O Hotel Cecil: O Lugar de Los Angeles que Atrai a Morte

No coração de Los Angeles, em meio ao caos e à miséria da Skid Row, um edifício imponente se ergue como um monumento silencioso à tragédia. São 700 quartos distribuídos em andares que já testemunharam suicídios, assassinatos, overdoses e desaparecimentos inexplicáveis. O Hotel Cecil não é apenas um lugar — é um personagem sombrio na história da cidade, um imã macabro que parece atrair a morte como faróis atraem mariposas .

Construído em 1924 com o ambicioso objetivo de ser um destino para turistas abastados, o Cecil custou um milhão de dólares para ser erguido . Seu lobby majestoso e sua arquitetura imponente eram reflexo de uma Los Angeles em ascensão, uma cidade que prometia fama e fortuna a todos que nela aportassem. Mas o sonho durou pouco. Cinco anos após sua inauguração, a Grande Depressão varreu os Estados Unidos, e o destino do hotel mudou para sempre .

Neste artigo, vamos mergulhar fundo na história macabra do Hotel Cecil, o lugar de Los Angeles que atrai a morte. Vamos conhecer suas vítimas, seus algozes, seus fantasmas e o caso que paralisou o mundo: o desaparecimento de Elisa Lam. Prepare-se para uma viagem aos corredores mais sombrios da cidade dos anjos.

Capítulo I: A Ascensão e Queda de um Gigante

O Sonho Americano em Concreto

Quando o Hotel Cecil abriu suas portas em 1924, Los Angeles vivia uma era de ouro. Hollywood engatinhava, mas já despontava como a capital mundial do entretenimento. Empresários, artistas e aventureiros de todos os cantos do país acorriam à Califórnia em busca de oportunidades. Era para esse público que o hotel havia sido pensado .

Com 700 quartos, o Cecil era uma cidade dentro da cidade. Seus corredores largos, seus lustres de cristal, seus elevadores de latão polido — tudo respirava sofisticação. Os primeiros hóspedes eram viajantes abastados, homens de negócios que escolhiam o Cecil não apenas pelo conforto, mas pela localização privilegiada no centro nevrálgico de Los Angeles .

Mas o destino, caprichoso, reservava outras páginas para aquele edifício.

A Grande Depressão e a Transformação

Em 1929, o crash da Bolsa de Nova York mergulhou os Estados Unidos na pior crise econômica de sua história. A Grande Depressão varreu o país, e Los Angeles não foi exceção. O público abastado que frequentava o Cecil desapareceu. Em seu lugar, uma nova clientela começou a ocupar os quartos .

Com 700 quartos para preencher e a economia em frangalhos, o hotel foi forçado a baixar drasticamente seus preços. O que era um destino de luxo transformou-se em moradia para quem não tinha para onde ir. Desempregados, migrantes, famílias despejadas — todos encontravam no Cecil um teto a preço acessível.

A vizinhança também mudou. O hotel ficava perigosamente próximo da Skid Row, uma região que concentrava a população de rua de Los Angeles, incluindo ex-presidiários, dependentes químicos e pessoas com transtornos mentais que haviam sido desinstitucionalizadas e não tinham para onde ir . A mistura era explosiva.

Amy Price, que foi gerente do hotel por dez anos, descreveu a realidade cotidiana do Cecil em entrevista à BBC: “A pessoa que está com você no elevador pode ser um agressor sexual de 85 anos que saiu da prisão e não tem para onde ir” . Em seu período à frente do hotel, Price testemunhou cerca de 80 mortes — uma média de oito por ano. Ambulâncias e viaturas policiais eram chamadas ao local pelo menos três vezes por semana .

Capítulo II: Os Primeiros Mortos — Suicídios e Acidentes

A Primeira Vítima Registrada

O primeiro episódio documentado de morte no Hotel Cecil ocorreu em 1931, apenas sete anos após sua inauguração. W.K. Norton, um hóspede de 46 anos, foi encontrado sem vida em seu quarto. Havia ingerido pílulas venenosas em um claro ato suicida .

Norton havia sido dado como desaparecido dias antes. Quando as autoridades finalmente o localizaram, já era tarde demais. O caso foi rapidamente arquivado como suicídio, sem maiores investigações. Mas algo curioso aconteceu depois: a notícia se espalhou, e o hotel ganhou fama de “discreto”. Para alguns, isso era um atrativo .

