Saboroso Cadáver: o livro que vai te fazer repensar cada garfada (e talvez nunca mais olhar para um bife do mesmo jeito)

Sabe aquela sensação de estar no mercado, diante daquela bandeja de carne embalada em plástico filme, com a etiqueta bonitinha e o preço bem visível? Você escolhe, leva pra casa, tempera, grelha, come. Não pensa muito sobre de onde veio, quem esteve ali antes, que vida aquilo teve. É só comida.

Agora imagina que um dia você acorda e descobre que toda carne animal é proibida. Um vírus desconhecido contaminou bois, porcos, galinhas, peixes — tudo que respira e tem sangue — e agora consumir qualquer pedaço deles significa morte certa. O que você faria?

A indústria da carne não ia simplesmente fechar as portas. O capitalismo não ia bater no peito e dizer “tudo bem, pessoal, vamos todos virar veganos”. Não. A máquina ia continuar girando. Só ia precisar de uma nova matéria-prima.

Essa é a premissa de Saboroso Cadáver, o romance de Agustina Bazterrica que chegou ao Brasil pela DarkSide Books em 2022 e já deixou uma fileira de leitores traumatizados, emocionados e — curiosamente — com fome ao mesmo tempo. É perturbador, é visceral, é uma obra que não pede licença para entrar na sua cabeça e bagunçar tudo o que você achava que sabia sobre moral, consumo e humanidade.

Vamos mergulhar nesse banquete macabro?

O cardápio: do que se trata essa história?

O ano é indefinido, mas é um futuro próximo o suficiente para ser assustadoramente familiar. Uma pandemia (sim, o livro foi escrito antes da Covid, mas o paralelo é inevitável) se espalhou entre os animais do planeta inteiro. O vírus, chamado de “Mal dos Animais”, torna a carne deles mortal para os humanos. O governo, pressionado pela indústria alimentícia e pela histeria coletiva, toma uma decisão que, na época, parece lógica: eliminar todos os animais domésticos e de criação para conter o vírus .

Cachorros, gatos, bois, porcos, galinhas — todos morrem. As ruas ficam silenciosas. Não há mais latidos, mugidos, cacarejos. Há um silêncio que ninguém ouve, como o próprio livro descreve . Mas o apetite por carne não some. E aí, o que fazer?

A solução encontrada — e este é o coração da distopia criada por Bazterrica — é a legalização do canibalismo. Seres humanos são criados em cativeiro, abatidos em frigoríficos, vendidos em açougues, servidos em restaurantes finos. “Carne especial”, como é chamada. E toda uma sociedade se reorganiza em torno disso.

O protagonista, Marcos Tejo, trabalha em um frigorífico chamado Krieg — um dos maiores processadores de “carnes especiais” do país. Ele é o braço direito do dono, um homem metódico, eficiente, que supervisiona os abates, negocia contratos, mantém a máquina funcionando. Por fora, é o funcionário exemplar. Por dentro, é um homem em frangalhos .

O pai de Marcos está internado em uma clínica psiquiátrica desde os dias da Transição — o período em que os animais foram exterminados e o mundo se reorganizou. Seu filho, um bebê tão desejado, morreu. Sua esposa o abandonou e foi morar com a mãe. Marcos está só, movido por uma rotina vazia e pela obrigação de pagar as contas do pai.

É nesse estado de luto congelado que ele recebe um “presente” do dono do frigorífico: uma fêmea de primeira linha — uma mulher viva, criada para o abate, considerada carne de altíssima qualidade por não ter sido alimentada com aceleradores de crescimento . Marcos é instruído a fazer o que quiser com ela. Mas, em vez de entregá-la ao abate, ele a leva para casa.

E é aí que a história de Saboroso Cadáver deixa de ser apenas uma descrição de um mundo monstruoso e se torna um drama íntimo e dilacerante sobre um homem que, no fundo do poço da desumanidade, ainda guarda um fio de humanidade. Ou será que não?

Quem é Agustina Bazterrica? (e por que ela escolheu nos servir esse prato indigesto)

Agustina Bazterrica nasceu em Buenos Aires em 1974 e é formada em Artes pela Universidade de Buenos Aires . Isso explica muita coisa sobre sua escrita: ela  as cenas antes de escrevê-las. Como ela mesma disse em entrevista ao O Globo: “Em vez de mármore ou tinta a óleo, uso as palavras para criar um pequeno mundo artificial, que espero que o leitor vivencie como real” .

