
Você já se pegou assistindo a um documentário e, em determinado momento, percebeu que não conseguia mais distinguir fato de ficção, verdade de teoria da conspiração, vítima de vilão? Pois é exatamente essa sensação desconfortável — e viciante — que “Assassinato em Mônaco” provoca. A nova produção original da Netflix, que estreou em dezembro de 2025, mergulha em um dos casos mais bizarros e menos conhecidos do crime mundial: a morte misteriosa do bilionário banqueiro Edmond Safra, ocorrida em 1999 no coração do principado mais rico da Europa .
Se você é fã de true crime, daqueles que devoram Tiger King, The Jinx e todas as teorias conspiratórias que acompanham esses casos, prepare-se. Porque “Assassinato em Mônaco” não é apenas mais um documentário sobre um assassinato. É um estudo de caso sobre o próprio gênero — sobre como narrativas são construídas, sobre quem tem o direito de contar uma história e sobre o que acontece quando um diretor se torna parte da trama. Pega um café, senta confortável. Porque essa conversa vai ser longa e cheia de reviravoltas — assim como o filme.

A história começa com um cenário que parece saído de um filme de espionagem. Estamos em Mônaco, 3 de dezembro de 1999. No topo do edifício Belle Époque, um dos prédios mais luxuosos do principado, fica a cobertura de 1.000 metros quadrados de Edmond Safra .
Safra não era apenas rico. Ele era um dos banqueiros mais poderosos do mundo — um bilionário libanês naturalizado brasileiro que construiu um império financeiro atendendo outras pessoas extremamente ricas . Sua fortuna estimada era de bilhões de dólares. Seus clientes incluíam celebridades, oligarcas russos e as famílias mais abastadas do planeta. E, como todo bom bilionário, Safra vivia cercado por um esquema de segurança digno de um chefe de Estado.
Só que naquela madrugada de dezembro, algo deu terrivelmente errado.
Um incêndio irrompeu na cobertura. Safra e sua enfermeira filipina, Vivian Torrente, se refugiaram em um quarto do pânico — um cômodo à prova de balas projetado para protegê-los de qualquer ameaça. Mas o que deveria ser o lugar mais seguro do apartamento se tornou sua tumba. Eles morreram por inalação de fumaça enquanto aguardavam o resgate .
A esposa de Safra, Lily Safra (também brasileira, natural de Porto Alegre), conseguiu escapar com vida .
A pergunta que ecoou pelo mundo naquele fim de ano foi: o que aconteceu? E a resposta, ao longo dos anos seguintes, se revelaria tão absurda quanto trágica.
O foco das investigações recaiu rapidamente sobre um dos enfermeiros de Safra, um americano chamado Ted Maher .
A história que Maher contou inicialmente era dramática: segundo ele, dois homens encapuzados haviam invadido a cobertura. Maher foi esfaqueado duas vezes. Para chamar a atenção e alertar as autoridades, ele ateou fogo a um cesto de lixo — o que deveria ativar os alarmes de incêndio e trazer ajuda. O plano, em teoria, era salvar Safra e se tornar um herói aos olhos de seu poderoso empregador .
Mas o plano deu errado. O fogo se espalhou mais rápido do que o esperado. A fumaça tomou conta do apartamento. E Safra e Torrente, trancados no quarto do pânico, não tiveram chance.
Quando a polícia começou a investigar, as inconsistências na história de Maher se tornaram evidentes. Não havia sinais de arrombamento. Nenhum dos “invasores” foi encontrado. E as próprias facadas de Maher — ele alegava ter sido atacado — pareciam ter sido auto-infligidas .
Em 2002, Maher foi condenado e sentenciado a 10 anos de prisão .
Caso encerrado, certo? Errado. Porque se há uma coisa que “Assassinato em Mônaco” deixa claro é que nada nessa história é simples.
A genialidade — ou irresponsabilidade, dependendo de quem você perguntar — do documentário está em como ele dá voz a todas as teorias possíveis, por mais absurdas que pareçam.
O diretor Hodges Usry monta um elenco de personagens que mais parece um reality show do que um documentário criminal . E cada um deles tem uma versão diferente do que aconteceu naquela noite.
Antes de morrer, Safra havia entregue ao FBI documentos que comprovavam um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo oligarcas russos . Ele se tornou informante — e, no mundo do crime organizado, informantes geralmente não vivem muito tempo. A suspeita de que a máfia russa estivesse por trás do incêndio circulou amplamente na época.
A brasileira Lily Safra, que herdou a fortuna do marido após sua morte, sempre foi alvo de especulações . Ela já havia enviuvado outras vezes — incluindo um caso em que seu primeiro marido morreu em circunstâncias misteriosas. Para os mais cínicos, Lily era uma “socialite escaladora” que teria se casado com Edmond por interesse. Ela teria motivos? Talvez. Mas o documentário não apresenta provas concretas — apenas insinuações, dadas por personagens excêntricos como a Lady Colin Campbell, uma aristocrata britânica que parece viver para fofocar sobre os ricos e famosos .
Há ainda a teoria de que o principado de Mônaco teria interesse em abafar o caso. Um dos homens mais ricos do mundo morre em um incêndio no país mais seguro do planeta? Isso não é exatamente uma boa propaganda para os bilionários que escolhem Mônaco como paraíso fiscal e refúgio. Segundo alguns entrevistados, as autoridades monegascas teriam pressionado por uma resolução rápida — ainda que isso significasse ignorar certas “inconsistências” .
