Kingdom: O Dorama de Zumbis que Reescreveu o Horror Coreano

Existe um antes e um depois de Kingdom na história do entretenimento sul-coreano. Quando a série estreou na Netflix em janeiro de 2019, poucos imaginavam que uma produção ambientada na Coreia medieval, protagonizada por mortos-vivos famintos e nobres corruptos, seria capaz de conquistar milhões de espectadores em todo o planeta. Mas foi exatamente isso que aconteceu. Kingdom não apenas entregou uma história envolvente de terror e sobrevivência — a série redefiniu o que um dorama podia ser, derrubando barreiras de gênero e expandindo os limites do horror asiático para um público global.

Criada pela roteirista Kim Eun-hee, a mesma mente por trás do aclamado Signal, Kingdom surgiu de uma ideia que fermentou durante quase uma década. A proposta era ousada: transpor o apocalipse zumbi para o período Joseon, a mais longa dinastia da história coreana, e usar os mortos-vivos como metáfora para as doenças sociais que corroem uma nação por dentro. O resultado é uma obra que mistura thriller político, drama de época e horror visceral com uma maestria rara, alcançando uma nota de 98% no Rotten Tomatoes e se consolidando como uma das melhores séries de zumbis já produzidas.

Neste artigo, vamos mergulhar fundo no universo de Kingdom. Da concepção da história ao impacto cultural, passando pela construção dos personagens, as regras únicas dos zumbis, a fotografia de tirar o fôlego e o legado que a série deixou para o gênero. Se você já assistiu, vai redescobrir detalhes que talvez tenham passado despercebidos. Se ainda não assistiu, prepare-se para entender por que Kingdom merece um lugar de honra na sua lista.

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Crédito: Netflix

A Gênese de Kingdom: De Webtoon a Fenômeno Global

A história de Kingdom começou muito antes das câmeras. Em 2011, a roteirista Kim Eun-hee já cultivava a semente do que viria a se tornar uma das produções mais emblemáticas da Netflix. Sua intenção era refletir os medos e as ansiedades da sociedade contemporânea através das lentes do período histórico Joseon. A princípio, ela acreditava que seria difícil transformar essa visão em uma série de televisão, então optou por dar vida à ideia em formato de webtoon.

Em 2014, ao lado do ilustrador Yang Kyung-il, Kim Eun-hee publicou o webtoon “The Kingdom of the Gods” (em coreano, 신의나라:버닝헬). A história em quadrinhos serviu como prova de conceito, apresentando os elementos fundamentais que depois migrariam para a tela: a tensão entre poder e doença, a queda de uma dinastia e a ameaça sobrenatural que emerge das sombras. Embora a série e o webtoon compartilhem apenas os conceitos básicos, a publicação foi essencial para demonstrar o potencial narrativo da premissa.

Enquanto trabalhava em outras produções de sucesso, como Phantom e Signal, Kim Eun-hee continuou desenvolvendo o projeto. O grande obstáculo era financeiro e cultural: dramas de época eram caros e, no cenário da TV aberta coreana, misturar horror sangrento com história era considerado um risco alto demais. A virada de jogo veio em 2016, com o sucesso estrondoso de Invasão Zumbi (Train to Busan), que provou ao mercado que o público coreano e internacional tinha apetite por histórias de zumbis com identidade própria. Esse filme abriu portas que antes pareciam trancadas, e a Netflix, ávida por conteúdo original coreano, abraçou o projeto.

Kingdom se tornou a primeira série original coreana da Netflix, um marco que por si só já a colocava sob os holofotes. A direção da primeira temporada ficou com Kim Seong-hun, reconhecido pelo thriller Um Dia Difícil e pelo drama de sobrevivência The Tunnel. A combinação de uma roteirista com talento para tramas intricadas e um diretor com domínio visual resultou em algo que ninguém esperava: uma série de zumbis que funcionava tão bem como drama político quanto como espetáculo de terror.

