
Sabe aquela sensação de ver um desenho feito por uma criança, aquele rabisco inocente que a gente coloca na geladeira com um ímã, e pensar “ah, que fofo”? Pois Imagens Estranhas, de Uketsu, vai te ensinar a nunca mais olhar para um desenho infantil da mesma forma. Porque, às vezes, por trás de um traço torto, uma cor borrada, uma figura fora de lugar, pode haver um grito de socorro. Ou uma confissão. Ou a chave para um crime que ninguém conseguiu resolver.
Publicado no Brasil pela Editora Suma em 2025, o livro é um fenômeno que já vendeu mais de 3 milhões de exemplares no Japão e teve direitos adquiridos em mais de 30 territórios . É o tipo de obra que desafia classificações: é suspense, é terror psicológico, é um quebra-cabeça literário que convida o leitor a virar detetive e tentar decifrar, junto com os personagens, o que aquelas imagens aparentemente ingênuas estão tentando dizer.
E o mais perturbador? Elas estão dizendo coisas horríveis.
Vamos mergulhar nesse mundo de imagens que não são o que parecem. Mas, se me permite um conselho: preste atenção em cada traço. Você pode estar diante de uma pista.

Antes de falar sobre o livro, preciso apresentar seu criador. Ou melhor: tentar apresentar.
Uketsu (雨穴, que pode ser lido como “buraco da chuva”) é um fenômeno no Japão. Youtuber com mais de 1 milhão de seguidores, ele produz vídeos sobre mistérios, horror e enigmas que acumulam milhões de visualizações . Mas há um detalhe: ninguém sabe quem ele é.
Em seus vídeos, Uketsu aparece usando uma máscara branca lisa, roupas pretas que escondem todo o corpo e voz distorcida digitalmente . É uma figura que lembra os personagens enigmáticos de suas próprias histórias. E esse anonimato não é apenas uma estratégia de marketing — é parte essencial do seu apelo. Uketsu é, ele mesmo, um mistério. E seus livros são extensões desse universo enigmático.
Antes de se tornar fenômeno literário, Uketsu já havia publicado Casas Estranhas, outro sucesso de vendas no Japão . Mas foi com Imagens Estranhas que sua popularidade explodiu, consolidando-o como um dos nomes mais originais do suspense japonês contemporâneo.
O que torna Uketsu tão fascinante é sua capacidade de transformar o banal em aterrorizante. Assim como em O Chamado a fita de vídeo vhs se tornava um portal para o horror, e nas obras de Junji Ito o cotidiano se deformava em algo grotesco, Uketsu pega algo tão comum quanto um desenho infantil e o transforma em um objeto de terror . Não há fantasmas aqui. Não há sobrenatural. O horror é humano. E é por isso que dói tanto.
Imagens Estranhas é estruturado como um conjunto de quatro histórias aparentemente desconectadas, cada uma centrada em um desenho misterioso . Mas, como em um quebra-cabeça bem construído, todas as peças se encaixam no final. E o encaixe é perturbador.
O livro começa com um prólogo que já estabelece o tom: uma psicóloga analisa o desenho de uma garotinha que assassinou a própria mãe . Ela explica como os traços, as cores, as formas podem revelar emoções inconscientes, conflitos, desejos ocultos. É uma aula rápida sobre como ler imagens. E é também um convite: a partir de agora, você vai olhar para os desenhos que aparecerem no livro com outros olhos.
A partir daí, as quatro histórias se desenrolam, cada uma com seu próprio mistério, seu próprio desenho enigmático, seus próprios personagens tentando entender o que está acontecendo. E o leitor, junto com eles, é lançado em uma investigação que cruza décadas — a trama se passa entre 1992 e 2015 — e conecta vidas que pareciam não ter nada em comum.
Vamos conhecer cada uma dessas histórias. Mas, atenção: quanto menos você souber antes de ler, melhor. Vou contar o essencial para despertar sua curiosidade, mas os segredos mais profundos estão guardados nas páginas do livro, esperando por você.
Tudo começa com um blog.
Em 2008, um homem chamado Shin cria um diário online para registrar sua vida ao lado de sua esposa, Yuki . Ele é alegre, otimista, compartilha pequenos momentos do cotidiano. Yuki, que é seis anos mais velha, é uma ex-ilustradora. Em uma das postagens, ela desenha um retrato do marido em menos de cinco minutos. Shin fica encantado.
O tempo passa. Yuki engravida. Shin anuncia a novidade aos leitores, radiante. E Yuki, em algum momento da gestação, faz cinco desenhos que parecem retratar a felicidade da chegada do bebê . São imagens simples, quase infantis: uma mulher com o cabelo ao vento, um bebê vestido de Papai Noel, uma cena de família.
