
Você já imaginou encontrar um cadáver impecavelmente vestido, sentado em uma praia, com um cigarro meio fumado na gola do paletó, e nenhum documento que pudesse identificá-lo? Agora adicione a isso um bilhete com uma palavra em persa escondido em um bolso secreto da calça, um código indecifrável rabiscado na contracapa de um livro de poemas, e uma mulher que jura nunca ter visto o morto — mas que quase desmaia quando confrontada com seu rosto.
Pois bem-vindo ao caso Taman Shud — ou, como também é conhecido, o mistério do Homem de Somerton.
Considerado por muitos um dos maiores enigmas não resolvidos do século XX, essa história tem tudo o que um bom mistério precisa: espionagem da Guerra Fria, amores proibidos, poemas persas, um código que resistiu aos maiores criptógrafos do mundo, e um corpo que permaneceu sem nome por mais de 70 anos. Senta confortável, pega um café — porque essa conversa vai ser longa, e no final, você vai estar tão obcecado quanto os milhares de detetives amadores que tentaram, e ainda tentam, desvendar esse caso.

Era uma manhã quente de verão em Adelaide, na Austrália. Por volta das 6h30, alguns banhistas que passeavam pela Praia de Somerton, no subúrbio de Glenelg, fizeram uma descoberta que os acompanharia pelo resto da vida .
Ali, encostado no muro de contenção que separava a areia da vegetação, estava um homem aparentemente dormindo. Mas não era sono. Quando as autoridades chegaram, encontraram um corpo em perfeito estado de conservação — tão bem arrumado que mais parecia um manequim de loja do que um cadáver .
Vamos aos detalhes, porque eles são fundamentais para entender por que esse caso enlouqueceu investigadores por décadas.
O homem aparentava ter entre 40 e 45 anos. Media 1,80m, tinha cabelos louros ou levemente ruivos (as descrições variam), olhos castanhos, e estava em excelente forma física — ombros largos, cintura fina, músculos da panturrilha muito desenvolvidos . Vestia um terno marrom de boa qualidade, camisa branca, gravata vermelha e azul, meias e sapatos marrons. Usava ainda um suéter de lã tricotado e um casaco europeu cinza e marrom . Tudo impecável.
E tudo sem etiquetas. Todas as etiquetas das roupas haviam sido cuidadosamente removidas .
No bolso, os investigadores encontraram itens curiosos: uma passagem de ônibus usada, uma passagem de trem não utilizada, um pente de alumínio americano, um pacote meio vazio de chicletes Juicy Fruit, um maço de cigarros Army Club — mas contendo cigarros da marca Kensitas — e uma caixa de fósforos . Ah, e um cigarro meio fumado estava apoiado na gola do paletó, preso pelo queixo do homem . Outro cigarro, não aceso, estava atrás de sua orelha.
Mas o que realmente chamou a atenção estava escondido. Em um bolso secreto da calça — daqueles que os alfaiates colocavam em calças de alta qualidade para guardar objetos de valor — os legistas encontraram um pequeno pedaço de papel enrolado . Nele, duas palavras escritas à mão:
“Tamám Shud”
Em persa, tamám shud (تمام شد) significa “está terminado” ou “acabou” . A frase aparece no final do Rubaiyat, a famosa coletânea de poemas do poeta persa do século XI Omar Khayyam — a mesma obra que inspiraria, séculos depois, Edward FitzGerald a fazer uma das traduções mais celebradas da literatura inglesa .
A polícia rapidamente identificou a origem do papel: ele havia sido arrancado da última página de uma edição rara do Rubaiyat. Mas onde estava o livro?
Em uma jogada de mestre, os investigadores divulgaram publicamente a descoberta, pedindo que quem tivesse um exemplar do livro com a última página faltando se manifestasse. E funcionou. Um homem apareceu com uma cópia que havia sido encontrada jogada no banco de trás de seu carro — abandonada perto da praia de Somerton, exatamente na época em que o corpo foi descoberto .
Agora a polícia tinha o livro. E dentro dele, dois achados que transformariam o caso em um fenômeno global.