A Trama: Poder, Fome e os Mortos Que Não Descansam

A história de Kingdom se passa em 1601, três anos após o fim da Guerra Imjin contra o Japão. A Coreia da Dinastia Joseon está ferida, faminta e politicamente instável. No centro dessa turbulência, o Príncipe Herdeiro Lee Chang descobre que algo terrível está acontecendo com seu pai, o Rei. Rumores de que o monarca está gravemente doente se espalham pela capital, Hanseong, enquanto o poderoso clã Cho, liderado pelo ministro Cho Hak-ju, manobra nos bastídores para tomar o trono.

Impedido de ver o próprio pai pela Rainha Consorte, uma jovem manipulada pelo clã Cho, Lee Chang parte em uma jornada ao sul do reino em busca de respostas. O que ele encontra é muito pior do que conspirações palacianas: uma praga misteriosa está transformando os mortos em criaturas famintas e velozes que atacam em massa durante a noite. A epidemia avança rapidamente, engolindo aldeias inteiras enquanto os nobres, trancados em seus palácios, se recusam a enxergar a catástrofe que se aproxima.

A genialidade do roteiro de Kim Eun-hee está na forma como ela entrelaça dois tipos de horror. De um lado, os zumbis — visíveis, brutais, aterrorizantes. Do outro, a corrupção política — silenciosa, calculista, igualmente mortal. Os nobres do clã Cho não hesitam em sacrificar milhares de camponeses para manter seu poder. A fome que assola o povo não é apenas física; é a fome de justiça, de dignidade, de um governo que se importe com quem está na base da pirâmide social. Nesse sentido, Kingdom faz comentários sociopolíticos mais ousados do que muitas séries contemporâneas.

Na segunda temporada, a narrativa se aprofunda. A planta da ressurreição, responsável por trazer os mortos de volta à vida na forma de zumbis, ganha contornos mais complexos. A médica Seo-bi descobre que a planta abriga um verme parasita que se aloja no cérebro das vítimas, e que o mecanismo da infecção é mais sofisticado do que qualquer um imaginava. A série também expande seu universo geográfico, levando Lee Chang e seus aliados ao norte do reino, onde as origens da praga estão enterradas sob camadas de segredos e vingança.

Personagens Que Sobrevivem Além da Tela

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Crédito: Netflix

Lee Chang: O Príncipe Que Ninguém Queria no Trono

Interpretado por Ju Ji-hoon, o Príncipe Herdeiro Lee Chang é o coração pulsante de Kingdom. Filho ilegítimo do Rei, ele carrega o estigma de não pertencer verdadeiramente à linhagem real, apesar de ser o herdeiro oficial. Sua jornada é uma das mais bem construídas do gênero: de um jovem nobre preocupado apenas com a própria sobrevivência política, ele se transforma em um líder que coloca a vida do povo acima de qualquer título. Ju Ji-hoon entrega uma performance que equilibra vulnerabilidade e força, tornando Lee Chang um protagonista inesquecível.

Seo-bi: A Ciência em Meio ao Caos

Bae Doona, conhecida internacionalmente por seus papéis em Cloud Atlas e Sense8, dá vida à enfermeira Seo-bi com uma precisão impressionante. Em um mundo dominado por homens e pela hierarquia rígida do período Joseon, Seo-bi se destaca como a voz da razão e da ciência. É ela quem primeiro compreende a natureza da epidemia, quem estuda os padrões de comportamento dos zumbis e quem busca soluções práticas enquanto todos ao redor entram em pânico. A personagem representa a importância do conhecimento como arma de sobrevivência.

Cho Hak-ju: O Verdadeiro Monstro

Se os zumbis de Kingdom são aterrorizantes, o ministro Cho Hak-ju, interpretado magistralmente por Ryu Seung-ryong, é ainda mais assustador. Frio, calculista e absolutamente desprovido de empatia, ele encarna o tipo de vilão que não precisa de garras ou presas para destruir vidas. Cho Hak-ju manipula a Rainha Consorte, orquestra golpes políticos e sacrifica populações inteiras para manter seu clã no poder. Ele é a prova viva de que, em Kingdom, o horror humano é tão letal quanto o sobrenatural.

