
Você já imaginou perder a pessoa que mais ama e, meses depois, reencontrá-la dentro de um aspirador de pó? Um eletrodoméstico que se move sozinho, que emite sons de rodinha e que, de alguma forma inexplicável, ainda tem a voz, a memória e o desejo de estar ao seu lado?
Parece roteiro de um sonho febril, daqueles que a gente acorda rindo de si mesmo por ter imaginado algo tão absurdo. Mas não é. É o ponto de partida de “A Useful Ghost – Uma Ajuda do Além”, um dos filmes mais originais, ousados e surpreendentes dos últimos anos.
Se você é daqueles que adora um cinema que desafia convenções, que mistura gêneros com coragem e que consegue ser ao mesmo tempo hilário, comovente e politicamente afiado, prepare-se. Vamos mergulhar fundo nesse fenômeno tailandês que passou por Cannes, conquistou prêmios, virou queridinho da crítica e quase foi ao Oscar — tudo com uma história sobre um homem que reata o romance com a falecida esposa encarnada num aspirador.
Pega um café, senta confortável. Porque essa conversa vai ser longa, e no final, você vai querer assistir a esse filme nem que seja só para ver como um aspirador de pó pode protagonizar uma das cenas de amor mais delicadas do cinema contemporâneo.

Tudo começa com uma frase que já entrou para a história como um dos melhores ganchos de festival dos últimos anos: “Mere particles of dust in the air changed my ladyboy life forever” . Sim, o filme já abre com essa pérola. E a partir daí, a gente sabe que não está diante de um drama convencional.
A história se passa em uma fábrica de eletrodomésticos na Tailândia, comandada por uma família tradicional. March (Witsarut Himmarat) é o filho herdeiro, um homem que vive uma rotina pacata entre a linha de produção e os encontros casuais com fantasmas — porque sim, naquele lugar, assombrações são quase um problema administrativo. Tudo muda quando sua esposa, a bela e amorosa Nat (Davika Hoorne), morre envenenada por poeira tóxica na própria fábrica da família.
March fica devastado. Até que, certo dia, enquanto fazia uma inspeção na linha de produção, algo estranho acontece: um dos aspiradores de pó começa a se mover sozinho. Não é defeito de fabricação. É Nat. Ela voltou.
A partir daí, o filme nos apresenta uma das relações mais inusitadas do cinema recente: um homem de luto que reencontra a mulher amada na forma de um eletrodoméstico com rodinhas, mangueira e uma determinação impressionante. March, emocionado, retoma o relacionamento com a “nova” Nat. E isso inclui, sim, uma vida amorosa ativa — algo que o filme trata com uma delicadeza tão absurda quanto engraçada. Como bem observou um crítico, “guy sticking his dick in a suction device” é uma piada clássica de comédia sexual, mas raramente o dispositivo em questão assume a forma da esposa falecida e carrega consigo a melancolia da nossa mortalidade compartilhada.
Por trás dessa premissa aparentemente maluca, há um diretor com um projeto muito sério em mente. Ratchapoom Boonbunchachoke, estreante em longas, começou a desenvolver o roteiro com uma pergunta simples: e se os fantasmas não fossem assustadores, mas sim… prestativos? E se eles voltassem não para vingar, mas para trabalhar?
“Eu sinto que a gente vive em um tempo tão difícil que até mesmo os mortos precisam garantir o próprio sustento, trabalhando para pagar o aluguel ou coisa do tipo”, disse Ratchapoom em entrevista. Essa ideia, aparentemente cômica, tem raízes profundas na cultura tailandesa.
O diretor se inspirou em Mae Nak, uma das lendas mais famosas da Tailândia. A história é a seguinte: uma mulher grávida é separada do marido pela guerra. Antes que ele retorne, ela morre no parto e se torna um fantasma que continua habitando a casa do casal. Quando o marido volta, ele vive com ela sem saber que está ao lado de um espírito — até que os vizinhos, desconfiados, revelam a verdade. Ratchapoom olhou para essa lenda e viu nela algo profundamente queer: um casal que vive à margem, que não é aceito pela sociedade, que precisa esconder sua relação para não ser perseguido.