Antes de explodir com Saboroso Cadáver (publicado originalmente na Argentina em 2017 como Cadáver exquisito), ela já havia escrito um romance (Matar a la niña, 2013) e um volume de contos (Antes del encuentro feroz, 2016) . Mas foi com esse romance distópico que sua carreira decolou. Ele ganhou o Prêmio Clarín Novela em 2017 — um dos mais importantes prêmios literários da Argentina — e, em 2020, recebeu o Ladies of Horror Fiction Award como melhor romance do ano, sendo o único vencedor não originalmente escrito em inglês .

A história também foi traduzida para mais de 30 idiomas, vendeu mais de 600 mil cópias só nos Estados Unidos e foi eleita pelo Washington Post um dos melhores lançamentos de horror, ficção científica e fantasia de 2020 .

Mas Agustina não é só uma escritora de sucesso. Ela é também uma ativista silenciosa. Em 2014, depois de assistir ao documentário Earthlings (narrado por Joaquin Phoenix, que também é vegano), ela parou de comer carne . E essa escolha pessoal transborda para sua literatura — não como um discurso panfletário, mas como uma alegoria poderosa sobre o que fazemos com aqueles que consideramos “inferiores”.

Uma curiosidade fascinante: o irmão de Agustina, Gonzalo Bazterrica, é chef de cozinha especializado em alimentos orgânicos. Foram as conversas com ele, as noites passadas em seu restaurante, que a fizeram refletir sobre a relação entre comida, cultura e consumo — e isso acabou motivando a pesquisa que deu origem ao livro .

Outra influência crucial veio da literatura brasileira. Agustina é fã declarada de Clarice Lispector — especialmente de A Paixão Segundo G.H. — e afirma que De Gados e Homens, de Ana Paula Maia, foi fundamental para que ela entendesse o funcionamento dos frigoríficos e pudesse construir o mundo de Saboroso Cadáver . “Graças ao livro dela eu tive a minha primeira abordagem de como funcionam os frigoríficos e, embora tenha feito muitas pesquisas depois, o livro dela foi a base para começar essa investigação”, disse ela em entrevista ao blog da DarkSide .

A escrita que não poupa ninguém (nem você)

Se você espera um livro confortável, que te pega pela mão e te conduz suavemente pelos horrores do canibalismo institucionalizado, pode fechar a janela agora. Saboroso Cadáver não é isso.

A prosa de Bazterrica é direta, cirúrgica, quase clínica. Ela descreve os processos de abate com o mesmo distanciamento que um manual de instruções. E é justamente essa frieza que torna tudo tão aterrorizante. Não há floreios, não há poesia para amenizar o impacto. É a realidade nua e crua — literalmente.

Como uma leitora do blog Momentum Saga descreveu: “Ela não vai te poupar de detalhes cruéis e tenho que admitir que houve uma passagem que me recusei a ler porque não aguentava mais” . Outra resenha, do blog Se Ligan a Leitura, reforça: “A escrita direta e impactante de Bazterrica não poupa o leitor de cenas grotescas, expondo a crueza da condição humana nesse cenário distópico” .

Mas não é só o gore que impressiona. É a forma como ela naturaliza o absurdo. As pessoas no livro não se chocam com o canibalismo. Elas debatem se a “carne especial” deve ser criada em cativeiro ou em liberdade. Discutem os melhores cortes. Falam sobre as vantagens de comprar carne de pequenos produtores em vez da industrializada. É o capitalismo funcionando a pleno vapor, só com uma matéria-prima diferente.

E é aí que o livro se torna desconcertante. Porque, enquanto você lê, começa a perceber que o que está descrito ali não é tão diferente do que acontece hoje com os animais não-humanos. A linguagem é a mesma: “cortes”, “carcaças”, “abate”, “produção”. O que muda é só quem está do outro lado do balcão.

Marcos Tejo: o homem que parou de comer carne (e nem por isso se salvou)

O protagonista de Saboroso Cadáver é um dos personagens mais complexos que já cruzaram o território da ficção especulativa. Marcos Tejo não é um herói. Não é um vilão. É um homem comum num mundo extraordinário, tentando sobreviver sem enlouquecer de vez.

Uma das coisas mais interessantes sobre ele é que Marcos parou de comer carne depois que seu filho morreu. Não por uma questão ética — ele trabalha num frigorífico humano, afinal — mas porque perdeu o apetite, a vontade, a ligação com o ato de se alimentar. É como se a perda tivesse desconectado algo nele .