Yeong-shin: O Guerreiro das Sombras

Kim Sung-kyu interpreta Yeong-shin, um misterioso caçador que se torna um dos aliados mais leais do Príncipe Chang. Com habilidades de combate excepcionais e um passado envolto em mistério, Yeong-shin adiciona uma camada de tensão e imprevisibilidade à narrativa. Sua presença lembra que, em tempos de apocalipse, as alianças mais improváveis podem ser as únicas que garantem a sobrevivência.

Zumbis Com Regras Próprias: A Reinvenção do Gênero

Uma das maiores conquistas de Kingdom é a forma como a série reinventa as regras do gênero zumbi. Diferente de produções como The Walking Dead, onde os mortos-vivos são lentos e cambaleantes, os zumbis de Kingdom são rápidos, ágeis e absolutamente implacáveis. Eles correm em hordas caóticas, escalam paredes, derrubam cavalos e agem com uma ferocidade animal que eleva a tensão de cada cena ao máximo.

Mas a originalidade vai além da velocidade. Kingdom estabelece que os zumbis são criaturas noturnas, permanecendo em estado de morte aparente durante o dia, recolhidos em locais escuros como porões, poços e cavernas. Quando o sol se põe, eles despertam em massa, criando uma dinâmica de sobrevivência baseada no ciclo do dia e da noite que adiciona uma camada estratégica à trama.

A grande reviraévolta vem quando a série revela que não é a luz solar que os afeta, mas o calor. Quando a temperatura cai, como durante o inverno rigoroso da Coreia medieval, os zumbis permanecem ativos mesmo sob a luz do dia. Essa descoberta muda completamente as regras do jogo e eleva o nível de ameaça de forma brilhante, forçando personagens e espectadores a repensarem tudo o que sabiam até então.

A infecção também recebe uma explicação original. Tudo começa com a planta da ressurreição, uma flor de cor magenta encontrada em uma região remota do norte. Quando utilizada em um corpo morto, ela é capaz de trazê-lo de volta à vida, porém na forma de uma criatura raivosa e faminta. A planta abriga um verme parasita que se instala no cérebro, controlando o hospedeiro. A transmissão ocorre por mordida ou pelo consumo de carne contaminada, e o mais perturbador: mesmo cozinhar a carne não elimina o parasita.

Outro detalhe que diferencia os zumbis de Kingdom é seu comportamento. Eles não devoram os corpos completamente. Seu instinto parece ser mais voltado para a propagação da infecção do que para a alimentação. Mordem, infectam e seguem adiante, deixando para trás um rastro de novos zumbis que engrossam a horda. Essa mecânica torna a epidemia exponencialmente mais perigosa e confere à série uma lógica interna consistente e apavorante.

Fotografia e Direção: Cinema na Tela Pequena

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Crédito: Netflix

Um dos aspectos mais elogiados de Kingdom é sua qualidade visual. A série foi produzida com um orçamento generoso para os padrões coreanos, com cada episódio custando mais de 1,78 milhão de dólares. Esse investimento é visível em cada quadro: os figurinos reproduzem com riqueza de detalhes as vestimentas da Dinastia Joseon, os cenários reconstituem paisagens e arquiteturas da época com fidelidade, e a fotografia explora a natureza coreana com um olhar que transita entre o belo e o aterrorizante.

A direção de Kim Seong-hun na primeira temporada merece destaque especial. As tomadas longas durante as sequências de ação acompanham os personagens com fluidez cinemática, enquanto os momentos de tensão são construídos com paciência e precisão. A câmera sabe exatamente quando se demorar em um cenário, valorizando os sets impressionantes, e quando acelerar para capturar a brutalidade de um ataque zumbi ou a urgência de uma fuga desesperada.