“Re-examining the legend, the director discerned that this human-ghost relationship was profoundly ‘queer’ — both parties were not accepted by society,” explicou a curadoria do Festival de Cinema Asiático de Hong Kong. A partir dessa leitura, Ratchapoom construiu uma narrativa que é, ao mesmo tempo, uma comédia romântica absurda e uma alegoria sobre a experiência queer na Tailândia.
“A gente convive por aqui com um clichê de que, quando você é queer, os seus pais aceitam a sua identidade desde que você seja uma pessoa boa e útil”, disse o diretor. Esse amor condicional, no qual você só é amado se for produtivo, é exatamente o que Nat enfrenta ao voltar como aspirador — ela só será aceita pela família se provar que é “útil”. E é daí que vem o título do filme: A Useful Ghost.

A morte de Nat não é um acidente qualquer. Ela morre envenenada por poeira tóxica na fábrica da própria família. E esse detalhe é fundamental para entender o que o filme realmente quer dizer.
A Tailândia enfrenta há anos um problema grave de poluição do ar, especialmente em Bangkok e no norte do país. “We have dust pollution every winter. People will start complaining about the dust quality in the neighborhood”, explicou Ratchapoom à Variety. A poeira não é só uma questão ambiental; na gíria política tailandesa, a palavra “poeira” (dhuli) também se refere a “pessoas sem poder” — aquelas que são ignoradas, invisibilizadas, descartáveis.
No filme, a poeira é literalmente o que mata os trabalhadores da fábrica. E são esses mesmos trabalhadores que, depois de mortos, voltam como fantasmas assombrando o local — não para assustar, mas para continuar trabalhando. É uma imagem poderosa: o morto-vivo que não consegue descansar porque, mesmo depois de morrer, ainda está preso à lógica da produção.
Esses fantasmas operários são sistematicamente combatidos e exorcizados pela família proprietária. E o que eles querem, afinal? Ser lembrados. Como diz uma das frases do filme: “There are two reasons why the dead come back: because they remember or because they have been forgotten”. Os fantasmas voltam porque foram esquecidos — e porque a história que eles representam, a história da exploração, da opressão, da violência do Estado, foi apagada.
É aqui que “A Useful Ghost” deixa de ser apenas uma comédia excêntrica e se revela um filme ferozmente político. Na reta final, a trama toma um rumo distópico, com direito a terapia de eletrochoque, apagamento de memórias e referências diretas a episódios sombrios da história tailandesa.
O diretor faz alusões a dois momentos específicos: o massacre de estudantes na Universidade Thammasat em 1976, quando forças estatais mataram dezenas de manifestantes, e os protestos de 2010, que deixaram mais de 90 civis mortos e milhares feridos. Essas feridas abertas na história da Tailândia são tratadas no filme como fantasmas que o Estado tenta, a todo custo, exorcizar — apagando memórias, reescrevendo a história, eletrocutando quem ousa lembrar.
O crítico da Cineuropa foi direto: “in its final stretch the film becomes clearly political, evoking the establishment of an Orwellian society of surveillance and repression (with electroshock therapy), with references to the massacres of opponents by state forces at Thammasat University in 1976 and during the 2010 demonstrations”. Não é um filme que tem medo de se posicionar.
E o mais impressionante é que essa guinada política não soa forçada. Ela emerge naturalmente da premissa: se os fantasmas são a memória dos esquecidos, quem quer apagar os fantasmas quer apagar a história. O filme se torna, então, uma defesa apaixonada da importância de lembrar — por mais doloroso que seja.
Um filme com essa premissa só funciona se os atores embarcarem na loucura com total seriedade. E o elenco de “A Useful Ghost” entrega isso com maestria.
