O Lobisomem de Roque Santeiro: o mistério que assombrou a novela mais censurada do Brasil

Você já imaginou um professor de filosofia que, em vez de dar aulas, passa as noites se transformando em uma fera peluda que corre as ruas de uma cidade do interior? Um homem de discursos verborrágicos, olhar soturno e uma luneta apontada para o céu, que todos desconfiam ser o tal bicho que anda aterrorizando as moças da cidade. Pois esse é o professor Astromar Junqueira — ou, como ficou conhecido na história da teledramaturgia brasileira, o lobisomem de Roque Santeiro.

Se você é daqueles que cresceu ouvindo falar dessa novela que fez história, ou se está descobrindo agora esse clássico da TV brasileira, prepare-se. Vamos mergulhar fundo na construção desse personagem que, entre uma transformação e outra, acabou se tornando um dos grandes símbolos de uma obra-prima de Dias Gomes.

Pega um café, senta confortável — porque essa conversa vai ser longa e cheia de detalhes sobre o mistério que parou o Brasil nos anos 1980.

Lobisomem de Roque Santeiro
Crédito: Tv Globo

O contexto: a novela que desafiou a censura

Antes de falarmos do lobisomem, precisamos entender onde ele está inserido. Roque Santeiro não é uma novela qualquer. É, para muitos críticos, a maior novela já produzida pela TV Globo. E sua história de produção já é, por si só, um capítulo à parte na história do Brasil.

Originalmente, Dias Gomes escreveu Roque Santeiro em 1971, durante o regime militar. A trama era uma sátira feroz à exploração da fé popular, um tema que a censura da época considerou subversivo demais. A novela foi proibida antes mesmo de ir ao ar, e os poucos capítulos já gravados foram destruídos. Dias Gomes jogou o roteiro no fogo em um ato simbólico de protesto .

Catorze anos depois, em 1985, com a redemocratização do país, a novela finalmente pôde ser produzida. Estreou em 24 de junho de 1985 e foi ao ar até 22 de fevereiro de 1986, totalizando 209 capítulos . Foi um fenômeno de audiência e crítica, consolidando-se como um marco na teledramaturgia brasileira.

E nesse universo de Asa Branca — uma cidade fictícia do Nordeste brasileiro —, onde convivem beatas, coronéis, padres ambíguos, prostitutas e um santo que não está morto, habita um personagem que parece ter saído diretamente de uma lenda do interior: o professor Astromar Junqueira, o lobisomem.

Quem é o professor Astromar Junqueira?

Interpretado pelo ator Rui Rezende, o professor Astromar Junqueira é um personagem que respira mistério. Professor de filosofia na cidade de Asa Branca, ele é descrito como um homem soturno, de discursos verborrágicos e comportamento enigmático . Usa óculos de aro grosso, fala com uma erudição que contrasta com o ambiente provinciano da cidade, e tem um hobby peculiar: observar o céu com sua luneta.

É exatamente essa obsessão astronômica que, em determinado momento da trama, acaba desencadeando a revelação que todos esperavam.

Astromar também é um dos cortejadores de Mocinha Abelha (Lucinha Lins), a filha do prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura) e da beata Dona Pombinha (Eloísa Mafalda) . Mocinha, no entanto, é apaixonada por Roque Santeiro (José Wilker), o homem que voltou do “mundo dos mortos” depois de 17 anos. E é nesse triângulo amoroso — ou melhor, nesse clima de suspense — que Astromar vai se destacando como o principal suspeito de ser o lobisomem que aterroriza a cidade .

O mistério que movimentou a trama

A presença do lobisomem em Roque Santeiro não é um mero elemento folclórico inserido para dar medo. Ele funciona como um dispositivo narrativo central, que gera suspense, movimenta os personagens e, principalmente, ironiza a própria ideia de medo e superstição.