Na segunda temporada, sob a direção de Park In-je, a série mantém a coerência visual enquanto intensifica o ritmo narrativo. As batalhas ganham escala, com centenas de figurantes e coreografias de combate que exigem coordenação impecável. A transição entre diretores, que poderia ter sido problemática, funciona perfeitamente graças à visão consistente de Kim Eun-hee como roteirista e produtora criativa. O resultado é uma série que se parece mais com cinema do que com televisão, estabelecendo um padrão visual que poucos doramas conseguiram igualar.

A Metáfora Social: Quando os Zumbis Somos Nós

Kingdom seria uma excelente série de terror mesmo que se limitasse a perseguições e sustos. Mas o que a eleva ao status de obra-prima é a profundidade de seu comentário social. A série utiliza o apocalipse zumbi como espelho da sociedade coreana, tanto histórica quanto contemporânea, abordando temas como desigualdade social, fome, abuso de poder e a desumanização dos mais vulneráveis.

No universo de Kingdom, a verdadeira doença não é o parasita da planta da ressurreição. É a hierarquia social rígida que trata camponeses como descartáveis e nobres como intocáveis. Quando a epidemia começa, são os pobres que morrem primeiro, não porque estejam mais expostos ao vírus, mas porque ninguém no poder se importa o suficiente para avisá-los ou protegê-los. A fome é outro tema central: em diversas cenas, vemos camponeses tão desesperados que comem carne de origem duvidosa, sem saber que estão consumindo a própria semente da infecção.

Essa crítica social não é sutil, mas também não é panfletária. Ela emerge organicamente da narrativa, tornando cada momento de horror mais significativo. Quando vemos o clã Cho deliberadamente esconder a existência dos zumbis para manter o controle político, é impossível não traçar paralelos com governos reais que priorizam a imagem pública sobre a segurança do povo. Kingdom faz esses paralelos com coragem e inteligência, sem jamais perder o ritmo de entretenimento.

Ashin of the North: A Origem da Destruição

Em julho de 2021, a Netflix lançou Kingdom: Ashin of the North, um episódio especial em formato de longa-metragem que funciona como prólogo da série. Estrelado por Jun Ji-hyun (também conhecida como Gianna Jun), o especial conta a história de Ashin, a misteriosa mulher que aparece brevemente no epílogo da segunda temporada.

A trama de Ashin of the North é essencialmente uma história de vingança. Ashin pertence a uma tribo que vive na fronteira norte de Joseon, próxima ao território Jurchen. Após a traição e o massacre de seu povo, ela descobre a planta da ressurreição e passa a usá-la como instrumento de destruição. O especial revela que Ashin ensinou o médico real a usar a planta, sabendo que os homens poderosos de Joseon a utilizariam de forma desastrosa. Sua vingança não é direta; é um efeito dominó calculado para destruir o reino por dentro.

O episódio expande significativamente o universo de Kingdom, conectando as origens da praga zumbi a conflitos étnicos, territoriais e pessoais. Ele também responde à pergunta central que pairava sobre a série: como tudo começou. Com uma atuação poderosa de Jun Ji-hyun e uma narrativa que mistura tragédia pessoal com catástrofe coletiva, Ashin of the North se consolidou como um complemento indispensável para quem deseja compreender Kingdom em sua totalidade.

O Impacto Cultural de Kingdom no Brasil e no Mundo

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Crédito: Netflix

Quando Kingdom estreou, o fenômeno da Hallyu, a onda cultural sul-coreana, já estava em curso, mas ainda não havia atingido o nível de penetração global que alcançaria anos depois com Squid Game e Parasita. A série funcionou como um dos pilares dessa expansão, provando que o conteúdo coreano podia competir de igual para igual com produções ocidentais de grande orçamento.

No Brasil, Kingdom conquistou uma base de fãs apaixonada. O país, que já tinha uma relação crescente com doramas graças a plataformas de streaming, encontrou na série uma porta de entrada para o horror coreano. A combinação de elementos que os brasileiros já apreciavam, como tramas de poder e intriga, com o tempero sobrenatural dos zumbis, criou uma fórmula irresistível.

