Jantar Secreto: violência, pacto e o preço da sobrevivência

Sabe aquela sensação de estar num restaurante chique, daqueles com cardápio em francês e garçons de gravata borboleta, e de repente bater aquela curiosidade mórbida: “o que é que tem realmente nesse prato?” A carne é macia demais. O sabor é… diferente. Mas você não pergunta. Apenas come. E paga caro por isso.

Jantar Secreto, de Raphael Montes, é exatamente essa curiosidade transformada em pesadelo. Só que, em vez de um restaurante, é um apartamento em Copacabana. Em vez de chefs estrelados, são quatro amigos quebrados tentando sobreviver. E, em vez de cordeiro ou filé mignon, o prato principal é algo que a gente nem ousa nomear.

Publicado em 2016 pela Editora Companhia das Letras, o livro é um marco na literatura de suspense nacional. Mais de 100 mil exemplares vendidos , uma legião de fãs, adaptações para o cinema em negociação e um lugar garantido nas listas de “livros mais perturbadores que você vai ler na vida”. E, agora, uma tese de mestrado da Universidade Federal de São João del-Rei já foi dedicada a estudar sua crítica social e seu uso do canibalismo como ferramenta literária .

Mas o que faz Jantar Secreto ser tão especial? Por que ele continua sendo um fenômeno quase dez anos depois? E, mais importante: você tem estômago para encarar?

Vamos descobrir. Mas, se me permite um conselho: não leia com fome.

jantar secreto
Crédito: Companhia das Letras

O cardápio: do que se trata essa história?

A história começa com quatro amigos que deixam a pequena cidade de Pingo D’água, no interior do Paraná, para tentar a vida no Rio de Janeiro Dante (nosso narrador), LeitãoHugo e Miguel são jovens cheios de sonhos: vão estudar, trabalhar, construir uma carreira, conquistar o sucesso que tanto almejam.

Eles alugam um apartamento em Copacobana. No começo, tudo vai bem. Mas, como nem tudo são flores, as dificuldades começam a aparecer. O dinheiro fica curto. Os empregos são ruins. E o aluguel — ah, o aluguel — está vencido há seis meses .

A culpa é de Leitão, o mais nerd do grupo, um hacker brilhante que, em vez de pagar as contas, gastou toda a grana com Cora, uma prostituta por quem se apaixonou perdidamente . A briga entre os quatro é feia. A situação é desesperadora. Eles precisam de uma grande quantia de dinheiro em pouco tempo, ou serão despejados.

É então que Hugo, o chef de cozinha frustrado, tem uma ideia: que tal organizar jantares secretos para a elite carioca? Jantares chiques, divulgados pela internet, com cardápio sofisticado e preço de milhares de reais por pessoa .

Eles criam o site “JantarSecreto.com” . Tudo corre bem até que, em uma brincadeira infeliz, Leitão divulga que o cardápio, ao invés de carnes tradicionais, será servido com carne humana. O anúncio é tirado do ar instantes depois, mas é tarde demais: o número de interessados é impressionante .

A partir daí, começa o primeiro grande dilema moral do livro: realizar o jantar com carne humana e sair da dívida, ou agir “corretamente” e arriscar o despejo?

Eles tomam a decisão que você já imagina. Mas uma pergunta fica no ar: como conseguir carne humana? Como fazer os cortes? Como manter o segredo? E, mais importante: depois que você começa, onde para?

Jantar Secreto é sobre essa espiral de crimes, sobre a rede de contrabando de corpos, sobre matadouros clandestinos, sobre grã-finos excêntricos que pagam fortunas por algo que ninguém deveria querer. E, acima de tudo, é sobre o que acontece quando quatro pessoas comuns descobrem que dentro de si existe uma índole perversa que jamais imaginaram ter .

Os personagens: a receita para o desastre

O que torna Jantar Secreto tão poderoso é que não há heróis aqui. Há apenas pessoas comuns, com sonhos comuns, que tomam uma decisão errada e se veem presas em um pesadelo que não conseguem mais controlar.

Dante, o narrador, é o nosso guia nesse inferno. Ele é gay, estudou administração, trabalha como livreiro em uma livraria no Leblon e vive frustrado pela falta de realização profissional . É o mais próximo de um “herói” que o livro tem — mas, como você vai descobrir, mesmo ele não está imune à podridão que se instala.

Hugo é o chef de cozinha. Personalidade forte, egocêntrica, é o cérebro por trás dos jantares. A cozinha é seu reino, e a carne humana é sua tela. Aos poucos, ele vai perdendo o controle — não das panelas, mas de si mesmo .