Em Asa Branca, o lobisomem é uma presença constante. Ele aparece em noites de lua cheia, uiva, assusta as moças e provoca pânicos na cidade. Nos resumos dos capítulos, vemos como o bicho está sempre ali, à espreita: Ninon escuta o uivo do lobisomem ; Rosaly sai caminhando pelas ruas e vê a criatura, desmaiando de medo ; o delegado Feijó chega a ser espancado por um grupo que o confunde com o monstro .

Mas quem é o lobisomem? A suspeita recai sobre várias figuras ao longo da trama. Em um momento, Ninon (Cláudia Raia), a dançarina da boate Sexus, descobre que o lobisomem seria o delegado Feijó (Maurício do Valle) . Em outro resumo, lemos que “Ninon descobre que o lobisomem é o delegado Feijó” . A pista, no entanto, é falsa — o suspense continua.

O jogo de desconfianças se estende por praticamente toda a novela. Quem será o bicho? Será o professor Astromar, com seu comportamento estranho? Será o próprio delegado, que tem acesso a todos os cantos da cidade? A construção narrativa mantém o espectador na corda bamba até o desfecho final.

A transformação final: o cometa Halley e a revelação

E a revelação acontece, como não poderia deixar de ser, em um dos capítulos finais da novela. Mais precisamente, no capítulo 209, que foi ao ar em julho de 2025 na reprise do Viva .

A cena é descrita nos resumos de forma sucinta, mas carregada de simbolismo. Na pracinha da cidade, o professor Astromar Junqueira está com sua luneta, observando o céu. O que ele está procurando? Nada menos que o Cometa Halley, um fenômeno astronômico real que passou pela Terra em 1986 — justamente quando a novela estava no ar.

“Logo após a visão, Astromar começa a tremer e uivar, transformando-se no lobisomem” .

A cena é genial. O homem da ciência, o professor de filosofia, o observador do cosmos, se entrega à mais primitiva das metamorfoses. É como se a contemplação do universo desencadeasse, nele, a besta que sempre habitou em seu interior. A ironia é magistral — e é exatamente isso que os estudiosos da obra de Dias Gomes destacam como uma das marcas registradas do autor.

O pesquisador André Bozzetto Junior, em artigo acadêmico publicado na revista Espéculo, analisa justamente essa ironia presente na figura do lobisomem em Roque Santeiro. Segundo ele, a obra utiliza a criatura folclórica para ressignificar o mito, brincando com as expectativas do público e subvertendo a tradição . O lobisomem não é apenas um monstro; é um personagem construído com camadas de significado.

Rui Rezende: o homem por trás da besta

Lobisomem de Roque Santeiro
Crédito: Tv Globo

O ator que deu vida ao professor Astromar Junqueira — e ao lobisomem — é Rui Rezende. Em dezembro de 2024, já com 87 anos, ele deu uma entrevista ao documentário Residentes do Retiro, do Retiro dos Artistas, onde atualmente vive .

Aos fãs que ainda o reconhecem pelo papel na novela, Rui Rezende falou sobre o prazer de ter feito parte daquela história: “Tenho muito prazer em ter feito esse papel, porque era um personagem muito misterioso. Foi uma novela muito importante” .

Hoje, aos 87 anos, o ator vive no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, uma instituição que acolhe artistas idosos. Sobre a mudança, ele disse: “Aqui encontro condições razoáveis, porque a vida é razoável. Até os milionários, um dia, vão precisar de ajuda. Eu vim para cá meio ressabiado, com essa ideia de ‘ah, é um asilo’. Mas não, não é um asilo. Aqui, estou cercado de atenção” .

Ele continua ativo, embora mais seletivo: “Teatro não me atrai mais. Prefiro um convite para algo que realmente me agrade. Se não vier, melhor nem fazer. É uma escolha, hoje posso escolher” . E revela sua atividade atual: “A atividade artística que mais me agrada neste momento é escrever” .