A própria roteirista Kim Eun-hee comentou sobre o alcance inesperado da série, afirmando que nunca imaginou a popularidade que Kingdom alcançaria e que fez questão de tornar a produção o mais coreana possível, na esperança de despertar a curiosidade do mundo sobre a cultura de seu país. Essa estratégia funcionou perfeitamente: Kingdom não diluiu sua identidade para agradar ao mercado internacional, e foi justamente sua autenticidade que a tornou universal.

Após o sucesso de Kingdom, a Netflix investiu pesadamente em conteúdo de horror e zumbis produzido na Coreia do Sul. Séries como All of Us Are Dead, Sweet Home e Hellbound seguiram caminhos abertos pela série, cada uma trazendo sua própria visão do gênero. Pode-se dizer que Kingdom inaugurou uma era de ouro do horror coreano nas plataformas de streaming, pavimentando o terreno para que outras histórias ousadas pudessem ser contadas.

Kingdom vs. The Walking Dead: Duas Visões do Apocalipse

A comparação entre Kingdom e The Walking Dead é inevitável, mas também reveladora. Ambas as séries abordam o apocalipse zumbi como pano de fundo para explorar a natureza humana sob pressão extrema. No entanto, as abordagens são radicalmente diferentes.

The Walking Dead, que dominou a TV americana por mais de uma década, apoiou-se fortemente em diálogos longos e conflitos interpessoais repetitivos, perdendo fôlego ao longo das temporadas. Kingdom, com seus doze episódios distribuídos em duas temporadas compactas, não tem tempo nem espaço para enrolação. Cada cena carrega peso narrativo, cada personagem tem uma função clara na trama, e o ritmo nunca desacelera a ponto de testar a paciência do espectador.

Além disso, Kingdom mergulha mais fundo na crítica social. Enquanto The Walking Dead flerta com temas de classe e elitismo, a série coreana vai além, explorando governança, fome estrutural e a divisão entre governantes e governados com uma intensidade que ressoa de forma visceral. O cenário histórico também confere a Kingdom uma camada de originalidade: sem armas de fogo, sem tecnologia moderna, a sobrevivência depende de espadas, arcos e ferramentas agrícolas, tornando cada confronto mais brutal e pessoal.

A Espera Pela 3ª Temporada: O Que Sabemos Até Agora

Desde o lançamento de Ashin of the North em 2021, os fãs de Kingdom aguardam ansiosamente por notícias sobre uma terceira temporada. Até o início de 2026, a Netflix não renovou oficialmente a série, mas também não a cancelou, deixando a produção em um limbo que alimenta tanto esperanças quanto frustrações.

Em janeiro de 2025, o protagonista Ju Ji-hoon reacendeu a chama dos fãs ao comentar em entrevista que acredita que a roteirista Kim Eun-hee pode estar preparando Kingdom 3. Ele reconheceu que todos perguntam sobre a continuação e mencionou que a escritora está atualmente envolvida com outros projetos, incluindo a segunda temporada de Signal. A própria Kim Eun-hee declarou anteriormente que já decidiu como gostaria de concluir a história, caso uma terceira temporada seja produzida.

Os obstáculos são reais. A produção de Kingdom é cara, com cada episódio ultrapassando os 3 bilhões de wons coreanos. O elenco principal está envolvido em múltiplos projetos: Bae Doona estrelou filmes como Next Sohee e os longas Rebel Moon, enquanto Ju Ji-hoon trabalhou em vários doramas. Conciliar agendas, orçamento e a vontade criativa da Netflix é um desafio que explica, pelo menos em parte, a demora.

Porém, a segunda temporada terminou com ganchos narrativos importantes que praticamente exigem continuidade. Um salto temporal de sete anos, novos mistérios sobre a planta da ressurreição e a introdução de Ashin como uma ameaça latente criam um território fértil para uma conclusão épica. Os fãs mantêm a esperança de que, eventualmente, as peças se encaixem para que Kingdom retorne e entregue o final que sua história merece.