Leitão é o mais nerd. Sabe tudo sobre tecnologia, é o responsável pela parte burocrática dos jantares (as reservas são feitas pela internet) . Mas ele também carrega um peso: é obeso, e seu passado com a mãe — que morreu quando ele era jovem, em circunstâncias que o marcaram profundamente — o deixou cheio de traumas. Tão profundos que ele às vezes age como se ela ainda estivesse viva, em um estilo que lembra Norman Bates, de Psicose .

Miguel é o mais certinho. Médico, sensato, responsável. É ele quem tenta nadar contra a maré, quem vê que aquilo não vai dar certo, quem tenta convencer os outros a parar. Mas Miguel também tem seus motivos: sua mãe está fazendo tratamento de câncer, e o dinheiro é a única coisa que pode salvá-la .

O que esses quatro têm em comum? São pessoas comuns. Não são monstros. Não são psicopatas. São jovens quebrados, desesperados, que tomaram uma decisão errada e descobriram que não há botão de voltar. E é exatamente essa banalidade que torna tudo tão aterrorizante.

O que o livro faz de melhor (e por que ele vai grudar na sua cabeça)

A escrita: bisturi na mão, sangue no papel

Uma das primeiras coisas que os leitores notam em Jantar Secreto é a fluidez da narrativa. Raphael Montes escreve de forma direta, moderna, usando gírias, memes, prints de WhatsApp e até mesmo a linguagem da internet para se conectar com o leitor . O livro tem um capítulo inteiro composto apenas por diálogos de WhatsApp — e funciona.

A resenha do blog Dicas do Jess, na Amazon, destaca: “A história é contada de maneira fluente e descontraída, uma vez que ela é contada por jovens que moram no Rio de Janeiro. Não há como ser mais descontraído e legal que isso” .

Mas não se engane: a fluidez não significa superficialidade. Cada página é uma incisão precisa na carne da hipocrisia humana . Montes não tem pressa, mas também não enrola. Ele vai direto ao ponto, e o ponto é sempre desconfortável.

O terror que vem de dentro (não de fora)

Jantar Secreto não tem fantasmas, não tem assombrações, não tem elementos sobrenaturais. O horror, aqui, é humano, doméstico, visceral. É o que uma pessoa é capaz de fazer com outra quando o dinheiro aperta, quando a ambição fala mais alto, quando a fome — não só de comida, mas de poder, de status, de sucesso — consome tudo.

Uma leitora resumiu bem: “O ponto principal, a meu ver, é vermos o quão ruim e cruel o ser humano consegue ser, a ponto de, na ânsia de obter mais lucro e poder, não medir esforços para realizar as atitudes mais violentas possíveis” .

E o mais perturbador é que não há como apontar o dedo. Porque, no fundo, você sabe que, no lugar deles, talvez fizesse o mesmo. Ou, pelo menos, entenderia quem fizesse.

A crítica social que dói porque é real

Por baixo do sangue e do horror, Jantar Secreto é uma crítica mordaz à sociedade contemporânea. À desigualdade que faz com que alguns paguem 3 mil reais por um jantar enquanto outros não têm o que comer. Ao consumismo que transforma tudo — inclusive corpos — em mercadoria. Ao elitismo que disfarça o grotesco sob a máscara da sofisticação .

A tese de mestrado da UFSJ sobre o livro destaca exatamente isso: a obra é um estudo de caso sobre como o canibalismo pode ser usado para denunciar a necropolítica promovida pelos sistemas neoliberais, onde algumas vidas valem menos que outras, onde o corpo do outro é apenas mais um recurso a ser explorado .

Rubem Fonseca é citado como uma forte influência de Montes — e quem leu Feliz Ano Novo vai reconhecer imediatamente a pegada: a violência como linguagem, a crítica social como motor, a exposição da podridão que se esconde por trás da fachada da “boa sociedade” .

As reviravoltas que te deixam sem fôlego

Uma das marcas registradas de Raphael Montes é a capacidade de entregar reviravoltas que você não vê chegar. Em Jantar Secreto, isso não é diferente. O final, em particular, é descrito por leitores como “de cair o queixo” .

Uma leitora da Amazon confessou: “O autor deixa leves vestígios durante a obra (vestígios que eu não notei kkk) sobre o plot final, adorei” .