O lobisomem como ironia e crítica social

Para além do mistério e do entretenimento, a figura do lobisomem em Roque Santeiro carrega um significado mais profundo. O artigo acadêmico de Bozzetto Junior aponta que a abordagem do folclore na obra de Dias Gomes é marcada pela ironia — não no sentido de menosprezo à tradição popular, mas como ferramenta de ressignificação .

No caso do lobisomem, a ironia opera em múltiplos níveis. Primeiro, na própria escolha do personagem: um professor de filosofia, intelectual, observador das estrelas, que se transforma na criatura mais instintiva e temida do folclore. É a ciência se rendendo à superstição — ou, talvez, o contrário.

Segundo, na forma como o mistério é conduzido. A novela brinca com as suspeitas, faz o espectador acreditar em uma coisa e depois em outra, até revelar que o verdadeiro lobisomem é justamente aquele que ninguém, no fundo, imaginava — ou que todos, de certa forma, já desconfiavam.

Terceiro, e mais importante, a ironia está na banalidade da revelação. Não há grandes efeitos especiais, não há sustos mirabolantes. Há um homem comum, em uma praça comum, olhando para o céu. E então ele uiva. É quase um anticlímax — e é exatamente isso que torna a cena tão poderosa.

O legado do lobisomem na teledramaturgia brasileira

Lobisomem de Roque Santeiro
Crédito: Tv Globo

Roque Santeiro não foi a primeira novela a trazer o lobisomem para as telas. Bozzetto Junior lembra que, em 1976, Dias Gomes já havia abordado o tema em Saramandaia, outra obra-prima da teledramaturgia . Mas foi em Roque Santeiro que a figura do lobisomem ganhou contornos de mito moderno.

A novela, hoje, é constantemente reprisada no Canal Viva e está disponível no Globoplay. Novas gerações redescobrem o professor Astromar, o suspense, a ironia, e se encantam com aquele homem de luneta que, ao ver o cometa Halley, finalmente se entrega à sua natureza.

Em 2025, a novela voltou a ser assunto quando a Globo exibiu capítulos com a participação do lobisomem, e os resumos repercutiram . Em 2024, quando a novela estava em reprise, o público ainda comentava: “Ninon escuta o uivo do lobisomem de novo” . O bicho continua assombrando Asa Branca — e, de certa forma, continua assombrando o imaginário brasileiro.

O monstro que a gente carrega dentro

O lobisomem de Roque Santeiro não é apenas um monstro. É um espelho. Em uma novela que fala sobre fé, exploração, mentiras institucionalizadas e o poder da verdade, o professor Astromar Junqueira representa aquilo que todos escondem — e que uma hora ou outra vem à tona.

Sua transformação final não é um susto. É uma revelação. É o momento em que o personagem — e, por extensão, o espectador — se despe das máscaras e aceita o que é. E a ironia de Dias Gomes nos lembra que, muitas vezes, o monstro não está lá fora, na escuridão. Ele está dentro de nós, esperando a lua cheia.

E você?

Depois de ler tudo isso, eu preciso saber: você já assistiu a Roque Santeiro? Lembra de ter se assustado com o professor Astromar, o lobisomem de Roque Santeiro? Ou, como muitos, só descobriu o mistério quando ele finalmente se revelou?

Conta aqui nos comentários. E se você tem alguma lembrança de ter assistido à novela na época de sua exibição original, em 1985, compartilha com a gente. Adoro saber como essas histórias marcaram a vida de quem viveu aquela época.


Ficha técnica do personagem

ItemInformação
Nome do personagemProfessor Astromar Junqueira
IntérpreteRui Rezende
OcupaçãoProfessor de filosofia
CaracterísticasSoturno, verborrágico, observador do céu com luneta
Principal interesse amorosoMocinha Abelha (Lucinha Lins)
Suspeita centralSer o lobisomem que aterroriza Asa Branca
Revelação da identidadeCapítulo 209, após observar o Cometa Halley
Causa da transformaçãoNão especificada; ironicamente associada à contemplação científica

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