Nas décadas seguintes, os suicídios se multiplicaram. Os anos 1940 e 1950 foram particularmente férteis em tragédias. Homens e mulheres solitários, muitos deles vindos de outros estados, escolhiam o Cecil como o cenário para seus atos finais. Pulavam das janelas, ingeriam veneno, se enforcavam nos ganchos dos armários .

O mais perturbador? Ninguém parecia se importar. O hotel continuava operando, os corpos eram removidos, os quartos eram limpos e imediatamente realugados. A morte era apenas mais um negócio.

A Mulher que Matou Dois Coelhos com Uma Cajadada Só

Em 1962, um episódio particularmente bizarro entrou para a história do Cecil. Pauline Otton, uma mulher de 47 anos, saltou do nono andar do hotel em um ato suicida. Mas ao cair, atingiu um pedestre que passava pela calçada, George Gianinni, de 65 anos. Ambos morreram na hora .

O caso ganhou manchetes não apenas pelo suicídio, mas pela ironia trágica de uma morte que se alastrou para um inocente. Pauline, em seu último ato desesperado, levou consigo um completo estranho. Até hoje, é um dos episódios mais lembrados da história macabra do hotel.

Goldie Osgood: A Dama dos Pombos

Em 1964, outro crime brutal chocou os moradores do Cecil. Goldie Osgood, uma senhora de 67 anos conhecida como “a dama dos pombos” por alimentar as aves na praça em frente ao hotel, foi encontrada morta em seu quarto. Haviam-na estuprado e estrangulado .

Goldie era uma figura querida entre os residentes permanentes do hotel. Aposentada e solitária, dedicava seus dias aos pombos e a pequenas conversas com os vizinhos. Sua morte violenta chocou a comunidade e mobilizou uma investigação que, no entanto, nunca chegou a lugar nenhum. O assassino de Goldie Osgood jamais foi identificado .

O caso da Dama dos Pombos permanece em aberto até hoje, mais um fantasma nos corredores do Cecil.

Capítulo III: Os Predadores — Quando o Hotel Virou Covil

Se as mortes por suicídio e acidentes já eram perturbadoras, o que aconteceu nas décadas de 1980 e 1990 levou a fama do Cecil a outro patamar. O hotel, com sua discrição e falta de vigilância, tornou-se o refúgio preferido de alguns dos assassinos em série mais notórios da história americana.

Richard Ramirez: O Caçador Noturno

Em 1985, um homem magro, de olhos profundos e semblante sombrio, ocupou um quarto no Hotel Cecil. Ninguém fez perguntas. Ninguém pediu identificação. Ele pagou e subiu. Seu nome era Richard Ramirez, e ele entraria para a história como um dos criminosos mais depravados que os Estados Unidos já conheceram .

Ramirez, que ficou conhecido como “Night Stalker” (o Caçador Noturno), aterrorizou a Califórnia durante meses. Seu modus operandi era caótico, o que tornava sua captura extremamente difícil. Diferente de outros assassinos em série, que seguiam padrões rígidos, Ramirez atacava de todas as formas: invadia casas à noite, estuprava mulheres na presença dos maridos, matava homens, mulheres e crianças sem distinção aparente .

Sua infância havia sido um prenúncio do monstro em que se tornaria. Ramirez foi criado ouvindo histórias de seu primo, um veterano da Guerra do Vietnã que se gabava de ter estuprado e matado mulheres durante o conflito, exibindo inclusive fotografias das vítimas . O jovem Richard absorveu aquelas histórias como esponja.

Quando finalmente começou sua própria carreira criminosa, Ramirez não seguia roteiro. Ora usava walkman durante os ataques, ora deixava armas na cena do crime. Comia a comida das vítimas, dormia em suas camas, às vezes até deixava pichações satânicas nas paredes . Esse comportamento errático confundiu a polícia por meses.

E onde entra o Hotel Cecil nessa história? Ramirez usou o hotel como base de operações. Ali ele se escondia, dormia, planejava. Dizem que chegava coberto de sangue, subia as escadas de cueca e ninguém o incomodava. Os funcionários aprenderam a não fazer perguntas .

Sua captura só aconteceu quando uma de suas vítimas sobreviveu e conseguiu descrevê-lo com detalhes. Meses depois, quando a polícia finalmente invadiu seu quarto no Cecil, encontraram provas de seus crimes — e também a confirmação de que o Caçador Noturno havia dormido ali por meses, tranquilamente, enquanto uma cidade inteira vivia aterrorizada .