Por Que Kingdom Merece Estar Na Sua Lista

Se você ainda não assistiu Kingdom, existem razões de sobra para começar agora. A série oferece algo raro no cenário atual de streaming: uma história completa em formato compacto, sem episódios de preenchimento, sem temporadas infladas e sem a sensação de que estão esticando o conteúdo para justificar renovações. Duas temporadas de seis episódios cada, mais um especial, formam um pacote coeso e satisfatório que pode ser consumido em um único final de semana.

A qualidade técnica é impecável. Figurinos, maquiagem, efeitos práticos, coreografias de combate e fotografia são todos de nível cinemático. As atuações do elenco principal, especialmente Ju Ji-hoon, Bae Doona e Ryu Seung-ryong, elevam cada cena acima do mero espetáculo visual. E a trilha sonora, que combina instrumentos tradicionais coreanos com composições orquestrais, cria uma atmosfera única que você não encontrará em nenhuma outra produção de zumbis.

Mais do que tudo, Kingdom é uma série que respeita a inteligência do espectador. Ela apresenta regras, as desenvolve com coerência e as subverte quando você menos espera. Ela constrói personagens com profundidade emocional e os coloca em situações onde não há escolhas fáceis. E ela usa o horror não como fim em si mesmo, mas como ferramenta para contar uma história sobre poder, humanidade e os limites do que somos capazes de fazer quando tudo está em jogo.

O Legado de Kingdom Para o Horror Asiático

O impacto de Kingdom transcende o entretenimento. A série provou que histórias originadas fora de Hollywood podem conquistar audiências globais sem precisar se moldar aos padrões ocidentais. Ela demonstrou que o gênero zumbi, que muitos consideravam saturado após décadas de produções repetitivas, ainda tinha fôlego para inovar quando alimentado por uma perspectiva cultural diferente.

Para a indústria do entretenimento sul-coreano, Kingdom abriu uma estrada que outros seguiram com confiança. A série mostrou que a Netflix estava disposta a investir em conteúdo coreano de alto nível, criando um ecossistema onde roteiristas e diretores podiam explorar gêneros que a TV aberta coreana, com suas limitações de censura e formato, não permitia. Kingdom foi a primeira pedra de uma avalanche que inclui Squid Game, Round 6, The Glory, e tantas outras produções que hoje dominam as listas de mais assistidos da plataforma.

No contexto mais amplo do horror asiático, Kingdom se posiciona ao lado de obras seminais como Ringu, Old Boy e Train to Busan. Assim como essas produções, a série pegou um gênero familiar ao público ocidental e o transformou em algo irreconhecível e fascinante, provando que as melhores histórias de terror nascem quando o medo se mistura com cultura, história e identidade.

Kingdom não é apenas uma série de zumbis. É um marco, um divisor de águas, uma declaração de que o horror coreano tem voz própria e que essa voz merece ser ouvida. Se você busca uma experiência que combine adrenalina, inteligência narrativa e beleza visual, Kingdom está esperando por você na Netflix, pronta para provar que os mortos mais perigosos são aqueles que nunca descansam.


Ficha Técnica

Título original: Kingdom (킹덤)

Criadora e roteirista: Kim Eun-hee

Direção: Kim Seong-hun (1ª temporada) / Park In-je (2ª temporada)

Elenco principal: Ju Ji-hoon, Bae Doona, Ryu Seung-ryong, Kim Sang-ho, Kim Sung-kyu, Kim Hye-jun

Gênero: Horror, Thriller Político, Drama de Época, Ação

Temporadas: 2 temporadas (12 episódios) + especial Ashin of the North

Estreia: 25 de janeiro de 2019

Plataforma: Netflix

Classificação: 16 anos

Rotten Tomatoes: 98% (1ª temporada) / 100% (2ª temporada)

Baseada em: Webtoon The Kingdom of the Gods, de Kim Eun-hee e Yang Kyung-il

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