
Sabe aquela sensação de estar no ônibus, no metrô, na fila do banco, e de repente olhar para uma mulher sentada ali perto e pensar: “será que ela está bem?” Ela tem os olhos baixos, os ombros encolhidos, o corpo todo parece pedir desculpas por existir. Você pensa em perguntar, em oferecer ajuda, mas o ônibus chega, ela desce, você segue sua vida. E fica ali, no peito, aquela pontada de “e se?”
Bom dia, Verônica é exatamente essa pontada. Só que transformada em livro. E depois em série. E depois em um fenômeno que fez o Brasil inteiro parar para pensar sobre violência doméstica, sobre o descaso das instituições, sobre o que acontece quando ninguém está olhando.
Publicado originalmente em 2016 sob o pseudônimo de Andrea Killmore, o livro foi um marco na literatura policial brasileira — mais de 100 mil exemplares vendidos, uma adaptação de sucesso na Netflix (com três temporadas e o elenco estrelado de Tainá Müller, Eduardo Moscovis e Camila Morgado) e, agora, uma nova edição pela Editora Companhia das Letras, que relança a obra em 2022 com capa nova e projeto gráfico revisado .
Mas a pergunta que não quer calar é: será que Bom dia, Verônica entrega tudo o que promete? Será que a história prende até o fim? E, mais importante: será que você vai sair do livro com a certeza de que fez a coisa certa — ou com a mesma ambiguidade perturbadora que acompanha Verônica o tempo todo?
Vamos mergulhar nesse caso. Mas já aviso: prepare o estômago.

Tudo começa com uma frase que já merecia estar na galeria das melhores aberturas da literatura brasileira:
“Era o primeiro dia do fim da minha vida. Claro que eu não sabia disso quando abri os olhos pela manhã e vi que estava atrasada.”
Verônica Torres tem 38 anos, é casada, tem dois filhos e trabalha como secretária do delegado Wilson Carvana no Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa da Polícia Civil de São Paulo . Ela é filha de um respeitado policial que teve um fim trágico e não totalmente esclarecido, e carrega esse peso nas costas como quem carrega uma cruz.
Sua rotina é monótona, burocrática, cheia de sonhos interrompidos. Até que uma manhã, uma mulher sai da sala do delegado Carvana, vai ao encontro de Verônica, e — sem aviso — se joga pela janela do 11º andar da delegacia. Diante de Verônica. Sem que ela pudesse fazer nada .
A mulher se chamava Marta Campos. Antes de saltar, ela diz uma frase que fica ecoando na cabeça de Verônica como um mantra macabro:
“Agora ele vai ser capaz de me amar.”
Verônica tenta investigar. Descobre que Marta foi vítima de um golpista em um site de relacionamentos, um homem que a extorquiu, humilhou, deixou a boca dela toda ferida e tomada por uma infecção . Mas Carvana não dá a mínima. Para ele, Marta era só mais uma mulher ingênua que se deixou enganar. Caso encerrado.
A mesma semana traz um segundo fio na teia: uma mulher chamada Janete liga anonimamente para a delegacia, em desespero. Não fala nada, desliga. Liga de novo. Verônica descobre o número e começa a investigar. Janete é casada com Brandão, um capitão da Polícia Militar de São Paulo. E Brandão não é apenas um marido abusivo. Ele é um serial killer .
Janete é obrigada a participar dos crimes: vai com ele até a Rodoviária Tietê, onde mulheres que chegam sozinhas em busca de emprego são abordadas, aliciadas com promessas falsas, levadas para um sítio afastado. Lá, com uma caixa na cabeça, Janete ouve os gritos, as torturas, os estupros. E depois, o silêncio .
Verônica, que já está investigando o caso de Marta por conta própria, decide mergulhar também no caso de Janete. Ela não tem autorização. Não tem respaldo. Não tem quase nada além de um senso de justiça que parece deslocado no meio da podridão que a cerca. E é ali que o abismo se abre.
