Colapso: o livro que te arrasta para o fundo do poço da humanidade (e te deixa lá, sem ar)

Sabe aquela sensação de estar num ônibus lotado, no meio da cidade, rodeado de gente, mas ao mesmo tempo completamente sozinho? Cada um no seu celular, nos seus fones, no seu mundinho fechado. Ninguém olha para ninguém. Ninguém se enxerga.

Foi numa dessas que Roberto Denser teve a ideia para Colapso.

Ele olhou para aquelas pessoas todas, ensimesmadas, desconectadas umas das outras, e pensou: “é assim que o mundo acaba. Não com um estrondo, mas com todo mundo sozinho, dentro da própria bolha, sem perceber que o chão está cedendo” .

O resultado é um romance de 448 páginas que não pede licença, não suaviza os cantos, não oferece consolo. É um soco no estômago em forma de literatura. É a certeza de que, se o mundo desmoronar amanhã, o pior não vai ser o céu ficar vermelho ou as cidades virarem ruínas. O pior vai ser o que a gente vai fazer uns com os outros .

Vamos mergulhar nesse abismo?

Colapso
Crédito: DarkSide

A pergunta que abre o livro (e que já te desmonta)

“Sabia que o céu já foi azul?”

Essa é a frase que abre Colapso . E ela já diz tudo.

Não é uma pergunta filosófica. Não é um enigma poético. É uma constatação devastadora: existe um “antes” e existe um “agora”. E o “agora” é um mundo onde ninguém mais se lembra do azul do céu. Onde o normal é o vermelho, a fumaça, a terra estéril, o fedor de decomposição.

A história se passa cerca de 40 anos após o Marco Zero — um evento catastrófico que dizimou 99,9% da população mundial . O que foi esse evento? Não importa. Denser não explica. Ele não precisa. Porque o livro não é sobre o que causou o colapso. É sobre o que veio depois.

O Brasil que resta é um país em ruínas. As grandes cidades são esqueletos de concreto, cobertas de areia ou devoradas pela vegetação . O céu é vermelho. A chuva é escassa e fétida. Não há animais — foram todos exterminados pelo vírus ou pelo caos. A única “carne” disponível… bom, você já deve imaginar .

Nesse cenário, pequenos grupos de sobreviventes tentam se manter vivos. Uns se organizam em comunidades, outros em gangues, outros em seitas. Mas todos vivem sob a mesma lei: matar ou morrer. Comer ou ser comido. Confiar é um risco que poucos podem correr.

Roberto Denser: o escritor que veio do açougue (literalmente)

Antes de escrever Colapso, Roberto Denser já tinha sido açougueiro, vendedor ambulante de sandálias magnéticas, professor substituto, livreiro, jornalista freelancer e ajudante de transportadora . Trabalhos que, mais do que sustento, lhe deram um olhar atento sobre o mundo e a matéria-prima para criar.

Ele nasceu em 1985, em Bayeux, na Paraíba, mas foi criado no bairro operário de Tibiri II, em Santa Rita . Foi ali, entre ruas de chão batido e sonhos difíceis de dobrar, que o menino descobriu a força das palavras. Aos 12 anos, precisou interromper os estudos para trabalhar. Voltou à escola cinco anos depois, fez supletivo, concluiu o ensino médio. Depois tentou Letras, desistiu. Tentou Jornalismo, não passou. Acabou se formando em Direito, mas nunca exerceu .

Sua vida foi uma sucessão de recomeços. Em 2010, aos 25 anos, passou por uma crise criativa tão profunda que queimou tudo o que havia escrito até então: dois romances, incontáveis contos, rascunhos, diários. Tudo. E recomeçou do zero .

Desse recomeço nasceu A Orquestra dos Corações Solitários, um conjunto de contos inspirados nas canções dos Beatles. Depois veio Para Elisa, uma novela policial narrada como se fosse um documentário — ousada na forma, intensa no conteúdo .

E então, em 2015, ele escreveu Colapso. Em menos de um mês .

O nascimento de um livro (e uma história de insistência)

A ideia veio num ônibus. Denser voltava da faculdade, olhou ao redor e viu todos os passageiros absortos em seus celulares, como se estivessem completamente sozinhos no mundo. Ele pensou: “É assim que a gente morre. Sozinho, no meio de todo mundo” .

Chegou em casa e começou a escrever. O texto fluiu. Em menos de 30 dias, o primeiro rascunho estava pronto .

Ele tentou publicar. Nenhuma editora se interessou. Então fez o que todo escritor iniciante faz: autopublicou na Amazon, dividindo o romance em três partes — Depois do fimNa estrada e Colapso .