Eis onde “Assassinato em Mônaco” se diferencia de qualquer outro documentário true crime que você já viu.
Durante as filmagens, algo inesperado aconteceu. Ted Maher fugiu da prisão — com a ajuda de seu companheiro de cela, um italiano chamado Luigi . A fuga, claro, foi noticiada mundialmente. E Hodges Usry, que já estava gravando havia anos, se viu no centro da história.
Maher foi recapturado, mas não antes de fazer contato com Usry. E então veio a bomba: Maher começou a insinuar que o próprio diretor poderia estar sendo manipulado — ou talvez fosse parte de algo maior .
É difícil explicar sem dar spoilers, mas a reviravolta é de fazer a cabeça girar. Em determinado momento, você não sabe mais em quem acreditar. Maher é um mentiroso compulsivo que manipulou o diretor? Ou Usry, em sua ânsia por uma boa história, se tornou cúmplice involuntário de um homem tentando limpar sua imagem?
O crítico do Decider foi implacável: “O diretor essencialmente dá a um mentiroso serial uma plataforma elevada para que ele possa espalhar ainda mais suas bobagens. Isso é manipulador na melhor das hipóteses e irresponsável na pior” .
Já o Heaven of Horror adotou um tom mais generoso: “Ted Maher é certamente o que me fez comparar ‘Assassinato em Mônaco’ tanto a ‘The Jinx’ quanto a ‘Tiger King'” .
Se você está se perguntando se “Assassinato em Mônaco” é um bom documentário, a resposta é: depende do que você espera dele.
O crítico Ticiano Osório, do portal GZH, colocou a questão de forma precisa: “Há pelo menos duas maneiras de encarar ‘Assassinato em Mônaco'” .
O documentário não é rigoroso. Ele abre mão da apuração minuciosa para privilegiar teorias conspiratórias e entrevistas com personagens excêntricos. A enfermeira Vivian Torrente, que também morreu no incêndio, é tratada como mera coadjuvante — um detalhe que muitos críticos consideraram “grotesco” .
O Decider foi direto: “Isso é lixolândia. PULE” .
Por outro lado, se você encarar “Assassinato em Mônaco” como uma obra de entretenimento — o fundamento de qualquer produção true crime, a despeito de objetivos nobres ou de problemas éticos —, aí o filme é simplesmente irresistível .
O diretor Hodges Usry sabe explorar os ingredientes intrigantes: o bilionário excêntrico, a viúva suspeita, o enfermeiro mentiroso, a aristocrata fofoqueira, a fuga da prisão, a reviravolta final. Tem mistério, suspense, humor (sim, em alguns momentos a coisa fica tão absurda que você não consegue deixar de rir) e um final que te deixa com mais perguntas do que respostas .
É Tiger King encontra Sucession — só que com mais mortes e menos bilhões.
O grande trunfo de “Assassinato em Mônaco” é seu elenco de personagens. Cada entrevistado parece ter saído de um filme dos Irmãos Coen.
Lançado em 17 de dezembro de 2025, “Assassinato em Mônaco” rapidamente entrou para o Top 10 da Netflix global . O público, ao que tudo indica, está abraçando a produção — especialmente os fãs de true crime que adoram uma boa teoria da conspiração.
No IMDb, o documentário mantém uma nota 6,5 (com base em mais de 2.500 avaliações) . No Reelgood, a pontuação é de 71/100 . Números respeitáveis, mas não espetaculares.
A crítica especializada está dividida:
Se você chegou até aqui, provavelmente já decidiu que vai assistir a “Assassinato em Mônaco” — ou já decidiu que não vai. De qualquer forma, aqui vai meu argumento final.
“Assassinato em Mônaco” não é um documentário sobre a morte de Edmond Safra. É um documentário sobre como contamos histórias. Sobre como a verdade é elástica. Sobre como a linha entre vítima e vilão às vezes é mais fina do que imaginamos. Sobre como até mesmo o diretor — que deveria ser o observador imparcial — pode ser puxado para dentro da narrativa.
É desconfortável? Sim. É manipulador? Talvez. É jornalisticamente questionável? Com certeza.
Mas também é viciante. Você não vai conseguir parar de assistir. E quando terminar, vai passar horas pensando no que viu — e talvez até pesquisando por conta própria para tentar descobrir “o que realmente aconteceu”.
E, de certa forma, esse é o objetivo de qualquer bom documentário true crime: não te dar respostas, mas te fazer questionar tudo.
Depois de ler tudo isso, eu preciso saber: você vai assistir a “Assassinato em Mônaco”? E o que você acha do gênero true crime — é uma forma legítima de investigação ou apenas entretenimento disfarçado de jornalismo?
Conta aqui nos comentários. E se você já assistiu, me conta: você acredita em Ted Maher ou acha que ele é só um mentiroso talentoso?
| Item | Informação |
|---|---|
| Título original | Murder in Monaco |
| Título em português | Assassinato em Mônaco |
| Diretor | Hodges Usry |
| Plataforma | Netflix |
| Data de estreia | 17 de dezembro de 2025 |
| Duração | 1h30min (90 minutos) |
| Gênero | Documentário / True Crime |
| Classificação indicativa | 18 anos (R) |
| País de origem | Estados Unidos |
| Disponibilidade | Global (Netflix) |