Ele também não é um animal. Não é um sádico. Pelo contrário: em vários momentos, vemos sua repulsa pelo trabalho que faz, sua tentativa de manter uma distância emocional das “carnes especiais” que passam pela linha de produção. Mas, ao mesmo tempo, ele não faz nada para mudar essa realidade. Apenas cumpre sua função, paga as contas, sobrevive.

Quando recebe a mulher de presente, algo nele se rompe. Ele não consegue entregá-la ao abate. Não porque tenha tido uma epifania moral, mas porque vê nela algo que lembra a humanidade perdida. E passa a escondê-la, alimentá-la, protegê-la — mesmo sabendo que isso pode custar sua vida.

O relacionamento entre Marcos e essa mulher — que nunca recebe um nome, porque no livro ela é apenas “a fêmea” ou “a coisa” — é o eixo emocional da narrativa. E o final, ah, o final… Vamos falar sobre ele daqui a pouco. Mas prepare o coração.

Os temas que fazem doer (e pensar)

Saboroso Cadáver é um livro que parece ter sido escrito com um bisturi em vez de uma caneta. Cada página corta fundo em temas que a gente prefere ignorar.

1. A indústria da carne como metáfora

O paralelo mais óbvio, claro, é com a pecuária industrial. A forma como os humanos são criados em “fazendas”, alimentados com ração, marcados com códigos de barras, abatidos em linha de produção — tudo isso é uma descrição fiel do que acontece hoje com bois e porcos. A diferença é que, quando os personagens são humanos, a coisa fica insuportável. E é exatamente esse o ponto: por que a gente consegue ignorar o sofrimento de um animal, mas não o de um humano? O que nos torna diferentes? E se não somos tão diferentes assim… o que isso diz sobre nós? 

2. Violência de gênero e objetificação do corpo feminino

Um dos aspectos mais perturbadores do livro é como as mulheres são tratadas no universo de Saboroso Cadáver. As fêmeas “de primeira linha” são as mais valiosas. Seus corpos são inspecionados, classificados, consumidos. E, em meio a isso, a violência sexual é naturalizada — porque, afinal, “elas são só carne” .

Acadêmicas como Priscilla Costa e Liane Schneider, da Universidade Federal da Paraíba, já analisaram o livro sob a ótica da violência de gênero e do “referente ausente” — um conceito da teórica feminista Carol J. Adams, autora de A Política Sexual da Carne. Adams argumenta que, para que o consumo de carne seja possível, é necessário apagar o animal como sujeito, transformá-lo em objeto. Em Saboroso Cadáver, o mesmo mecanismo é aplicado aos humanos — e aí a violência fica escancarada .

3. O capitalismo que devora tudo (inclusive a gente)

Outro tema central é o realismo capitalista, termo cunhado por Mark Fisher. Em entrevista à DarkSide, Bazterrica disse algo que resume bem o espírito do livro: “Pessoas com privilégios e recursos que vivem sua própria utopia, e um grande número de pessoas que vivem uma distopia: pessoas em cativeiro, escravizadas, violentadas, sem recursos básicos, pessoas que têm que lutar para sobreviver em um mundo hostil” .

O mundo de Saboroso Cadáver é só uma versão exacerbada do nosso. A indústria não vai acabar. Ela só vai encontrar uma nova forma de se manter. E se for preciso transformar humanos em mercadoria, o sistema vai fazer isso sem pestanejar .

4. A perda do silêncio dos animais

Há um momento no livro em que Marcos percebe que, desde que os animais foram exterminados, “há um silêncio que ninguém ouve” . Essa frase é uma das mais belas e tristes do romance. É o luto pela natureza, pelo outro, pelo mundo que foi destruído. É a constatação de que, quando matamos tudo ao nosso redor, não ficamos só com o vazio — ficamos com um vazio que a gente nem percebe mais, porque se acostumou.

O final que não sai da cabeça

Vamos combinar: eu não vou dar spoiler. Mas preciso dizer que o final de Saboroso Cadáver é um dos mais devastadores que já li na vida.

Ele não é apenas chocante. Ele é inevitável. Você vai chegar na última página e pensar: “como eu não vi isso antes?” É o tipo de final que faz você repensar tudo o que leu, cada gesto de Marcos, cada escolha. E depois que você termina, fica ali, olhando para a parede, processando.

