
Sabe aquela sensação de estar no meio do mato, longe de tudo, e de repente sentir que tem algo ali? Não exatamente um bicho, não exatamente uma pessoa. É aquela coceira na nuca, aquela certeza irracional de que você não está sozinho — mesmo não havendo motivo nenhum para pensar assim.
Pois Algernon Blackwood fez dessa sensação a sua especialidade. Ele não escrevia sobre monstros com garras e dentes afiados. Ele escrevia sobre o medo de estar vulnerável diante de algo muito, muito maior do que você. Sobre a certeza de que a natureza — aquela mesma que você acha linda num fim de semana de camping — tem camadas que a gente nem sonha.
E agora, graças à Cartola Editora, a gente pode finalmente mergulhar de cabeça nesse universo em Blackwood: contos do oculto, do horror e do sobrenatural. Onze contos que vão bagunçar sua cabeça, arrepiar seus braços e, quem sabe, fazer você pensar duas vezes antes de acampar perto de um rio cheio de salgueiros.
Vamos conhecer esse gigante oculto da literatura de terror?
Se a vida de Algernon Blackwood fosse um filme, ninguém acreditaria. O cara foi agente secreto na Primeira Guerra Mundial. Isso mesmo. Enquanto outros escritores de terror estavam em seus gabinetes imaginando horrores, Blackwood estava lá, no meio do fogo cruzado, vivendo coisas que depois virariam histórias .
Na Segunda Guerra, ele teve sua casa bombardeada pelos alemães. E só não morreu porque, na hora do ataque, ele estava cozinhando salsichas no abrigo antiaéreo do jardim. Salsichas salvaram a vida do mestre do terror — isso é coisa que nem Stephen King inventaria .
Mas a vida dele não foi só guerra e sobrevivência improvável. Blackwood foi também:
E pasmem: em 1947, ele foi eleito personalidade do ano pela Television Society britânica. Um escritor de terror, contando histórias de fantasma na TV, se tornando celebridade nacional numa época em que televisão ainda era novidade .
O cara era simplesmente fascinante. E sua escrita — ah, sua escrita — era tudo isso que ele viveu transformado em palavras.
Algernon Blackwood (1869-1951) foi um contista e romancista inglês, considerado um dos mais prolíficos escritores de obras de terror na história do gênero . Estudiosos e críticos literários o reconhecem como um dos principais contribuintes para a ficção de terror, histórias de fantasmas e o gênero gótico .
Ele foi, de fato, alguém que dedicou toda a sua vida à busca pelo sobrenatural e sempre entendeu que o que está escondido e guardado além da consciência natural deve ser explorado com mais pertinência por meio das artes e da imaginação .
Se tem uma coisa que impressiona até os mais céticos é o seguinte: H.P. Lovecraft, o papai do horror cósmico, o cara que inventou Cthulhu e os Mitos, considerava Blackwood um gênio.
Sobre “Os salgueiros” — uma das duas obras-primas presentes nesta coletânea — Lovecraft declarou que era “um dos melhores contos de horror sobrenatural já escritos” . Não “um dos melhores do autor”. Não “um dos melhores da época”. Um dos melhores já escritos na história da literatura.
E isso vindo de Lovecraft, que não era conhecido por ser generoso com elogios. Quando o mestre de Providence fala, a gente ouve.
Lovecraft também escreveu, em seu famoso ensaio “O Horror Sobrenatural na Literatura”, que Blackwood “cuja voluminosa obra se encontra entre as mais belas da literatura espectral de todos os tempos” e que ele é “o mestre absoluto e indiscutível da atmosfera fantástica” .
Atmosfera. Essa é a palavra-chave com Blackwood. Ele não precisa de sustos baratos, não precisa de jump scares. Ele constrói uma tensão que vai crescendo, crescendo, até que você percebe que está suando frio sem saber exatamente por quê.
Blackwood: contos do oculto, do horror e do sobrenatural reúne onze narrativas que são um prato cheio para os amantes do terror de verdade . A Cartola Editora fez um trabalho primoroso ao trazer para o Brasil diversas narrativas inéditas até então .
Vamos conhecer cada uma delas, porque esse é o tipo de livro que a gente quer saber o que está comprando — e se preparar psicologicamente.
1. “Os salgueiros”
Dois amigos descem o rio Danúbio de canoa, durante a cheia. Em determinado ponto, resolvem acampar numa ilha coberta de salgueiros. Até aí, tudo bem.
Só que os salgueiros começam a se mexer de um jeito que não é exatamente por causa do vento. Coisas estranhas acontecem durante a noite. Objetos desaparecem. Sons vêm do mato. E os dois homens começam a sentir que não são bem-vindos ali .
O que torna esse conto absolutamente genial é que nunca fica claro o que exatamente está assombrando os personagens. Pode ser uma entidade sobrenatural. Pode ser uma força da natureza. Pode ser a imaginação deles. Blackwood deixa a dúvida pairando, e é justamente essa incerteza que te corrói por dentro.
O conto é uma das primeiras histórias de horror cósmico já escritas — a ideia de que existem forças no universo tão vastas e indiferentes que a humanidade é apenas um detalhe insignificante . Anos antes de Lovecraft popularizar o conceito, Blackwood já estava lá, plantado numa ilha do Danúbio, sentindo os salgueiros sussurrarem segredos que a gente não deveria ouvir.