Primeiro: na contracapa, um número de telefone. Segundo: abaixo do número, cinco linhas de letras maiúsculas escritas a lápis, em um padrão que parecia um código. Algumas letras foram escritas com traços mais fortes, como se tivessem sido pressionadas por um lápis ao escrever em uma página acima . O código era o seguinte:
text
MRGOABABD MTBIMPANETD MLIABOAIAQC ITTMTSAMSTGAB
A terceira linha, curiosamente, estava rasurada — riscada de forma que ainda era possível ler as letras originais .
A descoberta do código foi como um chamado aos quatro cantos do mundo para criptógrafos, matemáticos e curiosos. Por décadas, eles tentaram, e todos falharam.
A lista de quem tentou decifrar as cinco linhas é impressionante. Incluiu a NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), a inteligência britânica do Bletchley Park — os mesmos que quebraram o código da máquina Enigma na Segunda Guerra — e uma legião de especialistas independentes . Ninguém conseguiu produzir uma tradução que fizesse sentido.
O problema? O código não se comporta como nenhum idioma conhecido. As frequências das letras não batem com as do inglês, nem com qualquer outra língua europeia. Não há repetições de palavras que permitam identificar padrões. Não há vogais em excesso nem consoantes isoladas. É uma sequência tão bizarra que alguns chegaram a sugerir que poderia ser um código de uma só vez — um “one-time pad” — teoricamente indecifrável sem a chave .
Esse fracasso alimentou a teoria mais sexy de todas: o Homem de Somerton era um espião.
E por que não? O corpo apareceu em 1948, no auge do início da Guerra Fria. A Austrália era um aliado-chave dos Estados Unidos e do Reino Unido. A inteligência soviética estava ativa em todo o mundo. Um homem sem identidade, vestindo roupas sem etiquetas, portando um código secreto? A conclusão parecia óbvia. Alguns até sugeriram que ele poderia ter sido envenenado por um agente inimigo com uma toxina indetectável — o que explicaria por que os legistas não encontraram veneno em seu corpo, mesmo tendo certeza de que ele não morreu de causas naturais .
O patologista responsável, Dr. Dwyer, não tinha dúvidas: a morte não foi natural. Mas ele não conseguia provar.
Os exames revelaram que o homem havia comido um pastel de carne cerca de três a quatro horas antes de morrer . Seu estômago estava profundamente congestionado, com sangue misturado aos alimentos. O baço estava três vezes maior que o normal. O fígado e os rins também mostravam sinais de congestão intensa .
Dwyer concluiu que a causa mais provável era envenenamento por barbitúrico ou algum hipnótico solúvel — uma classe de substâncias que, em 1948, era difícil de detectar em exames toxicológicos de rotina . O que ele não conseguiu determinar foi como o veneno entrou no corpo. O pastel foi analisado, e não continha nada anormal.
E havia outro detalhe: o homem estava impecavelmente limpo. Seus sapatos não tinham areia — estranho para alguém que teria caminhado pela praia. Seu corpo também não apresentava sujeira ou marcas de ter se sentado na areia . Isso levantou a suspeita de que ele pode ter sido colocado ali já morto, ou que foi morto em outro local e transportado para a praia.
Com as pistas esgotadas, a polícia fez o que qualquer investigador faria: ligou para o número de telefone encontrado no livro.
O número pertencia a uma enfermeira chamada Jessica Thomson (nascida Jessica Harkness), que morava nas proximidades da Praia de Somerton . Quando os policiais a interrogaram, ela negou veementemente conhecer o homem. Disse que nunca tinha visto aquele rosto antes na vida.
Mas aí veio o momento decisivo.
Os investigadores levaram Jessica para ver um busto de gesso do rosto e ombros do morto — uma peça que havia sido feita pela polícia para auxiliar na identificação . Segundo os relatos, ao ver o busto, Jessica teve uma reação tão forte que quase desmaiou. Ela ficou visivelmente abalada, mas recusou-se a dar qualquer explicação .
A polícia estava convencida de que ela sabia quem era o homem. Mas sem provas, sem confissão, e sem qualquer crime aparente além da morte misteriosa, eles não podiam forçá-la a falar.
O caso parecia ter chegado a um beco sem saída. Até que, nos anos seguintes, uma nova pista surgiu — vinda de um lugar inesperado.
Jessica Thomson tinha um filho chamado Robin. Ele nasceu em 1947 — um ano antes do corpo aparecer na praia .