Mas a gravidez é de risco. Pouco antes do parto, algo acontece. Yuki morre ao dar à luz.
Shin fica devastado. Mas, em meio ao luto, ele começa a olhar para os desenhos da esposa com outros olhos. Eles não estão em sequência. Há uma ordem correta, uma mensagem oculta que Yuki tentou deixar antes de partir. Ele passa dois anos tentando decifrar o enigma.
Até que, um dia, faz uma postagem enigmática: “Não posso te perdoar”. E nunca mais escreve.
O blog fica abandonado. Os posts antigos são apagados. Restam apenas alguns fragmentos. Mas a história não morre. Ela é passada de leitor para leitor, de fã para fã. Até que chega aos ouvidos de Kurihara, um universitário fã de mistérios, e de seu amigo Shuhei Sasaki . Eles começam a investigar. E descobrem que os desenhos de Yuki podem conter não apenas a mensagem que Shin procurou, mas também a chave para algo muito maior.
O que há por trás daquela mulher com o cabelo ao vento? Por que o bebê está vestido de Papai Noel? E o que Shin não conseguia perdoar?
A resposta vai te gelar.
A segunda história nos apresenta Naomi Konno, uma mãe solteira que vive sozinha com o filho pequeno, Yuta, em Tóquio . O pai do garoto morreu há alguns anos, e os dois tentam seguir em frente.
Certo dia, na escola, a professora pede que as crianças façam um desenho em homenagem ao Dia das Mães. Yuta entrega uma folha com a imagem de um prédio — o prédio onde mora com a mãe — e ao lado, ele e ela. Mas há algo estranho: uma mancha cinza borrada cobre exatamente o andar onde fica o apartamento deles .
A professora estranha. Pergunta ao menino o que aconteceu. Ele não explica direito. Apenas diz que o desenho “ficou assim”. Ela decide conversar com Naomi no final do dia.
Só que Naomi não está bem. Há dias ela está sendo seguida por um carro preto. Acha que alguém quer fazer mal a ela e ao filho. Vive em estado de alerta, paranoica, desconfiando de tudo e de todos.
No dia seguinte, Yuta desaparece.
Naomi olha as câmeras de segurança do prédio e vê o garoto saindo sozinho, em direção a algum lugar. Mas, em vez de chamar a polícia, ela começa sua própria investigação. E é aí que a história toma um rumo que ninguém esperava.
O que Yuta estava tentando mostrar com aquela mancha cinza? Para onde ele foi? E por que Naomi tem medo da polícia?
A resposta vai te fazer repensar cada palavra da história que você acabou de ler.
A terceira história é, para muitos leitores, a mais chocante e visceral do livro .
Ela começa com um crime brutal. Três anos antes do tempo presente da narrativa, o professor de artes Yoshiharu Miura sobe o Monte K para fazer trilha e desenhar a paisagem. Ele vai acompanhado de um amigo. No meio do caminho, o amigo desiste e volta sozinho. Na manhã seguinte, o corpo de Miura é encontrado.
O estado em que foi deixado é de uma crueldade indescritível. Mais de 200 ferimentos pelo corpo. Deformações que indicam uma violência desmedida, quase irracional . No bolso do professor, a polícia encontra um ticket de supermercado com um desenho rudimentar da vista da montanha — um desenho tão amador que não parece ter sido feito por um professor de artes.
As investigações apontam para três suspeitos: a esposa, o amigo que o acompanhava e uma aluna apaixonada. Mas o caso nunca é resolvido. A polícia encerra as investigações. O crime fica impune.
Até que dois homens decidem reabrir o caso por conta própria.
Shunsuke Iwata foi aluno de Miura. O professor o ajudou nos momentos mais difíceis, depois que ele perdeu os pais. Ele quer justiça.
Isamu Kumai é um jornalista veterano que cobriu o caso na época, mas teve que se afastar por problemas de saúde. Quando retorna, descobre que as investigações foram arquivadas. Ele não aceita.
Os dois começam uma investigação independente, guiados pelo desenho encontrado com o corpo. E o que descobrem é tão aterrorizante que nem a polícia, nem o leitor, estavam preparados.
O que aquele desenho rudimentar realmente representa? Por que Miura, um professor de artes, teria feito algo tão amador? E quem, afinal, o matou?
A resposta vai te fazer perder o fôlego.
A quarta e última história fecha o círculo. E, quando você terminar de ler, vai perceber que já conhecia este desenho — ele apareceu na primeira página do livro, no prólogo .