Ramirez foi condenado à morte, mas nunca chegou a ser executado. Morreu em 2013, aos 53 anos, vítima de insuficiência hepática .

Jack Unterweger: O Assassino Celebridade

Seis anos depois de Ramirez, outro predador escolheu o Cecil como lar. Em 1991, o austríaco Johann “Jack” Unterweger chegou a Los Angeles com uma missão sombria: homenagear o Caçador Noturno repetindo seus crimes .

A história de Unterweger é particularmente bizarra porque ele não era um criminoso comum. Na Áustria, ele havia se tornado uma celebridade. Condenado por assassinar uma jovem na década de 1970, Unterweger passou anos na prisão, onde escreveu peças de teatro, poemas e uma autobiografia que lhe renderam fama e admiração da intelectualidade europeia. Intelectuais, artistas e até feministas faziam campanha por sua libertação, acreditando que ele estava “reabilitado” .

Em 1990, Unterweger foi solto. Imediatamente, voltou a matar. Desta vez, escolheu prostitutas como alvo. Quando veio a Los Angeles, hospedou-se no Cecil e, durante sua estadia, assassinou pelo menos três mulheres . Usou o hotel como base para suas incursões noturnas, exatamente como Ramirez fizera anos antes.

Só foi descoberto quando retornou à Áustria, onde a polícia local, analisando os padrões dos assassinatos em Los Angeles, percebeu a semelhança com os crimes anteriores de Unterweger. Preso novamente, cometeu suicídio na cela horas depois da condenação.

O Cecil havia abrigado dois dos assassinos em série mais notórios do século XX. A pergunta que ficou: o hotel atraía esses homens, ou eram eles que se sentiam atraídos pela impunidade que o lugar oferecia?

Capítulo IV: O Caso Mais Misterioso — Elisa Lam

A Chegada da Jovem Canadense

Em 26 de janeiro de 2013, uma jovem de 21 anos fez check-in no Hotel Cecil. Elisa Lam era uma estudante canadense de ascendência cantonesa, nascida em Vancouver e matriculada na Universidade da Colúmbia Britânica . Como tantos jovens antes dela, havia saído em uma viagem solitária pela Califórnia, uma espécie de aventura de autodescoberta.

Elisa não era uma jovem comum. Ela sofria de transtorno bipolar e depressão, e tomava medicação controlada para estabilizar o humor. Seus pais relutaram em deixá-la viajar sozinha, mas acabaram concordando, desde que ela mantivesse contato diário por telefone .

Nos primeiros dias, Elisa pareceu aproveitar a viagem. Visitou San Diego, postou fotos do zoológico em suas redes sociais, parecia feliz. Em 28 de janeiro, chegou a Los Angeles e fez o check-in no Cecil.

Mas algo estava errado. Inicialmente, Elisa dividia quarto com outras moças. As colegas logo reclamaram à gerência: Elisa trancava a porta e exigia senhas imaginárias para que elas pudessem entrar. Deixava bilhetes agressivos nos beliches com frases como “vá embora” e “nunca mais volte” . A gerência, incomodada com as reclamações, transferiu Elisa para um quarto individual.

Em 30 de janeiro, Elisa foi a uma livraria chamada The Last Bookstore, nas proximidades do hotel. A gerente da loja a descreveu como “extrovertida, muito animada e amigável”. Elisa comprou livros para levar de presente à família . Parecia bem. Mas naquela mesma noite, funcionários do hotel a viram vagando por áreas restritas aos hóspedes. A gerente Amy Price lembrou que Elisa apareceu no saguão gritando: “Eu sou louca, mas Los Angeles também é!” .

Foi a última vez que alguém a viu com vida.

O Vídeo do Elevador

Em 1º de fevereiro, Elisa deveria fazer o check-out e seguir viagem para Santa Cruz. Mas nunca apareceu. Seus pais, sem notícias, acionaram a polícia. Começava uma das buscas mais bizarras da história recente de Los Angeles.

Em 15 de fevereiro, a polícia divulgou um vídeo gravado pelas câmeras de segurança do hotel, na esperança de que alguém pudesse identificar Elisa ou dar pistas sobre seu paradeiro. O efeito foi o oposto do esperado. O vídeo se tornou viral e transformou o caso em um fenômeno mundial .