Os investigadores notaram algo estranho: Robin tinha uma característica física rara que também estava presente no Homem de Somerton. Ambos tinham incisivos superiores ausentes e um formato específico nas orelhas — uma condição genética incomum .
A suspeita surgiu imediatamente: Robin era filho do desconhecido?
A teoria ganhou força quando descobriram que Jessica não era casada na época do nascimento de Robin. O pai nunca foi identificado. E quando Robin cresceu, ele se tornou bailarino profissional — o que chamou a atenção porque o Homem de Somerton tinha panturrilhas extremamente desenvolvidas, um traço comum em bailarinos treinados .
Um pesquisador chegou a comentar: “Bailarinos treinados tendem a ter músculos da panturrilha muito marcados — muito mais do que corredores ou ciclistas” . A coincidência era impressionante.
Mas Jessica nunca admitiu nada. Ela levou seu segredo para o túmulo.
Enquanto isso, outra peça do quebra-cabeça havia aparecido. Em 14 de janeiro de 1949, funcionários da estação ferroviária de Adelaide encontraram uma maleta marrom no depósito de bagagens . Ela havia sido deixada ali em 30 de novembro de 1948 — um dia antes de o corpo ser encontrado.
Dentro da maleta, mais roupas com todas as etiquetas removidas, um rolo de linha encerada que não era vendido na Austrália (mas que correspondia ao tipo usado para fazer um reparo nas calças do morto), e alguns itens com os nomes “Keane” ou “Kean” escritos .
A polícia estava certa de que a maleta pertencia ao Homem de Somerton. Mas a pista não levou a lugar nenhum. Nenhum “Keane” desaparecido foi encontrado na época.
Em meio a tantos becos sem saída, um parecia promissor. Quando questionada novamente, Jessica Thomson admitiu que durante a guerra conhecera um oficial chamado Alf Boxall e que havia lhe dado um exemplar do Rubaiyat .
A polícia ficou eletrificada. Se o livro de Boxall tivesse a última página faltando, ele poderia ser o Homem de Somerton.
Boxall foi localizado. Ele estava vivo e bem — trabalhando como mecânico de ônibus . E mais: ele ainda tinha o livro que Jessica lhe dera. Todas as páginas estavam intactas. O bilhete “Tamám Shud” estava no bolso do morto, não no livro de Boxall.
A pista estava morta.
Por mais de 70 anos, o Homem de Somerton permaneceu sem nome. Seu túmulo no Cemitério West Terrace, em Adelaide, tinha uma lápide simples: “Aqui jaz o homem desconhecido que foi encontrado na Praia de Somerton” .
Até que, em 2022, a ciência fez o que décadas de investigação não conseguiram.
O professor Derek Abbott, da Universidade de Adelaide, passou anos obcecado pelo caso. Ele obteve fios de cabelo que estavam preservados no busto de gesso feito pela polícia em 1949 — fios que pertenciam ao Homem de Somerton .
Abbott se uniu à especialista forense americana Colleen Fitzpatrick, e juntos eles usaram técnicas avançadas de análise de DNA para construir uma árvore genealógica gigantesca. De cerca de 4.000 nomes, eles chegaram a um .
O Homem de Somerton se chamava Carl “Charles” Webb .
Webb nasceu em 1905 em Footscray, um subúrbio de Melbourne, na Austrália. Era o mais novo de seis irmãos. Trabalhava como engenheiro eletricista e fabricante de instrumentos — um homem de mente técnica e sistemática . Ele se casou com Dorothy Robertson, conhecida como “Doff”, mas o casamento não deu certo. Em algum momento, Dorothy se mudou para Adelaide, e é provável que Carl a tenha seguido .
A teoria mais aceita hoje é que Carl Webb estava em Adelaide procurando por Dorothy — ou talvez por Jessica Thomson, com quem teria tido um caso durante a guerra . Sua morte, aos 43 anos, permanece um mistério. Mas a identidade, finalmente, não mais.
Com a identidade descoberta, uma nova análise do enigmático código surgiu — e ela pode mudar tudo o que pensávamos sobre o caso.
A pesquisadora Nicole Tracey propôs uma abordagem revolucionária: e se o “código” não for um código?
Sua hipótese é a seguinte: Carl Webb era engenheiro eletricista, um homem acostumado a pensar em sistemas e abreviações. As letras no livro podem não ser uma mensagem cifrada, mas sim as iniciais de lugares — um registro sistemático de suas buscas pela região de Adelaide .