Naomi é uma garotinha de 10 anos que ama o pai. Em seu aniversário, ganha de presente um passarinho. Ela o chama de Pinho e cuida dele com todo o carinho do mundo .
Um ano depois, o pai morre. Naomi fica arrasada. Pinho se torna o elo que a conecta à memória do pai.
Mas sua mãe não entende isso. Para ela, o passarinho é um incômodo. Um dia, Naomi chega da escola e encontra a mãe agredindo Pinho. O bichinho está quase sem vida. Naomi não sabe o que fazer. Desesperada, vê a casinha de madeira que fez com o pai e a usa para golpear a mãe, forçando-a a soltar o passarinho.
As duas entram em luta. Naomi não quer matar. Só quer proteger. Mas, no meio da confusão, a mãe cai e morre.
Naomi vai parar em um reformatório. Lá, uma psicóloga pede que ela faça um desenho. A menina desenha uma casa, uma árvore e um passarinho. Uma cena aparentemente inocente. Mas a psicóloga percebe algo estranho: o sorriso da menina, a posição do passarinho, os galhos da árvore — tudo está fora do lugar .
O que aquele desenho revela sobre a menina? Sobre o que aconteceu de fato naquele dia? E, mais importante: como essa história se conecta com as três anteriores?
Quando todas as peças se encaixam, você vai ficar com a boca aberta. E vai perceber que, no fundo, todas as histórias eram sobre a mesma coisa: sobre o que o ser humano é capaz de fazer quando acredita estar protegendo alguém.
Imagens Estranhas é uma experiência de leitura única. E não estou exagerando.
O grande trunfo de Uketsu é fazer o leitor se sentir parte da investigação . Cada desenho apresentado é uma pista. Você pode virar o livro, inclinar a cabeça, tentar ver o que os personagens estão vendo. E, quando eles erram, você também erra. Quando acertam, você sente a satisfação de quem desvendou um enigma.
Como uma leitora descreveu: “É como montar um quebra-cabeça macabro. Você tenta desvendar os mistérios por trás de cada imagem e, quando percebe, está totalmente envolvido na grande história que conecta tudo” .
Uketsu domina a arte do narrador onisciente que escolhe o que mostrar e quando mostrar . Há informações que ele esconde propositalmente. Personagens que você jura que são uma coisa, mas são outra. Idades, nomes, relações — tudo pode ser uma armadilha.
A resenha do JBox destaca: “O autor parece ter controle sobre o imaginário comum do público, de modo que consegue enganá-lo quanto à aparência, nome e idade de personagens importantes” . E quando a verdade vem à tona, você se pega pensando: “como eu não vi isso antes?”
Não há fantasmas em Imagens Estranhas. Não há assombrações, maldições, criaturas sobrenaturais. O horror, aqui, é humano, doméstico, cotidiano . É o que uma pessoa é capaz de fazer com outra quando o amor se transforma em posse, quando a proteção se transforma em violência, quando a mentira se torna a única forma de sobreviver.
Uma leitora do blog Queria Estar Lendo resumiu bem: “É menos sobre aterrorizar e mais sobre perturbar com o quanto um ângulo, uma linha, uma cor diferente pode mudar a história que um desenho está contando” .
Quando você termina a terceira história, já começa a suspeitar que há algo conectando tudo. Mas a forma como Uketsu amarra as pontas no final é tão engenhosa que você fica sem saber se admira a construção ou se sente enjoado com o que descobriu.
O site Boca do Inferno apontou que algumas deduções dos personagens são “convenientes demais” e exigem que o leitor releve pequenas forçadas de barra . É verdade. Mas, como o mesmo site reconhece, “Sherlock Holmes e Poirot que o digam” — grandes detetives também têm seus momentos de intuição milagrosa. O que importa é que, no final, tudo faz sentido. E o sentido é perturbador.
Imagens Estranhas não é um livro para todos. É bom que você saiba no que está se metendo.
O livro começa devagar. As quatro histórias são apresentadas separadamente, e pode parecer, no início, que você está lendo quatro contos desconexos. Se você está acostumado com thrillers que te agarram pela camisa desde a primeira página, pode sentir um pouco de impaciência.
Mas, como uma leitora apontou, “a graça está justamente em ir decifrando a estranheza das histórias conforme se desenrolam” . Confie no processo.
Algumas resenhas apontam que os personagens às vezes chegam a conclusões muito rapidamente, com poucas pistas, de forma que pode parecer “forçado” . É uma crítica válida. Mas, se você encarar o livro como uma obra que valoriza mais a atmosfera e o impacto do que o realismo processual, vai conseguir embarcar na proposta.