2. “O Wendigo”
Agora prepare o coração, porque esse aqui é pesado.
Um grupo de caçadores adentra as florestas remotas do Canadá em busca de alces. Os guias indígenas advertem: há uma região proibida, onde vive o Wendigo, um espírito maligno das lendas nativas .
Numa noite, o experiente guia da expedição desaparece. Só deixam um rastro de pegadas na neve. Mas as pegadas… as pegadas estão cada vez mais distantes umas das outras, como se ele estivesse dando passos cada vez mais largos. E então, do alto das árvores, vem um grito.
O Wendigo, nas tradições indígenas, é um espírito associado à fome, ao canibalismo e à força bruta da natureza selvagem. Blackwood transforma essa lenda numa experiência de horror pânico — aquele medo primitivo, animal, que congela o sangue e faz você querer correr sem saber para onde .
3. “A casa vazia”
É uma noite fria. Você está numa casa que sabe que é assombrada. Não vê ninguém. Mas tem certeza de que não está sozinho .
“A casa vazia” é um dos contos mais famosos de Blackwood e uma aula de como construir atmosfera. O autor brinca com a ideia de que o horror não precisa ser visto para ser sentido. Às vezes, é pior quando você sabe que tem algo ali, mas não consegue ver .
4. “O ouvinte”
Agora imagine ser um escritor solitário, sonâmbulo, que começa a perceber que alguém — ou alguma coisa — está rondando seu apartamento. Não exatamente entrando. Apenas… escutando .
É o tipo de conto que te faz olhar para a porta do quarto duas vezes antes de dormir.
5. “Smith: um incidente em uma pensão”
Uma pensão comum, hóspedes comuns. Até que algo estranho acontece com Smith. E você começa a se perguntar se o que está acontecendo é sobrenatural ou se existe uma explicação ainda mais perturbadora .
6. “O encanto da neve”
A neve cai. Tudo fica branco, silencioso, belo. Mas há algo na neve que parece estar… chamando. Como se a paisagem gelada tivesse vontade própria e estivesse puxando você para dentro dela .
Blackwood, que passou anos no Canadá e viveu experiências intensas na natureza selvagem, sabia como ninguém transformar a beleza natural em algo ameaçador.
7. “Para cumprir sua promessa”
Uma promessa feita. Uma dívida que precisa ser paga. Mas o que acontece quando a promessa envolve coisas que a gente nem deveria prometer?
8. “A estranha morte de Morton”
Morton morreu. Mas como? E por quê? As circunstâncias são tão bizarras que você começa a suspeitar que forças além da compreensão humana estavam em jogo .
9. “Cúmplice antes do fato”
Um homem faz um desvio errado na estrada enquanto caminha a pé. De repente, ele está tão perdido quanto Alice no País das Maravilhas. E o que encontra ali… bem, melhor não estragar a surpresa .
10. “Luzes primitivas”
O que são aquelas luzes que dançam no escuro? Seriam vaga-lumes? Seriam… outra coisa?
11. “A outra ala”
Uma ala de um prédio. Um corredor. Uma porta. O que tem ali? Blackwood brinca com o medo do desconhecido, do lugar que a gente sabe que não deveria entrar .
Blackwood é um autor que merecia estar nas prateleiras brasileiras há muito tempo. Enquanto Lovecraft, Poe, Stephen King e outros mestres do terror são amplamente publicados por aqui, Blackwood ficou décadas relegado ao esquecimento, conhecido apenas pelos iniciados .
Isso começa a mudar. A Cartola Editora está fazendo um trabalho essencial ao trazer esse gigante oculto para o público brasileiro. Blackwood: contos do oculto, do horror e do sobrenatural é uma porta de entrada perfeita para quem quer conhecer a obra desse mestre.
O livro tem 308 páginas e foi lançado em 2022 . Além do formato impresso, também está disponível em audiolivro com impressionantes 12 horas de duração, narrado por um elenco de vozes que inclui João Roncatto, Leonardo Raoni, Zeza Mota, Thiago Ubaldo, Alexandre Mercki, Flávio Costa e Priscila Scholz .
Recomendado para:
Não recomendado para:
Blackwood: contos do oculto, do horror e do sobrenatural é uma coletânea essencial para qualquer estante de terror que se preze. É a oportunidade de redescobrir um autor que influenciou gerações e que, por algum motivo injusto, ficou fora do radar brasileiro por tempo demais.
Algernon Blackwood não escreve sobre o medo de monstros. Ele escreve sobre o medo de estar vulnerável. Sobre a certeza de que o universo — e principalmente a natureza — guarda segredos que a gente nem devia conhecer. Sobre a sensação de que, por mais civilizados que sejamos, ainda somos pequenos diante de forças que não controlamos.
E, no fim das contas, talvez esse seja o medo mais verdadeiro de todos.
Você está pronto para encarar os salgueiros? Para sentir o chamado do Wendigo na floresta escura? Para ouvir os passos na casa vazia?
Se sim, corre atrás desse livro. Mas, se me permite um conselho: não leia sozinho à noite.
Ficha Técnica:
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