A análise estatística corrobora essa ideia. Quando as frequências das letras no código são comparadas com as frequências das iniciais das estações de trem australianas da década de 1940, a correspondência é muito melhor do que com qualquer idioma natural .
E a interpretação da primeira linha é fascinante:
M — Marino (base de Webb, um subúrbio costeiro a 7,8 km de Glenelg)
R — Reynella (5,4 km)
G — Glenelg (7,8 km) — onde Jessica Thomson morava
O — Onkaparinga (8,2 km)
A — Adelaide (15,7 km)
B — Brighton (3,5 km)
A — Aldinga (23,5 km)
B — Blackwood (8,9 km)
D — Darlington (7,2 km)
O padrão mostra uma busca metódica que começa em Marino, passa por Glenelg (o alvo principal), se expande para Adelaide e depois retorna. Isso é exatamente o que se esperaria de alguém procurando uma pessoa específica.
As outras linhas do código podem representar diferentes percursos de busca. A terceira linha, riscada, talvez tenha sido um erro. E a sequência “AQC” na última linha? Pode ser “Adelaide Quarantine Station” (Estação de Quarentena de Adelaide) — um lugar acessível por trem em 1948, e que poderia ter alguma conexão com Dorothy ou Jessica .
Se essa interpretação estiver correta, o “código” não era uma mensagem secreta para espiões. Era algo muito mais humano: as anotações de busca de um homem solitário tentando encontrar alguém que amava — ou que perdeu.
Essa é a pergunta que ainda não tem resposta.
A hipótese de envenenamento continua sendo a mais forte. Os achados da autópsia — baço aumentado, congestão hepática, sangue no estômago — são consistentes com intoxicação por barbitúricos ou outros sedativos . Mas Webb pode ter ingerido o veneno acidentalmente? Ou propositalmente?
Alguns acreditam em suicídio. O bilhete “Tamám Shud” — “está terminado” — certamente soa como uma nota de despedida. Webb estava separado da esposa, possivelmente sem trabalho, e pode ter perdido a esperança de reencontrar quem procurava.
Outros ainda especulam sobre um assassinato. Sua ligação com Jessica Thomson — que se recusou a falar — nunca foi totalmente explicada. Se ele era o pai de Robin, por que ela mentiu? E por que quase desmaiou ao ver o busto do morto?
A verdade é que, mesmo com a identidade revelada, o motivo da morte de Carl Webb permanece um mistério. A polícia da Austrália Meridional exumou seu corpo em 2021 para novas análises toxicológicas . Os resultados, até onde se sabe, não foram divulgados.
O caso Taman Shud é, hoje, um dos mais famosos mistérios não resolvidos da história . Ele já foi tema de livros, documentários, podcasts e artigos incontáveis. Em 2009, uma equipe de pesquisa fez uma tentativa de análise de DNA que não foi adiante por falta de consentimento dos descendentes .
Em 2022, o mistério da identidade foi resolvido. Mas o que aconteceu naquela noite de novembro de 1948? Por que Carl Webb, um engenheiro eletricista de Melbourne, viajou para Adelaide? Ele foi encontrar Dorothy, Jessica, ou ambas? Ele foi envenenado? Ele se matou? O “código” realmente era apenas uma lista de lugares?
Essas perguntas podem nunca ser respondidas.
O túmulo de Carl Webb ainda está no Cemitério West Terrace de Adelaide. A lápide original — “o homem desconhecido” — foi substituída após a identificação em 2022. Mas todos os anos, alguém ainda deixa uma rosa vermelha sobre a sepultura .
Quem é essa pessoa? Talvez um descendente. Talvez alguém que, assim como tantos de nós, foi cativado por essa história de mistério, amor e morte.
Depois de ler essa história, o que você acha? Carl Webb era um espião da Guerra Fria, como tantos especularam por décadas? Ou era apenas um homem comum com um passado complicado, que terminou seus dias sozinho em uma praia australiana?
E o “código” — você acredita na teoria das estações de trem, ou ainda há uma mensagem cifrada esperando para ser descoberta?
Conta aqui nos comentários. Adoro um bom papo sobre mistérios reais — e esse, com certeza, é um dos maiores que já contei.