Nas imagens granuladas, Elisa aparece dentro do elevador. Veste um moletom vermelho, shorts escuros e tênis. Seu comportamento é profundamente perturbador. Ela aperta vários botões repetidamente, como se tentasse fazer alguma coisa. A porta não fecha. Ela então sai do elevador, espreita o corredor para os dois lados, volta para dentro, esconde-se no canto como se estivesse fugindo de alguém, gesticula de forma estranha com as mãos, parece conversar com uma presença invisível .

A cena dura quase quatro minutos. Ela entra e sai diversas vezes. Seus movimentos são erráticos, seu rosto expressa medo. Em determinado momento, ela sai do elevador e desaparece no corredor. A porta finalmente se fecha. É a última imagem de Elisa Lam com vida .

O vídeo gerou teorias de todos os tipos. Havia alguém fora do quadro? Ela estava drogada? Estava em surto psicótico? Ou havia algo sobrenatural no ar?

A Descoberta Macabra

Enquanto Elisa era procurada, algo estranho acontecia com a água do hotel. Hóspedes reclamavam de baixa pressão e de que a água saía escura e com gosto “doce” e “estranho” . Um casal britânico que passou oito dias no hotel contou que a água vinha preta por alguns segundos antes de voltar ao normal .

Em 19 de fevereiro, um funcionário da manutenção subiu ao telhado para investigar. Havia quatro tanques de água, cada um com capacidade para cerca de 3.785 litros, elevados em plataformas a três metros do chão . Ele notou que a tampa de um dos tanques estava entreaberta. Subiu a escada e olhou para dentro.

“Ela estava branca como um fantasma”, disse o funcionário . O corpo de Elisa Lam flutuava dentro do tanque, nua, suas roupas boiando ao lado. Junto com elas, o relógio e a chave do quarto .

O mais aterrorizante: por 19 dias, os hóspedes haviam bebido e tomado banho com aquela água.

As Perguntas Sem Resposta

A autópsia não encontrou sinais de trauma físico, marcas de luta ou evidências de agressão sexual. A causa da morte foi oficialmente registrada como afogamento acidental, com o transtorno bipolar como fator contribuinte. Os exames toxicológicos não encontraram drogas ilícitas, mas detectaram níveis baixos de sua medicação, indicando que ela não vinha tomando os remédios corretamente .

Mas as perguntas permanecem.

Como Elisa chegou ao telhado? A única forma de acesso era uma porta com alarme (que não disparou) ou escadas externas de incêndio. Cães farejadores perderam seu cheiro em uma janela do quinto andar que dava para uma escada de incêndio — sugerindo que ela pode ter subido por ali .

Como ela subiu no tanque? Os tanques ficavam sobre plataformas elevadas a três metros do chão. O funcionário da manutenção precisava de uma escada portátil para alcançar a abertura. Como uma jovem franzina conseguiu subir sozinha?

Como a tampa foi fechada? A tampa pesava cerca de 20 libras (aproximadamente 9 quilos) . Se Elisa caiu ou pulou dentro do tanque, não teria como fechar a tampa por dentro. A polícia disse inicialmente que a tampa estava fechada, mas depois corrigiu: o funcionário disse que ela estava aberta .

Onde está o celular de Elisa? Ele nunca foi encontrado. Mais estranho ainda: seu blog no Tumblr continuou recebendo publicações após sua morte .

E o vídeo? Os “detetives da internet” que analisaram as imagens descobriram que o material havia sido editado. Cerca de 53 segundos da gravação original estão faltando. O que aconteceu nesses 53 segundos? Quem editou o vídeo e por quê? 

A Coincidência Macabra com “Dark Water”

Para aumentar o mistério, internautas notaram semelhanças perturbadoras entre o caso de Elisa Lam e o filme de terror “Dark Water” (2005). No filme, uma menina de jaqueta vermelha morre e é encontrada dentro de um tanque de água no teto de um prédio, e os moradores reclamam de água escura com gosto estranho. A cena final mostra o corpo flutuando exatamente como Elisa foi encontrada .

Coincidência ou algo mais?