O livro aborda temas que são considerados tabu, especialmente no Japão: uma criança que mata a própria mãe; violência doméstica; abuso infantil; suicídio; relações familiares disfuncionais . Não há cenas gráficas descritas em detalhes, mas a sugestão e a revelação são tão impactantes que podem deixar marcas.
Uma leitora disse: “Na terceira história há tanta crueldade que fiquei chocada” . Outra completou: “A última história traz a grande surpresa — não por finalmente entendermos o que aconteceu, mas pelo choque de perceber do que um ser humano, com a alma e a mente totalmente distorcidas, pode ser capaz” .
As avaliações dos leitores brasileiros são praticamente unânimes: Imagens Estranhas é uma experiência que prende, perturba e surpreende.
Uma leitora deu nota 5 e escreveu: “Foi uma leitura muito envolvente, li bem rápido e confesso que não consegui descobrir nada, fui muito surpreendida com as revelações” .
Outra leitora, também com 5 estrelas, disse: “Que leitura viciante! Imagens Estranhas foi uma experiência completamente imersiva — quase como entrar num jogo de suspense em que você precisa observar tudo com atenção, e, mesmo assim, nunca sabe exatamente o que esperar” .
A resenha do site Boca do Inferno destacou a engenhosidade do autor: “Uketsu usa elementos comuns para construir uma narrativa aterrorizante tal qual no tradicional terror japonês, mas sem usar elementos sobrenaturais” .
Já o JBox elogiou a forma como o livro se comunica com o leitor: “Uketsu vai desenrolando os fios do novelo de seu próprio jogo de maneira inteligente com uma revelação ao fim de cada capítulo, mas sem nunca estragar a surpresa do episódio seguinte” .
O consenso parece ser: Imagens Estranhas é um livro que entrega o que promete — e um pouco mais. É uma leitura que vai te deixar com a sensação de que você também participou da investigação. E que, no final, foi enganado — do melhor jeito possível.
Imagens Estranhas está disponível no Brasil pela Editora Suma em formato brochura, com 184 páginas (ou 269 páginas na versão e-book) . A tradução é de Maria Luísa Vanik, e o projeto gráfico é assinado por Ale Kalko e Amanda Miranda .
A edição brasileira mantém os desenhos originais que são parte essencial da narrativa. E, como apontou uma leitora, “a inserção das imagens foi uma sacada genial do Uketsu, já que faz o leitor se sentir parte do que está acontecendo” .
Recomendado para:
Não recomendado para:
Imagens Estranhas é um daqueles livros que você termina e quer começar de novo. Não porque não entendeu — embora, confesso, as reviravoltas são tão bem construídas que você pode querer revisitar cada pista — mas porque quer ver, com o conhecimento do final, como tudo se encaixava desde o início.
Uketsu faz algo raro: ele transforma a experiência de leitura em uma investigação. Você não é apenas um espectador. É um detetive. E, como todo bom detetive, você vai errar, vai ser enganado, vai seguir pistas falsas. Mas, no final, quando todas as peças se encaixam, você sente aquela satisfação de quem resolveu um grande mistério. E também aquele frio na espinha de quem descobriu algo que preferia não saber.
O autor trata de temas que são tabu no Japão — e também no Brasil. Fala sobre o que acontece quando a família, que deveria ser um lugar de proteção, se torna um lugar de violência. Sobre o que o ser humano é capaz de fazer quando acredita estar protegendo alguém. Sobre como a inocência pode ser uma armadilha. Sobre como desenhos podem ser mais eloqüentes do que mil palavras.
Como uma leitora disse: “É um livro inquietante, em que elementos triviais assumem um sentido macabro e desenhos ingênuos escondem realidades aterrorizantes” .
Então, se você está disposto a encarar, vai em frente. Mas, se me permite um conselho: preste atenção em cada imagem. Vire o livro, se precisar. Incline a cabeça. Olhe de novo. Porque, às vezes, a verdade está bem ali, na sua frente, e você só não vê porque está olhando do ângulo errado.
E, quando terminar, me conta: você conseguiu decifrar os desenhos antes das revelações?
Ficha Técnica:
| Item | Informação |
|---|---|
| Título | Imagens Estranhas |
| Autor | Uketsu |
| Editora | Suma |
| Tradução | Maria Luísa Vanik |
| Arte de capa | Ale Kalko e Amanda Miranda |
| Páginas | 184 (edição impressa) / 269 (e-book) |
| Ano | 2025 (original: 2023) |
| ISBN | 978-8556512024 |
| Gênero | Suspense / Terror Psicológico / Mistério |
| Formato | Brochura |
| Classificação etária | 16 anos (recomendado) |