Davika Hoorne, que interpreta Nat, tem a tarefa quase impossível de dar humanidade e emoção a um aspirador de pó. E ela consegue. Sua voz, seus gestos sutis, sua presença mesmo quando não está em cena — tudo contribui para que a gente se esqueça do absurdo e se concentre no drama. Witsarut Himmarat, como March, equilibra perfeitamente a comédia física (sim, ele faz cenas de amor com um eletrodoméstico) com a vulnerabilidade de um homem em luto.
O elenco de apoio é igualmente afiado. Apasiri Nitibhon interpreta a sogra Suman, uma mulher que vem de origem humilde e fala um tailandês não padrão — ela mesma uma outsider na família, mas que, mesmo assim, impõe as regras tradicionais sobre a nora. Wanlop Rungkumjad é Krong, o reparador misterioso que funciona como narrador da história, e Wisarut Homhuan vive um “academic ladyboy” que recebe o aspirador em sua casa e oferece um contraponto queer à rigidez da família de March.
Sobre Wisarut Homhuan, vale um parêntese. Em entrevista no Festival de Cinema de Goa, ele falou sobre como o papel mudou sua vida: “Being an actor in Thailand is difficult. I’ve worked across TV, TikTok, everywhere. There aren’t many opportunities. This film was a big pathway for me, something that finally allowed people to recognise me as a film actor”. É emocionante ver como um filme tão ousado também abriu portas para talentos marginalizados pela indústria.
O diretor de fotografia Song Pasit revelou que a equipe tinha um lema durante as filmagens: “Don’t be afraid not to be cinematic” . Essa filosofia resultou em um visual único, que abraça ângulos estranhos, composições brincalhonas e um uso deliberado de cores vibrantes — especialmente o vermelho, que o diretor insistiu para que se mantivesse vívido.
Há um ecletismo visual que dialoga com o ecletismo narrativo. O filme usa iris shots (aberturas e fechamentos circulares da imagem, como em filmes mudos), cross-fades elaborados, uma variedade enorme de enquadramentos e efeitos especiais que ora são discretos, ora são propositalmente chamativos. A trilha sonora, composta por Chaibovon Seelukwa, evoca o horror clássico com toques de música erudita, criando uma atmosfera que é ao mesmo tempo familiar e estranha.
Essa escolha estética não é acidental. O filme transita entre mundos: o universo dos fantasmas é vazio e frio; o mundo humano é caótico e sufocante. A direção de arte reforça esse contraste, colocando em oposição a casa bagunçada e charmosa do “academic ladyboy” e a sala futurista e perturbadora onde acontece a terapia de eletrochoque.
A recepção de “A Useful Ghost” foi entusiástica, especialmente depois de sua estreia na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2025, onde levou o Grand Prize — a primeira vez que um filme tailandês conquistou esse prêmio.
O IndieWire deu nota B+ e destacou: “The most elegant human-vacuum romance you’ll ever watch”. O AV Club foi na mesma linha: “A haunted vacuum will break your heart in A Useful Ghost. The hilarious and affecting Thai ghost story is an assured and absurd debut”. A Cineuropa elogiou a sofisticação do roteiro e a coragem política: “An exceptionally rich cocktail that’s also visually brilliant”.
A Variety chamou atenção para a relevância ambiental do filme e para sua ousadia em subverter o gênero de terror tailandês, enquanto o FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema) destacou a representação inclusiva de grupos marginalizados: “Despite the growing homophobia, it is significant that the love of homosexuals is portrayed as much as the romantic relationships of the main characters”.
Em Portugal e no Brasil, o filme começou a ganhar espaço com sua chegada aos cinemas em janeiro de 2026. A Folha de S.Paulo publicou uma extensa matéria sobre a produção, destacando como o diretor quis “reinventar o gênero de terror do país” e como a comédia foi a ferramenta para escapar do horror tradicional.
“A Useful Ghost” foi selecionado pela Tailândia como seu representante oficial na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional. Era uma escolha natural: o filme havia ganhado Cannes, era aclamado pela crítica e tinha tudo para ser o primeiro indicado tailandês da história (o país nunca conseguiu uma nomeação na categoria, embora How to Make Millions Before Grandma Dies tenha chegado à shortlist em 2024).