O Veredito e as Teorias

Em 2015, os pais de Elisa processaram o hotel por negligência. O juiz responsável pelo caso, Howard Halm, emitiu um parecer de nove páginas que lançou luz sobre a dificuldade de se chegar ao tanque. Segundo ele, para chegar ao local onde o corpo foi encontrado, Elisa precisaria “caminhar até o último andar do hotel, subir em uma plataforma, depois subir uma escada de dez degraus e, em seguida, abrir a tampa de 20 libras do tanque para cair ou entrar no tanque de água do telhado” . O juiz concluiu que a morte de Elisa era “imprevisível” e tendia a rejeitar o processo.

A explicação oficial, repetida pela polícia e pelo legista, é que Elisa sofreu um surto psicótico devido à interrupção da medicação, encontrou uma maneira de subir ao telhado, entrou no tanque (talvez para se esconder ou se refrescar) e se afogou. A porta do telhado, segundo o hotel, não tinha alarme funcionando adequadamente .

Mas a ausência de respostas definitivas alimenta as teorias até hoje. Assassinato? Suicídio? Acidente? Algo sobrenatural? O vídeo do elevador continua sendo analisado, ampliado, debatido. O caso Elisa Lam se tornou o capítulo mais famoso da história do Hotel Cecil — mas está longe de ser o único.

Capítulo V: O Hotel Hoje — Novos Nomes, Mesmos Fantasmas

Hotel Cecil
Crédito: Portal Sobrenatural

A Transformação em Stay on Main

Após o caso Elisa Lam, a má fama do Hotel Cecil atingiu níveis insustentáveis. Os proprietários decidiram rebatizá-lo como Stay on Main, na esperança de que um novo nome pudesse apagar o passado . A estratégia funcionou parcialmente: muitos turistas desavisados continuam reservando quartos sem saber da história sombria que as paredes escondem.

Mas os fantasmas não se importam com nomes.

O Documentário da Netflix

Em fevereiro de 2021, a Netflix lançou a série documental “Cena do Crime: Desaparecimento no Hotel Cecil”, dirigida por Joe Berlinger, conhecido por seus trabalhos em true crime como as séries sobre Ted Bundy . A produção de quatro episódios revisitou o caso Elisa Lam, mas também explorou a história completa do hotel, entrevistando a ex-gerente Amy Price, detetives que trabalharam no caso, especialistas locais e até youtubers que se autodenominavam “detetives da internet” .

Berlinger explicou sua abordagem em entrevista: “Todo mundo conhece aquela casa no final da rua onde coisas notoriamente assustadoras aconteceram, e o Hotel Cecil é isso para Los Angeles. Ele adquiriu uma qualidade de lenda urbana por ter uma longa história de eventos e crimes misteriosos” .

A série deu voz a Amy Price, que pela primeira vez contou sua versão da história. Ela admitiu que sentia um “mau pressentimento” desde o início, achando que Elisa poderia ter se envolvido com as pessoas erradas em Los Angeles . Price deixou o hotel após uma década e hoje trabalha como designer de joias, além de escrever um livro sobre suas experiências. “Esta não é uma história de terror”, ela disse à BBC. “É uma história sobre luta” .

Os “Detetives da Internet”

Um dos aspectos mais interessantes explorados no documentário foi o fenômeno dos “detetives da internet”. Durante o caso Elisa Lam, centenas de pessoas ao redor do mundo se dedicaram a analisar cada detalhe, criar teorias, apontar suspeitos. Alguns chegaram a viajar para Los Angeles e se hospedar no hotel para investigar por conta própria .

O problema, como apontou Berlinger, é que esses detetives amadores frequentemente têm “visão de túnel” — enxergam apenas o que querem enxergar e ignoram fatos que contradizem suas teorias. Em alguns casos, suas ações foram “um pouco equivocadas”, nas palavras do diretor .

O youtuber mexicano conhecido como “Morbid”, por exemplo, foi injustamente acusado de envolvimento no caso porque havia postado um vídeo no hotel dias antes do desaparecimento. Internautas o perseguiram virtualmente, levando-o a pensar em suicídio. Mais tarde ficou provado que ele estava no México no dia da morte de Elisa .

O Hotel Hoje

Hoje, o Stay on Main (antigo Cecil) continua operando. A região de Skid Row, infelizmente, não mudou muito. A pobreza, as drogas e a criminalidade ainda são realidade nas ruas adjacentes. O hotel, tombado como patrimônio histórico de Los Angeles, passa por reformas para “devolver a glória” ao edifício .

Mas os fantasmas permanecem. Hóspedes ocasionais relatam experiências estranhas: barulhos inexplicáveis, aparições fugazes, sensações de ser observado. São apenas sugestão, ou algo realmente habita aqueles corredores?