Uma leitora do blog Momentum Saga descreveu assim: “O final é tão brutal que me peguei pensando como que não percebi que seria daquele jeito” . A própria Agustina, em entrevista ao Irish Times, já tinha avisado: “Eu queria que o leitor sentisse o peso de cada escolha. Não há escapatória” .

Para quem é (e para quem não é) este livro

Saboroso Cadáver não é para qualquer um. Precisa de um alerta de gatilhos bem honesto. A obra contém:

  • Canibalismo explícito
  • Violência extrema e gore
  • Abuso sexual e violência de gênero
  • Crueldade animal (lembre-se: os animais foram exterminados no começo da história)
  • Luto e perda de filhos
  • Cenas de abate descritas em detalhes cirúrgicos 

Se você tem estômago fraco, se está passando por um momento emocional delicado, se prefere leituras mais leves… talvez seja melhor deixar este na estante por enquanto. Ou, como recomendou uma leitora do blog Lost Words, “se você parar de comer carne depois dessa leitura, não fui eu que indiquei” .

Mas se você topa o desafio, se gosta de distopias que cutucam feridas abertas, se quer ler uma obra que vai te acompanhar muito depois da última página — então Saboroso Cadáver é leitura obrigatória.

É um livro que dialoga com O Conto da Aia, de Margaret Atwood, com *1984*, de George Orwell, com A Estrada, de Cormac McCarthy. Mas tem uma voz muito própria, uma acidez latino-americana, um sabor — se você me permite o trocadilho — que é inconfundível.

A edição da DarkSide: um prato servido com requinte

A DarkSide Books, que já é conhecida por seus lançamentos caprichados, fez um trabalho impecável com Saboroso Cadáver. A edição é em capa dura, com 192 páginas em papel de boa qualidade . O projeto gráfico é elegante e sombrio — como manda a tradição da editora. A tradução ficou a cargo de Ayelén Medail, que também traduziu Dezenove Garras e um Pássaro Preto, a coletânea de contos que Agustina lançou depois .

O livro chegou às livrarias em julho de 2022 e, desde então, já figurou entre os mais vendidos da Amazon Brasil . E não é à toa: quando um livro consegue ser ao mesmo tempo chocante e inteligentebrutal e delicado, ele encontra seu público.

Veredito final (sem spoilers, mas com emoção)

Saboroso Cadáver é um daqueles livros que a gente termina e precisa de um tempo para digerir. É uma obra que não pede licença, não suaviza os cantos, não oferece consolo. Ela te olha nos olhos e diz: “é assim que as coisas são. O que você vai fazer com isso?”

Não é uma leitura fácil. É desconfortável. É perturbadora. É, em vários momentos, nauseante. Mas também é essencial. Porque, no fim das contas, Agustina Bazterrica não está só escrevendo sobre um mundo distópico onde se come gente. Ela está escrevendo sobre o mundo em que vivemos agora — onde a gente consome, descarta, ignora, e segue em frente como se nada tivesse acontecido.

Ela está nos perguntando, de forma muito direta: até onde você iria para satisfazer seus desejos? O que você está disposto a ignorar para continuar confortável? E, se você olhar com atenção, vai ver que talvez a resposta não seja tão diferente do que Marcos faz todo dia.

Então, se você topa o desafio, se quer sentir um frio na espinha que não passa mesmo com cobertor, se quer uma leitura que vai te acompanhar por dias (ou semanas), Saboroso Cadáver está esperando por você na prateleira mais escura da livraria.

Recomendado para: fãs de distopias intensas, leitores de terror psicológico, pessoas que gostam de livros que provocam reflexão, quem não tem medo de encarar o desconforto literário.

Não recomendado para: quem tem estômago fraco, pessoas em luto recente, leitores que preferem finais felizes e reconfortantes, quem busca uma leitura leve para relaxar.

E aí, vai encarar esse banquete macabro? Me conta nos comentários: você já leu Saboroso Cadáver ou ainda está criando coragem? E se já leu, qual foi a cena que mais te marcou — e como você reagiu ao final? Vamos trocar uma ideia (e talvez uns terrores compartilhados).


Ficha Técnica

ItemInformação
TítuloSaboroso Cadáver
AutoraAgustina Bazterrica
EditoraDarkSide Books
TraduçãoAyelén Medail
Páginas192
Ano2022 (original de 2017)
ISBN978-6555981889
GêneroDistopia / Horror / Ficção Especulativa

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