Se tem um nome que já é garantia de estômago revirado na literatura brasileira, esse nome é Raphael Montes. Autor de Suicidas, Dias Perfeitos, Uma Família Feliz e O Vilarejo, Montes tem uma assinatura que todo leitor de thriller reconhece: prosa direta, personagens moralmente ambíguos, cenas que não pedem licença para te machucar.
Agora, junte isso com Ilana Casoy. Criminóloga de formação, ela é uma das maiores especialistas em crimes reais do Brasil. É autora de livros como Serial Killers: Louco ou Cruel? e Ritos Funerários, e tem um olhar clínico sobre a mente criminosa que poucos têm .
A junção dos dois deu em algo raro: um thriller que é ao mesmo tempo literatura de primeira linha e retrato quase documental da violência . A pesquisa de Casoy garante que cada detalhe técnico — os procedimentos policiais, os protocolos de investigação, as falhas do sistema — sejam verossímeis. A escrita de Montes garante que a história não perca o fôlego, que os personagens tenham carne e osso, que a tensão suba a cada página.
Eles publicaram o livro inicialmente sob o pseudônimo de Andrea Killmore — uma brincadeira com o termo “kill more” (mate mais) que já dava o tom da obra . Só depois, com o sucesso estrondoso e a compra dos direitos pela Netflix, os nomes verdadeiros vieram à tona.
A estrutura de Bom dia, Verônica é um dos seus pontos mais interessantes. O livro se divide em duas linhas narrativas que se alternam :
Verônica narra sua história em primeira pessoa. É ela quem conduz a investigação, quem entra na casa dos outros sem mandado, quem troca favores por sexo, quem se envolve emocionalmente com os casos. É uma narradora não confiável — não porque minta, mas porque está emocionalmente instável, com um passado de trauma, com um senso de justiça que beira a obsessão .
Janete aparece em capítulos narrados em terceira pessoa. E essa escolha não é inocente. Janete é uma mulher que perdeu a voz, perdeu a vontade, perdeu a capacidade de contar sua própria história. Ela é controlada, violentada, anulada. A terceira pessoa reflete essa ausência de agência — ela não tem voz nem para narrar sua própria dor .
A alternância entre as duas perspectivas cria um ritmo que não deixa o leitor descansar. Nos capítulos de Verônica, a gente sente a adrenalina, a pressa, o desespero de uma mulher que corre contra o tempo. Nos capítulos de Janete, a gente sente o peso, o medo, a claustrofobia de quem está presa dentro da própria casa.
Uma leitora descreveu essa experiência como “frenética e perturbadora” e disse que “o livro é capaz de te fazer ficar sem fôlego com as reviravoltas e também te fazer ficar acordado lendo por toda noite para terminar logo” .
Agora, vamos falar do elefante na sala: Verônica Torres.
Ela não é a heroína que você espera. Não é bonita de um jeito óbvio, não é simpática, não é correta. Ela é mal-humorada, instável, cínica, incrédula . É casada, mas trai o marido sem peso na consciência. É mãe, mas esquece os filhos na casa da sogra e não sente falta. É policial, mas age fora da lei, invade casas, chantageia, manipula .
Uma leitora foi direta: “Verônica é a personagem mais machista desse livro! A começar por sua fixação pra andar maquiada, ela usa maquiagem até para não parecer maquiada, diz que teve a melhor transa da vida dela depois que pintou os cabelos de loiro e emagreceu 5 quilos” . Outra leitora completou: “Nunca vi uma protagonista tão oferecida, sentia nojo das suas saídas para praticar o coito como um pagamento por algum favor recebido” .
E ainda assim — e essa é a mágica do livro — a gente torce por ela.