Mas algo deu errado.
Em novembro de 2025, a produção divulgou um comunicado explicando que, devido a um erro de comunicação e coordenação na submissão dos documentos, o filme não conseguiu cumprir os prazos estabelecidos pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. A equipe tentou reverter a decisão, mas a Academia manteve o veredito. A oportunidade se perdeu.
A notícia gerou comoção entre os fãs e críticos. “泰国电影冲奥失败真的好可惜,戛纳都拿奖了” (“É uma pena que o filme tailandês tenha perdido a chance do Oscar, especialmente depois de ganhar Cannes”), comentou um usuário em fórum chinês. A produtora 185 Films pediu desculpas publicamente, mas o estrago estava feito.
Ainda assim, o filme segue sua trajetória vitoriosa. Ele continua sendo exibido em festivais internacionais e sua distribuição nos cinemas mundiais está confirmada. O Oscar não veio, mas o prestígio e o reconhecimento — esses ninguém tira.
“A Useful Ghost” é um filme que desafia qualquer tentativa de classificação fácil. É uma comédia romântica sobre um homem que faz amor com um aspirador de pó. É uma crítica feroz ao capitalismo que mata seus trabalhadores e depois os apaga da história. É uma alegória sobre ser queer em uma sociedade que só te aceita se você for “útil”. É um tratado sobre a importância da memória em tempos de apagamento. É tudo isso ao mesmo tempo — e funciona.
O diretor Ratchapoom Boonbunchachoke, em sua estreia no cinema, mostra um domínio impressionante de tons, ritmos e camadas narrativas. Ele consegue o feito raro de fazer um filme que é ao mesmo tempo absurdamente engraçado e profundamente comovente, que te faz rir de uma cena de sexo com um eletrodoméstico e, minutos depois, te deixa em silêncio diante de uma reflexão sobre o preço do esquecimento.
E talvez seja isso que torne “A Useful Ghost” tão especial: a coragem de ser estranho, de não se encaixar, de insistir que até os fantasmas — até os esquecidos — têm direito a ser lembrados, amados e, sim, úteis. Mas úteis não para o sistema que os explorou, e sim para aqueles que os amam.
Como diz a personagem no filme: “The dead shouldn’t mess with the living. You should join your next life”. Mas Nat insiste em ficar. E é por essa insistência — por essa recusa em ser apagada, em ser esquecida, em ser descartada — que a gente se apega a ela, e a esse filme.
Depois de ler tudo isso, eu preciso saber: você assistiria a um filme sobre um homem apaixonado por um aspirador de pó? E, mais importante, você acha que um filme assim merece ser levado a sério?
Conta aqui nos comentários. E se você já assistiu “A Useful Ghost” ou vai atrás depois dessa conversa, volta aqui pra me contar o que achou. Adoro saber o que vocês estão pensando — especialmente quando o assunto é cinema que ousa ser diferente.
| Item | Informação |
|---|---|
| Título original | A Useful Ghost / Pee Chai Dai Ka (ผีชัยได้ก่า) |
| Título em português | A Useful Ghost – Uma Ajuda do Além |
| Diretor | Ratchapoom Boonbunchachoke |
| Roteiro | Ratchapoom Boonbunchachoke |
| Elenco principal | Davika Hoorne (Nat), Witsarut Himmarat (March), Apasiri Nitibhon (Suman), Wanlop Rungkumjad (Krong), Wisarut Homhuan (academic ladyboy) |
| Países | Tailândia, França, Singapura, Alemanha |
| Duração | 130 minutos |
| Ano | 2025 |
| Estreia mundial | Cannes 2025 (Semana da Crítica) |
| Prêmios | Grand Prize – Critics’ Week (Cannes 2025); Selecionado como representante tailandês ao Oscar 2026 (submissão frustrada por erro administrativo) |
| Produção | 185 Films (Tailândia), Haut Les Mains (França), Momo Film (Singapura), Mayana Films (Alemanha) |