O livro foi ganhando leitores. Boca a boca. Recomendação de blog. Até que chegou aos ouvidos da DarkSide Books, que viu ali um diamante bruto — desses que precisam ser lapidados, mas cujo brilho já era inegável.

Em 2023, Colapso ganhou uma edição de capa dura, com projeto gráfico impecável e 448 páginas que pesam na mão e na alma . Em 2024, foi semifinalista do Prêmio Jabuti — o Oscar da literatura brasileira . Um feito e tanto para um romance de estreia.

O que o livro faz de melhor (e pior) com você

Colapso é um livro que não quer ser seu amigo. Ele quer te machucar. E consegue.

Capítulos curtos que cortam como faca

Uma das características mais elogiadas (e também criticadas) do livro são os capítulos extremamente curtos . Isso deixa a leitura fluida, rápida, quase cinematográfica. Você começa um capítulo, termina em três páginas, pensa “só mais um”, e quando vê já passou da metade do livro.

Mas também há quem sinta que essa fragmentação impede um aprofundamento maior. Uma leitora da Amazon reclamou que faltaram descrições físicas dos personagens — ela formava uma imagem mental de alguém e só no final descobria que era completamente diferente . É uma crítica justa. Denser vai direto ao ponto, mas às vezes deixa no caminho detalhes que alguns leitores sentem falta.

Violência que não é espetáculo, é realidade

Vamos ser honestos: Colapso é violento. Muito violento.

Há cenas de estupro, canibalismo, tortura, assassinatos brutais. Uma leitora do Goodreads alertou que “precisa ter estômago” para ler . Outra disse que é o livro mais pesado que já leu .

Mas a violência aqui não é gratuita. Denser não está fazendo espetáculo com o sofrimento. Ele está dizendo: “olha, isso já acontece. Isso já é real. Só não é mostrado na sua janela”. Como ele mesmo escreveu no posfácio, nada ali foi inventado — tudo tem base em coisas que acontecem desde sempre, no mundo em que vivemos agora .

Uma leitora sintetizou bem: “A crueldade humana é real, seja por trauma, seja por causa das condições de vida, ou simplesmente por ser algo que encaro como natural em muita gente, infelizmente” .

A dúvida moral que te corrói

O grande trunfo de Colapso não é o gore. É a ambiguidade moral.

Denser cresceu num bairro violento e aprendeu cedo que as pessoas não são 100% boas nem 100% más. Ele viu “verdadeiros exemplos de cidadania” cometerem atrocidades quando as circunstâncias apertaram . Essa lição atravessa todo o livro.

Os personagens mais velhos — que ainda lembram do “Antes” — carregam uma moral parecida com a nossa. Eles sabem que matar é errado. Que estuprar é errado. Que comer gente é errado. Mas estão num mundo onde sobreviver exige fazer coisas erradas.

Os mais jovens, que só conhecem o “Agora”, têm uma moral completamente diferente. Para eles, o canibalismo não é tabu. A violência não é exceção, é regra. Eles não escolhem ser monstros — eles simplesmente não sabem que existe outra forma de ser .

E aí vem a pergunta que Denser deixa no ar: o que nos torna humanos? É a biologia? É a consciência? É a capacidade de escolher? Ou é só o luxo de viver num mundo onde a gente pode se dar ao luxo de ter moral?

Os personagens que te marcam (e te machucam)

Colapso não tem um protagonista único. Acompanhamos vários personagens, de diferentes grupos, em diferentes partes do Brasil devastado.

Bia é uma das mais marcantes. Uma leitora disse que “sempre que ela aparecia, meus olhos se enchiam de água” . Bia é guerreira, é forte, mas carrega um peso que parece maior do que ela.

Garoto e Espanhol são dois dos favoritos dos leitores — “reizinhos”, como uma fã os chamou . Há algo de puro neles, mesmo num mundo tão impuro.

Diana lidera um grupo chamado Atenas — uma irmandade de mulheres que tenta se proteger num mundo onde o corpo feminino virou mercadoria. Mas Diana também tem suas sombras. Uma leitora disse que “adorou detestar a Diana, entender suas motivações”, mesmo revirando os olhos a cada “mana” e “Atenas” . Porque é isso: no fundo, Diana também está tentando sobreviver. Só que o poder corrompe, sempre corrompe.

E há Samanta. A história dela é devastadora. Uma das mais tristes do livro. Mas ela foi vingada. Embora, como bem lembrou uma leitora, “nada daquilo trará de volta sua família e o sonho que ela nutria dentro de si” .

Os personagens de Colapso são carnais, reais, donos de dilemas, dores e esperanças . Eles não são heróis. Não são vilões. São pessoas comuns tentando sobreviver num mundo extraordinariamente hostil.