Porque por baixo da arrogância, da promiscuidade, da irresponsabilidade, há uma mulher que está tentando consertar um mundo quebrado. Uma mulher que perdeu o pai, que tentou o suicídio, que foi colocada numa função burocrática para não atrapalhar . Uma mulher que, quando vê Marta se jogar pela janela, se reconhece ali — na dor, no desespero, na certeza de que ninguém vai acreditar nela.
Uma leitora do blog Resenhando Sonhos fez uma observação importante: “Apesar de tudo isso, foi uma personagem que eu gostei de não gostar, e não algo que afetou negativamente a leitura. No entanto, o final do livro me fez pensar muito se esses traços não eram propositais, o que aparentemente eram, considerando o desfecho da personagem” .
E essa é a grande questão: Verônica foi escrita para ser irritante. Para que a gente se sinta desconfortável com ela, para que a gente questione suas motivações, para que a gente entenda que não existe heroísmo puro num sistema podre. E o final — ah, o final — escancara isso de um jeito que vai te fazer repensar tudo o que você leu.
Se Verônica é o lado visível do horror, Janete é o lado que a gente prefere ignorar.
Ela é uma dona de casa devotada, que obedece Brandão pelo absoluto terror que nutre por ele . Deixou a família no interior para seguir o homem que amava. Achou que tinha encontrado o amor da vida. Em vez disso, encontrou um cárcere disfarçado de casamento.
Brandão não apenas a agride. Ele a obriga a participar dos crimes. Janete vai com ele à Rodoviária Tietê, aborda as mulheres, mente sobre o emprego que não existe, ajuda a levá-las para o cativeiro. Depois, com uma caixa na cabeça, ela ouve as torturas, os gritos, os estupros. E depois, o silêncio .
O que torna Janete tão perturbadora é que ela não é uma vítima passiva. Ela sabe que está fazendo algo errado. Sente culpa. Sente medo. Mas também sente algo que ela mesma não consegue nomear — uma cumplicidade forçada, uma sobrevivência a qualquer custo.
Uma resenha acadêmica da Universidade Federal Fluminense destacou a construção da personagem: “Camila Morgado tem grande destaque na construção de uma personagem rica em receios e anseios. Esse arco é o principal da trama ao explorar a pauta de relações abusivas e traz de maneira verossímil as atitudes do abusador, onde em meio aos surtos e agressões, também há momentos de ternura e carinho, comportamento padrão dessas figuras masculinas” .
E é aí que Bom dia, Verônica acerta em cheio: ele não romantiza a violência, mas também não a simplifica. Brandão não é um monstro caricato. Ele é um homem que bate e depois pede desculpas, que mata e depois faz carinho, que é temido na corporação e querido pelos vizinhos. É esse horror ordinário, esse mal que cabe dentro de um apartamento de classe média, que faz o livro doer tanto.
Vamos aos prós e contras. Porque Bom dia, Verônica é um livro que divide opiniões, e é bom saber no que você está se metendo.
Em 2020, Bom dia, Verônica ganhou uma adaptação para a Netflix que se tornou um dos maiores sucessos do streaming no Brasil. Com Tainá Müller no papel de Verônica, Eduardo Moscovis como Brandão e Camila Morgado como Janete, a primeira temporada foi um fenômeno de crítica e público .
A série expandiu o universo do livro, criando duas temporadas adicionais (a segunda com Reynaldo Gianecchini como o líder de uma seita, a terceira com Rodrigo Santoro como o terceiro irmão) e levando a história para além do que estava nas páginas .
O que a série fez de melhor foi dar densidade a personagens que no livro são mais rasos. Anita, a procuradora interpretada por Elisa Volpatto, ganhou camadas. Carvana, o delegado corrupto, ganhou nuances. E Verônica — ainda que continue uma personagem complicada — ganhou uma interpretação que a torna mais compreensível, menos caricata .
Uma crítica acadêmica destacou: “A série dá um soco no estômago do espectador a cada respiração descompassada por conta do medo sentido por Janete e traz revolta e indignação ao escancarar um relacionamento onde a submissão se sobrepõe à própria existência” .
