está mais atual do que nunca. O bullying continua nas escolas. O fanatismo religioso continua destruindo famílias. Adolescentes continuam sendo humilhados por serem “diferentes”. A diferença é que, na vida real, não há poderes telecinéticos para salvá-los — ou para vingá-los.
A nova série de Mike Flanagan para a Amazon Prime Video, com Summer Howell no papel-título e Samantha Sloyan como Margaret White, promete trazer a história para uma nova geração . Mas, antes de assistir, vale a pena ler o original. Sentir a dor de Carrie na pele. Entender por que, meio século depois, sua história ainda nos assombra.
As avaliações de Carrie são majoritariamente positivas — mas com ressalvas.
Uma leitora do Skoob deu 4 estrelas e escreveu: “A escrita é bem rápida, o que no começo me incomodou um pouco, até pegar o ritmo. Para o primeiro livro do Stephen King, achei que ele mandou bem” .
Outra leitora, no blog Interação Literária, avaliou com 3 estrelas: “Apesar de tudo é uma boa leitura, de fácil compreensão, uma leitura incrivelmente rápida, e ainda mais por ser o primeiro livro do autor, ele estava começando na sua jornada de escritor, então a escrita em si se torna mais fácil e viável a todos os leitores” .
O Skoob user J_m81 destacou: “Apesar a leitura ser rápida, a primeira metade me deixou um pouco desanimada com o desenrolar da história, esperava mais e parecia muito um filme de adolescente de sessão da tarde, mas depois da metade a história fica mais interessante” .
O consenso parece ser: Carrie é um bom livro, talvez não o melhor de King, mas indispensável para quem quer entender de onde veio o mestre. E, como o próprio autor já disse, se não fosse por Tabitha resgatando o manuscrito do lixo, talvez nunca tivéssemos conhecido nem Carrie, nem Pennywise, nem Jack Torrance, nem Roland de Gilead.
Carrie está disponível no Brasil pela Editora Suma em formato brochura, com cerca de 200 páginas. A edição faz parte do catálogo do selo, que em 2025 completa 20 anos de atuação no mercado brasileiro de ficção especulativa . A Suma é responsável por publicar no Brasil os maiores nomes do gênero, incluindo George R. R. Martin, Philip K. Dick, Connie Willis, Cixin Liu e, claro, o próprio Stephen King .
Recomendado para:
Não recomendado para:
Carrie não é o livro mais assustador de Stephen King. Não é o mais sofisticado. Não é o mais longo. Mas é, de certa forma, o mais importante. Porque sem Carrie, não haveria Stephen King como o conhecemos. Sem a adolescente de Chamberlain que aprendeu a mover objetos com a mente, não haveria o mestre do terror que nos presenteou com Pennywise, com o Overlook Hotel, com a Torre Negra.
Uma leitora do blog Em Meio à Calmaria resumiu: “O primeiro livro escrito e publicado por Stephen King, hoje em dia com mais de 20 títulos publicados, vários inclusive adaptados e considerado o mestre do terror. Esse sendo o primeiro livro do autor, foi o que deu o despertar e pontapé inicial para várias outras histórias” .
E há algo de profundamente humano em Carrie. Algo que ressoa com qualquer um que já se sentiu excluído, humilhado, invisível. Algo que nos faz perguntar: o que aconteceria se a gente também tivesse poderes? O que faríamos com eles? E, mais importante: o que a sociedade fez conosco para que a gente quisesse usá-los para destruir?
Carrie White morreu há 50 anos. Mas sua história — e a pergunta que ela carrega — continua mais viva do que nunca.
Então, se você está disposto a encarar, vai em frente. Mas, se me permite um conselho: não julgue Carrie antes de conhecer sua história. Porque, no fundo, todos nós já fomos um pouco Carrie. A diferença é que, na vida real, não há telecinese para nos salvar.
Ficha Técnica:
| Item | Informação |
|---|---|
| Título | Carrie |
| Autor | Stephen King |
| Editora | Suma (selo do Grupo Companhia das Letras) |
| Tradução | — |
| Páginas | ~200 |
| Ano | 2015 (original: 1974) |
| ISBN | — |
| Gênero | Terror Psicológico / Suspense |
| Formato | Brochura |
| Classificação etária | 16 anos (recomendado) |







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