Capítulo VI: Por Que o Hotel Cecil Atrai a Morte?

A Teoria do Lugar Maldito

Para os crentes no sobrenatural, o Hotel Cecil é simplesmente um lugar amaldiçoado. Algo na construção, na localização ou nos eventos que ali ocorreram criou uma espécie de portal para energias negativas. Os suicídios em série, os assassinatos brutais, os desaparecimentos inexplicáveis — tudo aponta para uma força maligna que habita o edifício.

A ex-gerente Amy Price, que viveu anos dentro do hotel, tem uma visão mais pragmática, mas não menos perturbadora. Em entrevista, ela contou que chegava a chamar ambulâncias e polícia pelo menos três vezes por semana. Em uma década, testemunhou cerca de 80 mortes — uma média de oito por ano .

“Em uma ocasião havia um atirador de elite no corredor e ele me disse ‘senhora, entre no seu quarto’. Foi uma experiência aterrorizante”, relembra Price . Havia hóspedes que saíam em ambulâncias por overdose, ferimentos à bala, facadas profundas — ou direto para o necrotério.

A Explicação Sociológica

Os céticos têm uma explicação mais simples, mas igualmente perturbadora. O Hotel Cecil não atrai a morte — ele atrai os desesperados. Sua localização em Skid Row, seus preços baixos, sua política de não fazer perguntas, tudo contribui para que se torne um imã para pessoas à beira do abismo .

Joe Berlinger, diretor do documentário da Netflix, resumiu bem essa perspectiva: “Existem pessoas reais por trás do folclore. Pessoas que estavam fazendo o melhor que podiam, com recursos limitados, para administrar um hotel da melhor forma possível em um bairro ruim” .

O hotel não é amaldiçoado. Ele é apenas o reflexo de uma sociedade que abandona seus marginalizados à própria sorte.

Os Números

Ao todo, estima-se que pelo menos 16 mortes sem solução ocorreram no Hotel Cecil ao longo de sua história . Suicídios, overdoses, assassinatos. Corpos encontrados em quartos, nos corredores, no telhado. Se somarmos os crimes cometidos por hóspedes como Ramirez e Unterweger, o número de vítimas associadas ao Cecil ultrapassa a centena.

E ainda assim, o hotel continua de pé. Ainda recebe hóspedes. Ainda cobra diárias. Ainda funciona.

Conclusão: Os Fantasmas do Cecil

O Hotel Cecil é mais do que um edifício. É um monumento à tragédia humana, um lembrete de que a linha entre a normalidade e o abismo é mais tênue do que gostamos de imaginar. Suas paredes testemunharam desespero, loucura, violência e morte. Seus corredores foram palco de suicídios, abrigaram assassinos em série, esconderam corpos em tanques de água.

Elizabeth Short, a Dalia Negra, pode ter passado seus últimos dias ali antes de ser brutalmente assassinada em um caso que até hoje não foi solucionado . Richard Ramirez, o Caçador Noturno, dormia tranquilamente em seus quartos enquanto uma cidade inteira vivia aterrorizada. Jack Unterweger usou o hotel como base para matar prostitutas em uma macabra homenagem ao predecessor.

E Elisa Lam — a jovem de moletom vermelho que entrou para a história como o rosto do mistério — teve seus últimos momentos registrados por uma câmera de segurança antes de desaparecer para sempre dentro de um tanque de água, enquanto hóspedes bebiam e tomavam banho com seu corpo em decomposição.

O que atrai a morte para o Hotel Cecil? Talvez sejam os vivos, não os mortos. Talvez seja a miséria humana, a desesperança, o abandono. Talvez seja apenas uma coincidência estatística — um hotel barato em um bairro violento, operando por tempo suficiente para acumular tragédias.

Ou talvez, apenas talvez, haja algo mais. Algo que os olhos não veem, mas que os que por ali passaram sentiram. Algo que faz com que, mesmo depois de rebatizado, o hotel continue sendo conhecido pelo nome que carregou por quase um século.

O Hotel Cecil permanece. E com ele, seus fantasmas.

O que você acha? Coincidência, maldição ou apenas o reflexo de uma sociedade que falha com seus marginalizados? Deixe seu comentário e compartilhe sua teoria sobre o lugar de Los Angeles que atrai a morte.

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