Outra leitora, no blog Ensaios da Nega, disse que o livro é “uma experiência visceral. Te faz fechar o livro, olhar pro teto e digerir mais do que só a trama — digerir o que ela diz sobre nós, sobre o mundo, sobre os apetites disfarçados de sofisticação” .

É claro que há quem ache o final previsível. Uma avaliação crítica da Amazon aponta: “Não achei o plot totalmente imprevisível, inclusive, já havia suspeitado do final” . Mas, para a maioria, a surpresa é garantida.

O que pode te incomodar (e é bom saber antes)

Jantar Secreto não é um livro para todos. É bom que você saiba no que está se metendo.

Os gatilhos (e são muitos)

O livro contém cenas explícitas de:

  • Canibalismo (descrições gráficas de preparo e consumo de carne humana)
  • Violência física e tortura
  • Assassinato
  • Uso de drogas
  • Gordofobia (Leitão sofre preconceito por seu peso)
  • Sequestro
  • Cenas de sexo explícito (incluindo orgias e relações casuais descritas sem filtros) 

A Biblioteca da UFRJ, em sua resenha, fez questão de colocar um alerta em letras garrafais: “ESTE LIVRO POSSUI GATILHOS E CONTEÚDOS SENSÍVEIS” . E não é exagero.

Uma leitora do blog Ensaios da Nega descreveu a experiência como “uma leitura para os fortes — e talvez até praqueles que já perderam um pouco da fé na humanidade” .

Outra leitora, na Amazon, foi mais direta: “Não posso negar que a leitura desse livro foi pesada e que tiveram muitos temas abordados que podem causar gatilhos (e infelizmente, não foram mencionados), mas o livro é um thriller e como tal, as cenas gore e bizarras podem surgir” .

Se você tem sensibilidade a esses temas, talvez seja melhor deixar este livro para outra hora. Mas, se você já conhece o estilo de Raphael Montes e está preparado para o desconforto, vai encontrar ali uma obra que não vai te largar tão cedo.

O ritmo e as escolhas narrativas

Alguns leitores apontam que certas partes da história são “inverossímeis” ou que o desenvolvimento psicológico dos personagens é “superficial” demais . Uma avaliação crítica mencionou: “O dinamismo da trama acabou ao meu ver deixando muito corrido as questões psicológicas e emocionais dos personagens, muito superficiais, a resolução dos conflitos também” .

Outro leitor, do blog Ler ou não ser, apontou: “Tem pontas da história de suspense que parecem soltas, não há uma preocupação em deixar tudo redondo” . A mesma resenha sugere que, talvez, por ser uma trama de dimensões ousadas, o autor tenha optado por deixar algumas coisas em aberto.

O uso de aspas nos diálogos

Um detalhe que pode incomodar leitores acostumados com travessões: o livro usa aspas para indicar diálogos, como é comum na literatura em inglês . Para alguns, isso não faz diferença; para outros, pode estranhar no início.

O que os leitores estão achando

As avaliações de Jantar Secreto são, em sua maioria, entusiásticas — mas com ressalvas.

No Mercado Livre, o livro tem mais de 10 mil vendas e uma avalanche de avaliações positivas . Na Amazon, a média é de 4,7 estrelas com mais de 15 mil avaliações .

Uma leitora deu 5 estrelas e escreveu: “Livro ótimo, prende a atenção, e é maravilhoso conhecer a vida de cada personagem tão a fundo. Cada página a incredulidade aumenta, amei. (Cuidado, pode ser pesado, mas é ÓTIMO)” .

Outra leitora, no blog Ensaios da Nega, disse: “Raphael Montes não escreve com caneta, ele escreve com bisturi. Cada capítulo é uma incisão precisa na carne da hipocrisia humana. A narrativa é ágil, ácida, incômoda — daquelas que a gente lê com os olhos arregalados, às vezes sem nem perceber que está prendendo a respiração” .

Já uma resenha do blog Jardim de Mil Histórias foi ainda mais enfática: “Este é, provavelmente, dos livros mais macabros que já li na vida. Um livro que nos perturba, choca e faz pensar” .

No entanto, há quem tenha ficado com um gosto agridoce. Uma leitora da Amazon que deu 3 estrelas disse: “Confesso que acabei lendo o livro pelo hype na internet, e esperava mais da obra. Não achei o plot totalmente imprevisível” . Outro leitor, do blog Ler ou não ser, completou: “Eu gostei da história… mas não é um livro impressionantemente bom” .

O consenso parece ser: Jantar Secreto é uma experiência única, perturbadora e inesquecível — mas não é um livro para todos. Se você tem estômago para o horror e mente aberta para a crítica social, vai encontrar ali um dos melhores thrillers nacionais já escritos.