Por que isso importa agora

Colapso foi escrito em 2015, mas parece ter sido publicado ontem.

O mundo em que vivemos não é tão diferente assim do mundo do livro. Temos um colapso climático batendo à porta. Temos guerras que não param de se espalhar. Temos políticos que parecem ter desistido de governar para se dedicar apenas a se manter no poder. Temos uma desigualdade que cresce a olhos vivos. Temos pessoas que matam e morrem por causa de uma postagem, de uma divergência, de uma “guerra cultural” que só existe na cabeça de quem lucra com ela.

Denser não está prevendo o futuro. Ele está descrevendo o presente. Só que, no presente, a gente ainda tem o luxo de fingir que não está acontecendo. No livro, esse luxo acabou.

Como ele mesmo disse em entrevista: “Creio que a humanidade está sempre à beira do colapso. É como se o colapso fosse uma espécie de espada de Dâmocles sobre a cabeça imaginária da humanidade. Não sou a pessoa mais otimista do mundo. Creio que basta um pouco de azar para que tudo desmorone” .

A edição da DarkSide: um objeto de desejo (e de terror)

DarkSide Books fez um trabalho primoroso com Colapso. A edição é em capa dura, com 448 páginas em papel de alta qualidade . O projeto gráfico é sóbrio e impactante — como manda a tradição da editora. O livro pesa 700 gramas e tem 23 cm de altura, o que o torna imponente na estante e confortável na mão .

É um livro que se propõe a ser lido, relido, anotado, debatido. Não é descartável. É para ficar.

E, por falar em ficar: Denser já está trabalhando na continuação. Escisão deve ser lançada em breve, e também está escrevendo um novo thriller policial .

Para quem é (e para quem não é) este livro

Recomendado para:

  • Fãs de distopias que acham que já viram de tudo — Colapso vai te surpreender pela crueza e pela ambientação brasileira
  • Leitores que gostam de violência realista, sem maquiagem, sem heroísmo
  • Quem curte Mad Max, The Walking Dead, Fallout, A Estrada — o livro dialoga com todas essas referências, mas tem voz própria 
  • Pessoas que não têm medo de se sentir desconfortáveis com uma leitura
  • Quem valoriza a literatura brasileira de gênero e quer conhecer um dos nomes mais promissores do país

Não recomendado para:

  • Pessoas com estômago fraco — o livro contém cenas explícitas de violência física, violência sexual, canibalismo e crueldade contra animais 
  • Quem está passando por um momento emocional frágil — a desesperança do livro pode pesar ainda mais
  • Leitores que preferem narrativas lineares com explicações claras sobre a origem do caos — Denser não explica o Marco Zero, e isso pode frustrar quem gosta de respostas prontas
  • Quem não gosta de finais abertos ou ambíguos — sem spoiler, mas prepare-se para refletir

Veredito final

Colapso é um livro que te arrasta para o fundo do poço e não te dá uma corda para subir. Ele te mostra o pior da humanidade sem pedir licença, sem suavizar, sem dar esperança falsa.

Mas, paradoxalmente, é também um livro sobre esperança. Não aquela esperança boba de que “tudo vai ficar bem”. Mas aquela esperança teimosa de que, mesmo no fundo do poço, ainda existe algo humano — ainda existe afeto, lealdade, cuidado. Pequenos gestos que, num mundo que desaprendeu a ser humano, são nada menos que revolucionários.

Roberto Denser não escreve para confortar. Escreve para confrontar. E Colapso é um confronto que vale a pena ter — mesmo que você precise respirar fundo várias vezes antes de virar a página.

Como uma leitora disse: “é o livro mais pesado que já li, mas é também um dos mais importantes” . Porque a literatura, no seu melhor, não é sobre nos fazer sentir bem. É sobre nos fazer pensar.

Colapso faz pensar. Sobre o mundo. Sobre os outros. Sobre a gente mesmo. E sobre o que a gente faria se o céu deixasse de ser azul.

Você está pronto para descobrir?


Ficha Técnica:

ItemInformação
TítuloColapso
AutorRoberto Denser
EditoraDarkSide Books
Páginas448
Ano2023 (original: 2015)
ISBN978-6555983449
GêneroDistopia / Ficção Pós-Apocalíptica / Horror
FormatoCapa dura

E aí, você vai encarar o Colapso? Me conta nos comentários: você já tinha ouvido falar de Roberto Denser ou é a primeira vez? E se já leu, qual foi a cena que mais te marcou — e como você fez para digerir tanta brutalidade? Vamos trocar uma ideia (e talvez uns traumas compartilhados).

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