Se você viu a série e ficou curioso sobre o livro, saiba que a experiência é diferente. O livro é mais cru, mais direto, menos “polido” que a adaptação. E tem um final que, para muitos, é mais chocante do que o da série.
Bom dia, Verônica não é apenas um thriller. É um livro que cutuca feridas que a gente prefere ignorar.
A relação entre Janete e Brandão é um retrato assustadoramente real do ciclo da violência doméstica: a tensão que cresce, a explosão violenta, o arrependimento, a lua de mel, e tudo recomeça. Janete é uma mulher que perdeu a capacidade de reagir, que foi isolada da família, que tem medo até de pensar em fugir. E Brandão, o agressor, é ao mesmo tempo amado e odiado — porque, nos momentos bons, ele é o homem por quem ela se apaixonou .
Uma das críticas mais contundentes do livro é contra a polícia. Carvana, o delegado, é a personificação do machismo institucional: trata as vítimas com desprezo, engaveta casos que envolvem mulheres, protege os seus. A fala de Verônica é cruel, mas certeira: “Nessa porra de país escroto, fazer tudo direitinho nunca foi garantia de final feliz” .
O que o livro mostra, no fim das contas, é que o sistema não funciona. As mulheres não são protegidas. Os criminosos não são punidos. E a única saída, muitas vezes, é a ação individual — a vigilante, a desesperada, a que está fora da lei. Verônica não é heroína porque escolheu ser. É heroína porque ninguém mais estava ali para fazer o que precisava ser feito.
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Não recomendado para:
Bom dia, Verônica foi lançado originalmente pela DarkSide Books em 2016, com capa dura e projeto gráfico sombrio . Em 2022, a Editora Companhia das Letras assumiu a publicação, lançando uma nova edição em capa dura, com 320 páginas e arte de capa assinada por Elisa Von Randow .
A edição da Companhia das Letras é a que está disponível atualmente no mercado, e é o ponto de partida ideal para quem quer conhecer a obra.
Bom dia, Verônica não é um livro fácil. Não é um livro confortável. Não é um livro que você termina com um sorriso no rosto e uma sensação de que tudo está bem. É o oposto disso.
É um livro que te arrasta para o fundo do poço e te deixa lá, olhando para cima, tentando entender como a gente chegou até ali. É um livro sobre o pior que há no ser humano — a violência, a covardia, o descaso, a indiferença. Mas é também, paradoxalmente, um livro sobre a resistência: sobre uma mulher que se recusa a fechar os olhos, que se recusa a engavetar, que se recusa a acreditar que “é assim mesmo e não tem jeito”.
Verônica é irritante. É imprudente. É moralmente questionável. Mas ela é também, talvez, a única pessoa disposta a fazer o que precisa ser feito. E o livro termina com uma pergunta que fica ecoando na sua cabeça: o que você faria no lugar dela?
Uma leitora resumiu bem: “O livro é capaz de te fazer sentir raiva, nojo, indignação e, no final, um certo vazio. Mas também te faz pensar. E livros que fazem pensar são os que merecem ser lidos” .
Então, se você está disposto a encarar, vai em frente. Mas, se me permite um conselho: não leia sozinho à noite. E, quando terminar, procure alguém para discutir. Porque Bom dia, Verônica é desses livros que precisam ser compartilhados — nem que seja para dividir o trauma.
Ficha Técnica:
| Item | Informação |
|---|---|
| Título | Bom dia, Verônica |
| Autores | Raphael Montes e Ilana Casoy (pseudônimo Andrea Killmore) |
| Editora | Companhia das Letras |
| Arte de capa | Elisa Von Randow |
| Páginas | 320 |
| Ano | 2022 (original: 2016) |
| ISBN | 978-6559213634 |
| Gênero | Thriller Policial / Suspense Psicológico |
| Formato | Capa dura |
| Classificação etária | 18 anos |







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