Raphael Montes: o mestre do suspense nacional

Se tem um nome que já é garantia de estômago revirado na literatura brasileira, esse nome é Raphael Montes. Nascido no Rio de Janeiro em 1990, o autor estreou em 2012 com Suicidas, um romance que já nasceu clássico e o consagrou como um dos nomes mais promissores do suspense nacional .

Depois vieram Dias Perfeitos (2014), O Vilarejo (2019), Uma Mulher no Escuro (2019) e, claro, Jantar Secreto. Além da literatura, Montes também é roteirista — escreveu a novela Beleza Fatal para a Max e foi um dos criadores da série Bom dia, Verônica, da Netflix .

O que torna Montes tão único é sua capacidade de transformar o cotidiano em algo aterrorizante. Ele não precisa de elementos sobrenaturais para criar horror. O horror, em seus livros, é humano, doméstico, visceral. É o que uma pessoa é capaz de fazer com outra quando a sobrevivência — ou a ambição — fala mais alto.

Em Jantar Secreto, essa característica atinge seu ápice. Como uma leitora disse, “o autor é a prova viva que a literatura nacional tem sim, livros de qualidade” .

A edição da Companhia das Letras: o que você precisa saber

Jantar Secreto está disponível no Brasil pela Editora Companhia das Letras em formato brochura, com 368 páginas . A capa é branca, com bordas das páginas vermelhas — um detalhe que os leitores adoram . O livro foi publicado em 2016 e continua em catálogo, sendo reeditado regularmente.

A classificação indicativa é 18 anos — e é para levar a sério .

Para quem é (e para quem não é) este livro

Recomendado para:

  • Fãs de Raphael Montes que querem ler um de seus livros mais ousados e aclamados
  • Leitores de thrillers psicológicos que apreciam narrativas tensas, personagens moralmente ambíguos e reviravoltas surpreendentes
  • Quem gosta de histórias que provocam reflexão sobre moralidade, consumo e desigualdade social
  • Leitores que não têm medo de se sentir desconfortáveis e que estão dispostos a encarar temas pesados
  • Quem quer ler um autor nacional que já é consagrado no gênero — Raphael Montes é unanimidade quando se fala em suspense brasileiro

Não recomendado para:

  • Pessoas sensíveis aos gatilhos mencionados — canibalismo, violência explícita, abuso, gordofobia
  • Leitores que preferem narrativas leves e escapistas — este livro é o oposto disso
  • Quem se incomoda com protagonistas moralmente ambíguos — não há heróis aqui
  • Leitores que buscam um final totalmente fechado e explicativo — algumas pontas ficam soltas, propositalmente ou não 

Veredito final: um livro para ler com estômago forte (e mente aberta)

Jantar Secreto não é um livro fácil. Não é um livro confortável. Não é um livro que você termina com um sorriso no rosto e uma sensação de que tudo está bem. É o oposto disso.

É um livro que te arrasta para o fundo do poço e te deixa lá, olhando para cima, tentando entender como a gente chegou até ali. É um livro sobre o pior que há no ser humano — a ambição desmedida, a falta de escrúpulos, a capacidade de normalizar o horrível. Mas é também, paradoxalmente, um livro sobre sobrevivência: sobre o que a gente faz quando as contas não fecham, quando os sonhos desmoronam, quando a única saída parece ser a que ninguém deveria cogitar.

Raphael Montes nos coloca no lugar de Dante, de Hugo, de Leitão, de Miguel. E, de repente, o horror não está lá fora, no monstro que a gente não conhece. Está aqui dentro, na pessoa comum que poderia ser você, que poderia ser eu, que poderia ser qualquer um.

Uma leitora resumiu bem: “É uma experiência que faz você fechar o livro, olhar pro teto e digerir mais do que só a trama — digerir o que ela diz sobre nós, sobre o mundo, sobre os apetites disfarçados de sofisticação” .

Então, se você está disposto a encarar, vai em frente. Mas, se me permite um conselho: não leia com fome. E, quando terminar, me conta: você ainda vai olhar para um bife do mesmo jeito?


Ficha Técnica:

ItemInformação
TítuloJantar Secreto
AutorRaphael Montes
EditoraCompanhia das Letras
Páginas368
Ano2016
ISBN978-8535928358
GêneroThriller Psicológico / Suspense / Horror
FormatoBrochura
Classificação etária18 anos
PrêmiosMais de 100 mil exemplares vendidos

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